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“O Venvanse é um pacto com o diabo”, diz jovem que se viciou no remédio

Maria Luiza Silveira, 26, advogada e estudante de neurociência — e namorada do ator Paulo Vilhena — relata sua luta contra a dependência do medicamento

Por Fernanda Bassette
Atualizado em 27 Maio 2024, 21h20 - Publicado em 11 nov 2022, 06h00

Conheci o Venvanse em uma festa que fui com um DJ amigo meu. Ele disse que achava que eu iria gostar porque, além de tirar o sono, o remédio deixava a pessoa consciente e sem perder o controle. Como eu sempre gostei de dormir e de acordar cedo, pareceu atrativo aquele convite para experimentar.

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Experimentei, amei. Pensei: é a cura da vida. Um tempo depois, descobri que na verdade era um pacto com o diabo, porque o preço a pagar é muito mais caro. Entrei na faculdade de Direito. Era aquele monte de coisa para ler… A partir do segundo semestre, eu ia para a faculdade às 7h da manhã, voltava meio dia, almoçava e ia para o estágio. Trabalhava no mínimo até 9 ou 10 da noite. Se alguém consegue isso “sóbrio”, admiro muito. Mas, para mim, era impossível. Então comecei a tomar o Venvanse.

Primeiro, na dose de 50 mg. Na época eu tinha um médico formado em hebiatria, especialidade que atende adolescentes e jovens. Falei que estava pegando o Venvanse com um amigo meu, mas que queria começar a tomar porque estava muito puxado os estudos e o trabalho. Ele prescreveu e passei a usar todos os dias 50 mg.

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Aí não conseguia mais dormir, porque ele é um estimulante e acelera muito o coração. O mesmo médico me prescreveu 2 mg de Frontal (alprazolan) para tomar à noite. Ele me prescrevia de boa, nem se preocupava. Eu justificava para minha mãe dizendo que eu precisava daquilo, sem saber até então os males que ele fazia.

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Eu comecei a tomar com 20 anos e fiquei seis anos tomando. Fui aumentando a dose e, no final do vício, estava tomando 150 mg de Venvanse todos os dias ao acordar e 16 mg de Frontal para dormir. Eu acelerava e desacelerava meu coração o tempo inteiro. Não conseguia sair da cama se não tomasse o Venvanse, nem fechar o olho se não tomasse Frontal. Eu preferia morrer do que ter que parar. Tomava três comprimidos de uma vez. Tinha vezes que queria sair para uma festa e tomar o Venvanse, mas se tomasse à noite ele ficaria atuando por muito tempo no meu sistema. Então eu abria a cápsula e cheirava o pó do remédio, porque fazia efeito mais rápido e perdia o efeito mais rápido também. Eu fazia isso muitas vezes.

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Cresci competindo em um esporte. Dos 7 aos 15 anos, treinava uma modalidade com cavalo chamada volteio (uma ginástica sobre o animal em movimento). A minha vida era sempre ganhar, eu não sabia lidar com o fracasso. Tive essa doutrinação no esporte, sempre buscar a excelência na minha vida. Só que isso causa uma pressão. E o Venvanse maximiza o seu desempenho em qualquer âmbito da vida: no esporte você vai estar melhor, no social você vai estar melhor, no intelectual você vai estar melhor. Como eu falei, ele é um pacto com o diabo. Ele oferece uma coisa “muito boa”, só que depois você tem que pagar um preço.

Eu tinha um acompanhamento médico. Mas era só eu ligar e pedir para deixar a receita na portaria do consultório que ele deixava. Depois descobri uma farmácia perto da minha casa, no Morumbi, que entrega delivery. Você paga um pouco mais caro, não precisa de receita e recebe na porta de casa.

Resolvi parar porque estava muito alucinada. Tive diversas crises dissociativas, de não saber onde eu estava. Uma vez minha mãe me pediu um copo de água e eu levei um casaco. Meu cérebro estava pedindo socorro. Só Deus sabe por que eu não morri. Minha psiquiatra fala que não sabe como eu não tive um dano mais permanente, porque as doses que eu estava tomando implicavam no risco de sofrer algo mais grave, e até morrer.

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Eu já namorava o Paulinho [Vilhena] havia dois anos e seis meses. E tive uma dessas crises dissociativas com ele, o que foi a gota d’água para nosso relacionamento naquela época. Eu estava muito maluca, brigava por tudo, era agressiva. Eu era outra pessoa. A gente terminou o namoro e meus pais choravam todo dia. Além de eu tomar remédio para acordar e dormir, ainda fumava maconha e bebia muito álcool. Cheguei a um nível de dependência que se passasse um dia sem o Venvanse eu ficava enjoada e vomitando. A abstinência me pegava. Eu pensava: se não parar de usar, vou morrer. Na época, eu preferiria morrer do que parar de tomar o remédio, de tão ruim que eu ficava sem ele. Mas me apoiei e busquei forças nos meus pais.

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Meus pais não sabiam mais o que fazer, estavam desesperados. Eles foram atrás de um psiquiatra especializado em vício e dependência. Nem tinham me contado, de tão ruim que eu estava. Eu nunca ficava lúcida, tinha crises o tempo todo. No desespero, meus pais marcaram uma consulta e foram até a médica perguntar o que fazer comigo. Foi bem na época que eu passei a pensar em parar.

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Foi o processo mais difícil que já vivi na vida. A abstinência é muito forte. Eu vomitava todo dia e suava frio. Sentia muito enjoo, não conseguia comer nada. Eu me sentia em um buraco negro. Como você está estimulando seu cérebro com neurotransmissores de fora, ele para de produzir. Quando você para de tomar o remédio, demora até o cérebro entender que precisa produzir as substâncias novamente.

Fiquei meses na abstinência, em um esquema como se fosse internação domiciliar. Eu não saia de casa, só ficava com a minha família. E, logo no começo, o Paulinho me mandou uma mensagem perguntando como eu estava. Contei que eu tinha parado com o Venvanse e marcamos de nos encontrar para conversar. Como eu não podia sair, ele foi em casa e disse que eu estava com a alma limpa. Com o Venvanse, eu era como se fosse um robô, não tinha humanidade, não tinha medo, não tinha insegurança, não tinha ciúmes. Eu não tinha nada, o remédio tira tudo isso. Retomamos o namoro.

O mais difícil para mim, além dos sintomas físicos que são horríveis, foi voltar à realidade depois de um tempo que fiquei em casa. A primeira vez que saí, fui almoçar com o Paulinho e dois amigos. Voltei para casa chorando, porque eu não sabia mais conversar, não sabia mais falar. Você liga a sua personalidade ao remédio. Foram seis anos tomando, então para mim eu “era” aquela outra pessoa. Eu tive que reaprender a viver socialmente, reaprender a fazer tudo. Eu não sabia mais surfar, não sabia mais montar a cavalo, não conseguia mais sair de casa.

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Foi muito, muito, muito difícil, mas valeu muito a pena. Agora me sinto humana novamente, com vulnerabilidades, medos e defeitos. Além disso, é muito bom não depender de uma droga. Eu estava viciada, não conseguia ficar um dia sem. E a conta chegou. Graças a Deus, tive um suporte enorme do meu lado, por isso consegui parar. Mas foi a coisa mais difícil da minha vida.

Estou há cinco meses sem tomar o Venvanse. Os primeiros quatro meses foram um inferno. Nesse último mês está sendo um pouco melhor, estou saindo da zona de perigo. Fiquei dois meses enjoada e sem conseguir sair de casa, nos outros dois meses eu ainda estava muito insegura, com medo de não conseguir me adequar, me sentindo sem aquela identidade que eu tinha criado com o remédio. Tive muita sorte de ter pessoas ao meu lado que me ajudaram. Larguei o direito de vez, era meu sonho ser uma advogada brilhante, mas isso estava me matando. Mudei completamente o objetivo de vida, quero construir uma família, quero uma vida tranquila e calma.

Esse remédio, querendo ou não, é o escape de toda uma geração imediatista, que não tem no que acreditar, que não sabe o que fazer com as dores e angústias e acha que ficar triste é doença. É muito importante falar sobre isso, porque quando falo com as pessoas, todo mundo conhece alguém que toma. É muito mais gente do que se pensa. Outro ponto importante é que o Venvanse está muito romantizado. Eu mesma, antes de aceitar que estava viciada, falava muito bem do Venvanse. Falava que todo mundo tinha que tomar, que ele mudava a vida, deixava a gente feliz, bem, competente. Estive num casamento no fim de semana e tinha um moço com uma camiseta escrita Venvanse: No party, without it (Venvanse: não tem festa sem ele). O Venvanse é isso: uma pílula mágica, que “resolve” todos os seus problemas. Mas nada é de graça.

Publicado em VEJA São Paulo de 16 de novembro de 2022, edição nº 2815

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