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Por dentro da Pina Contemporânea, o novo espaço da Pinacoteca de São Paulo

A Vejinha visitou em primeira mão o local que consolidará a instituição entre as maiores da América Latina

Por Mattheus Goto
Atualizado em 27 Maio 2024, 21h11 - Publicado em 16 dez 2022, 06h00

São dimensões formidáveis. O maior museu em área para exposições do Brasil. O segundo maior da América Latina, atrás apenas do Museu de Antropologia Nacional do México. Esses serão os status atualizados da Pinacoteca a partir de 25 de janeiro [a abertura foi adiada para 4 de março], quando a instituição inaugura a terceira unidade, ao lado do tradicional prédio da Avenida Tiradentes: a Pina Contemporânea.

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Com o edifício, a Pinacoteca, atualmente composta pela Pina Luz e pela Pina Estação, passa a ter 22 041 metros quadrados de área e 9 112 metros quadrados para exposições — o do México tem, respectivamente, 79 700 e 33 445.  Apesar do nome, as mostras não serão limitadas à arte contemporânea. “O termo se refere à ideia de um museu pensado para os nossos dias, com a mentalidade atual”, diz Jochen Volz, diretor da Pinacoteca.

Imagem mostra fachada de prédio branco
BOAS-VINDAS
A entrada do edifício, que será inaugurado em 25 de janeiro por duas mostras: uma com parte do acervo da Pina que ficava guardado e outra da sul-coreana Haegue Yang. (Leo Martins/Veja SP)

Nas últimas semanas, as obras correram a todo o vapor, com 200 trabalhadores nos canteiros de construção por dia. Tudo para que o prédio possa ser oficialmente entregue no sábado (17) [a cerimônia foi remarcada para o dia 29 deste mês], ainda sob a atual gestão do governo estadual — embora tenha diversas partes inacabadas e só abra aos visitantes no aniversário da cidade.

O investimento é de 85 milhões de reais, dos quais 55 milhões saíram dos cofres públicos e 30 milhões foram doados pela família Gouveia Telles, do empresário Marcel Telles, um dos fundadores da Ambev, sem o uso de leis de incentivos fiscais.

Imagem mostra mulher de roupa preta em frente a parede branca
A sul-coreana Haegue Yang:conhecida por estimular sentidos como o olfato e o tato. (Chantal Crousel/Divulgação)

“Para a Pinacoteca, é o maior evento desde a reinauguração do prédio da Pina Luz (em 1998)”, diz Volz, alemão à frente da instituição desde 2017 e ex-diretor artístico do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, entre 2005 e 2012 — que não entra em listas de maiores museus por se tratar de um “instituto cultural” a céu aberto. “Para a cultura brasileira, é um momento de grande celebração: um equipamento com essa idade (a Pinacoteca é de 1905) que consegue se reinventar e se desdobrar em três edifícios”, ele avalia.

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Para Volz, a novidade terá um impacto amplo na cena artística do país. “O prédio prepara o museu para as décadas que estão por vir e valoriza a produção contemporânea nacional, os artistas de hoje, do novo tempo”, afirma.

Imagem mostra espaço com suportes de arame brancos sobre piso cinza e branco
Suportes de arame para armazenar obras, na reserva técnica. (Leo Martins/Veja SP)

O projeto é assinado pelo escritório mineiro Arquitetos Associados, que também desenhou partes de Inhotim. A construção aproveita os prédios originais do terreno, inclusive um feito pelo arquiteto Ramos de Azevedo, autor da sede tradicional do museu.

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As três entradas — da Avenida Tiradentes, da Praça da Luz e do Jardim das Artes, que liga o novo edifício à Pina Luz — são térreas. “Isso gera um sentido de convivência entre o público e a Pinacoteca”, diz Carlos Alberto Maciel, sócio do Arquitetos Associados. “Imaginamos uma atmosfera de acolhimento, quase intimidade”, ele afirma.

Imagem mostra homem de camisa branca e calça preta encostado em suporte de arame
“O prédio prepara o museu para as décadas por vir e valoriza a atual produção artística brasileira.” Jochen Volz, diretor da Pinacoteca. (Leo Martins/Veja SP)

Ao entrar pela Avenida Tiradentes, o visitante atravessa um pequeno jardim e chega ao portão principal, que tem uma pequena marquise e uma fachada de cobogós. A edificação é um prédio da década de 50, de autoria do arquiteto Hélio Duarte, construído originalmente para receber a Escola Estadual Prudente de Moraes.

Ela tem dois blocos: o primeiro, à esquerda de quem entra, com só um pavimento, vai abrigar um centro de documentação, uma biblioteca e áreas de apoio à cafeteria; o segundo, à direita, com dois pisos, será destinado às reservas técnicas da Pina Contemporânea. No fundo do terreno, também paralelo à Avenida Tiradentes, há outro bloco, uma construção assinada pelo escritório de Ramos de Azevedo remanescente da mesma escola, que será a nova sede da administração.

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O pavilhão e os pórticos metálicos históricos ao lado desse prédio foram restaurados e receberão uma área de exposição com 200 metros quadrados chamada Galeria Praça, dois ateliês para atividades educacionais, uma loja e sanitários para o público. Os dois edifícios são integrados por uma praça central, com 1 339 metros quadrados.

“Ela conecta as áreas de circulação e põe as pessoas como protagonistas do espaço”, diz Paula Zasnicoff Cardoso, sócia do escritório de arquitetura. O público vai circular nesse “pátio monumental”, como ela descreve, junto com as andorinhas e outros pássaros do entorno.

“O projeto colabora para que as setenta espécies do Parque da Luz convivam harmoniosamente com o local”, acrescenta a arquiteta. “Isso leva a atmosfera do parque para dentro do museu, de maneira integrada”, ela afirma.

Uma parte importante do museu estará em um subsolo, com acesso pela Praça da Luz. Nele ficará uma sala de exposição, a Grande Galeria, de 1 000 metros quadrados, além de áreas técnicas. O espaço é coberto por uma estrutura metálica que serve de mezanino com cafeteria, salas multiúso, varandas e terraços.

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Imagem mostra área em construção
O mezanino: foto da obra em 12/12. (Arnaldo Lorençato/Veja SP)

Por fim, esse piso intermediário será coberto por um imponente pergolado de madeira, que pode ser visto de todas as entradas, com uma cobertura translúcida que cria um efeito de “sombra iluminada”.

A Pina Contemporânea é um sonho antigo. A ideia surgiu em reuniões da Associação Pinacoteca Arte e Cultura (Apac), organização social que administra a instituição, em 2006. Era fruto de uma preocupação com as limitações de espaço do museu — apenas 1 000 obras do acervo de mais de 11 000 peças eram expostas na área disponível.

A questão, à época, era para onde ele poderia se expandir. Diante da pergunta, o terreno ao lado do edifício principal passou a despertar o interesse dos gestores. Nele funcionava a escola, de propriedade da Secretaria de Educação. O conjunto de edifícios era parcialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Imagem mostra mapa com diversos pontos turísticos marcados
O PASSADO PRESENTE
O projeto da Pina Contemporânea, do escritório Arquitetos Associados em colaboração com Silvio Oksman, aproveitou o legado de um antigo colégio do local, a Escola Estadual Prudente de Moraes. No museu, três momentos históricos vão conviver: o primeiro edifício estudantil, de 1895, de Ramos de Azevedo, que pegou fogo e foi demolido, do qual resta apenas o bloco traseiro; o segundo prédio da mesma escola, desenhado por Hélio Duarte, de 1950, na entrada da Avenida Tiradentes; e as novas estruturas da Pina. É o primeiro prédio da Pinacoteca realmente projetado para ser um museu. A Pina Luz, também de Ramos de Azevedo, foi feita para sediar o Liceu de Artes e Ofícios. A Pina Estação, no Largo General Osório, abrigou originalmente os armazéns e escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana e sediou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP) entre 1940 e 1983. (Pinacoteca de São Paulo/Divulgação)

Em 2015, o colégio foi transferido para um prédio maior, na Praça Coronel Fernando Prestes, no Bom Retiro. Abriu-se o espaço para uma ambiciosa operação. Foram três anos de reivindicações da Pinacoteca e negociações com a prefeitura e o governo, até que o terreno fosse oficialmente cedido à Secretaria da Cultura e Economia Criativa, em 2018.

Em 2019, a Apac apresentou a proposta de expansão ao governo estadual, que incluía as estimativas de custo do projeto e a necessidade de aumentar a área de exposição e a capacidade do acervo. O investimento foi aprovado no ano seguinte pelo ex-governador João Doria (então no PSDB).

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“A Pina apresentava as condições necessárias para esse salto”, diz Sérgio Sá Leitão, secretário da Cultura e Economia Criativa. “Critérios como o fluxo de público foram levados em consideração”, ele afirma — o museu atrai 600 000 pessoas por ano. Os recursos foram incluídos no orçamento, as licenças, concedidas pelos órgãos de patrimônio e, em fevereiro deste ano, a construtora Afonso França Engenharia começou a tocar as obras.

Imagem mostra jardim com lago ao centro
O Jardim das Artes, que liga o novo prédio à Pina tradicional. (Pinacoteca de São Paulo/Divulgação)

O projeto mudou desde o primeiro rabisco. Inicialmente, o escritório encarregado elaborou um desenho com mais espaços expositivos, que custariam 100 milhões de reais. Além de precisar se ajustar ao teto de 85 milhões, mudanças comportamentais causadas pela pandemia influenciaram a nova versão da Pina Contemporânea que saiu do papel.

O foco passou a ser os espaços de convivência e circulação, com áreas mais abertas. Dessa forma, a Pinacoteca ganha novas finalidades e vira também uma praça, um lugar arborizado para relaxar, um palco de discussões e palestras e uma arena para outras linguagens artísticas.

O novo prédio, segundo os gestores, tem ainda a missão de antecipar tendências da arte, com espaços para obras de grandes dimensões e novas possibilidades de interação com o público. “A Pina Contemporânea terá lugares para a experimentação. Vai permitir outros formatos para se fazer e se mostrar a arte”, afirma Volz. “A estrutura tem uma flexibilidade maior, principalmente na sala subterrânea. Poderá trabalhar as mostras de forma multimidiática e se preparar para modalidades que a gente nem conhece ainda, como as possibilidades de arte interativa”, ele acrescenta.

Volz acredita, também, que o novo prédio traz uma maior acessibilidade e integração com o público. Para ele, as escadarias da Pina Luz podem representar uma barreira aos visitantes, que precisam subir para chegar ao nível das obras. A Pina Contemporânea, por sua vez, cria uma nova maneira de se relacionar com as pessoas: “de igual para igual”, principalmente por ser um museu unido ao parque e à rua.

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Imagem mostra números da Pinacoteca.
Números da Pina. (Veja SP/Veja SP)

A agenda do novo edifício será pautada pelo mesma proposta da Pinacoteca tradicional: estudar e expor a cultura brasileira, em diálogo com as culturas do mundo. “A Pinacoteca sempre foi um museu de arte contemporânea. Pinturas de (modernistas como) Cândido Portinari e Tarsila do Amaral foram expostas aqui logo após serem produzidas. A última reformulação que fizemos do acervo abandona a organização cronológica e entende que é possível encontrar uma relação artística direta em tempos históricos diferentes”, diz Volz.

O pontapé inicial está agendado para o aniversário de São Paulo com duas mostras de impacto: uma exposição coletiva com obras do acervo do museu, na Grande Galeria, e outra da sul-coreana Haegue Yang, artista de proeminência internacional conhecida por estimular sentidos como o olfato e o tato, na Galeria Praça.

No segundo semestre, o protagonismo promete ser da chinesa Cao Fei, reconhecida por refletir sobre a tecnologia em formatos como vídeo, instalação e performance. A exposição da artista contemporânea está prevista para 2 de setembro, na Grande Galeria.

No fim de junho, o brasiliense Antonio Obá ganhará uma mostra individual na Galeria Praça. A Pina Contemporânea estará aberta todos os dias com exceção das terças-feiras, das 10h às 18h. O ingresso custará 20 reais, mas a entrada será gratuita durante o primeiro mês de funcionamento.

Ao lado do Museu da Língua Portuguesa, do Museu de Arte Sacra, dos outros prédios da Pinacoteca e de construções monumentais como a Estação da Luz, a Pina Contemporânea consolida um circuito cultural invejável na região da Luz e do Bom Retiro.

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Imagem mostra homem de casaco apoiado sobre parede branca
O secretário Sérgio Sá Leitão afirma que a cidade investe em novos equipamentos culturais na contramão do atual governo federal. (Leo Martins/Veja SP)

“SP é a antítese do país”

Secretário da Cultura desde 2019, nomeado por João Doria, o ex-jornalista Sérgio Sá Leitão colocou a Pina Contemporânea no planejamento do governo assim que assumiu o cargo. Agora, no fim do mandato, corre para concluir a entrega do prédio, além de outros projetos.

Como a gestão viabilizou a nova Pina?

Entre 2019 a 2022, aumentamos em 42% o orçamento da secretaria e em 45% a verba para instituições culturais.

O público cresceu após o controle da pandemia?

Sim, tanto pelo alcance que as instituições ganharam no mundo virtual quanto pela preparação que houve nesse período. De 2019 para 2022, o público alcançado pelas instituições culturais do estado saltou de 15 milhões para 30 milhões.

Como projetos como o da Pina se integram com a comunidade ao redor?

Procuramos dar a nossa contribuição para a revitalização do centro histórico. Essa questão é complexa e não depende apenas de nós. Mas a cultura tem sido um fator importante. A Pina Contemporânea, o novo Museu da Língua Portuguesa e o Museu de Arte Sacra também foram pensados como vetores de revitalização do Centro. Eles atraem público e isso gera o surgimento de comércio e serviços.

Como define o momento da cena cultural de SP?

Esses quatro anos foram difíceis para a cultura em nível nacional. Tivemos um cenário adverso, de pandemia, ora com a omissão, ora com a ação perversa do governo federal. São Paulo foi a antítese do país. Mostramos que a cultura é essencial para São Paulo e para o Brasil.

Publicado em VEJA São Paulo de 21 de dezembro de 2022, edição nº 2820

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