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“Ter conhecido a Cracolândia foi transformador”, diz Letícia Colin

Indicada ao Emmy Internacional 2022 por seu papel como Amanda na série 'Onde Está Meu Coração', atriz reflete sobre política antidrogas e maternidade

Por Barbara Demerov
9 dez 2022, 06h00

Aos 32 anos, Letícia Colin vive um momento brilhante na carreira como atriz.

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Destaque em Todas as Flores, primeira novela feita exclusivamente para o streaming do Globoplay, e recém-indicada ao Emmy Internacional por sua elogiada atuação como a dependente química Amanda em Onde Está Meu Coração, a paulista de Santo André também se dedica a outro papel: o de ser mãe do pequeno Uri, de 3 anos.

Letícia se mostra interessada em mergulhar na complexidade de suas personagens e acredita que tais figuras jogam luz em temas espinhosos da sociedade, como o vício em substâncias ilícitas.

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Como define a experiência de ser indicada a um Emmy Internacional?

Foi emocionante. Mas me senti ainda mais feliz por ser latino-americana. A gente sabe como se tornou difícil fazer cultura no país, então teve um sabor a mais. Seja por conta da pandemia ou da temática da série, que envolve um drama familiar comum e que, ainda assim, enfrenta tanto preconceito. Sabemos que o crack é uma substância que assola as grandes cidades do país. É um problema que tem de ser tratado como questão de saúde, não só de polícia.

Pessoalmente, como o papel de Amanda a impactou?

Artisticamente, meu encontro com a diretora Luísa Lima é uma coisa explosiva e importante, porque ela é muito fora da curva. O jeito como conseguimos chegar a esses lugares é algo que me interessa como atriz. Meu instrumento sou eu mesma, abro as minhas gavetas internas. Adoro quando isso acontece. Ter conhecido a Cracolândia foi transformador, com o olhar de quem acredita na redução de danos e nos voluntários que estão ali, acolhendo. Olhei para aquelas pessoas, inclusive algumas já recuperadas, com dignidade. Foram histórias de vida que me atravessaram para sempre.

O que pensa sobre a expansão da Cracolândia em São Paulo?

Essas tentativas de higienização e expulsão dos usuários não são eficazes. O que é comprovado é a redução de danos: um tratamento reverenciado e aplicado na Holanda, por exemplo, país que é referência na condução da política de drogas. Enquanto a questão da droga for vista como manobra política e enquanto os usuários forem vistos como vagabundos, isso não vai ajudar em nada. Ninguém quer falar da origem, mas tudo tem uma trajetória. É o abismo social, esse desajuste econômico, que cria os usuários. O problema é mais profundo e a solução requer que ele seja assumido com a complexidade que possui.

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Você também é uma das estrelas de Todas as Flores, do Globoplay. Em quais sentidos sua personagem a desafia?

Vanessa tem um nível de ruindade bem alto. É invejosa, não aceita ver o brilho do outro. Ela quer brilhar sozinha, mas no fundo é infeliz. É a “pobre menina rica”. Tudo nela me encantou desde o início. Eu sempre achei que ela era genial, porque cruza uma fronteira radical do bullying e do maltrato. Foi estranho acomodar isso dentro de mim, porque a gente luta tanto contra isso no dia a dia, para combater os idiotas de abrirem a boca com seus preconceitos… É um exercício, mas também é divertido.

A produção é exclusiva no streaming e está fazendo muito sucesso. Acha que a moda vai pegar?

Torço para que sim, porque eu adoro fazer uma novela nesse formato. Até pela questão da duração do projeto, pois a gente gravaria em seis meses o que, em uma novela tradicional, levaria um ano. O formato condensa a trama. E a minha mãe está assistindo só streaming! As barreiras foram todas vencidas, sabe? E isso não aconteceu só com a minha mãe, mas com muitos amigos que não assinavam também.

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Qual sua opinião sobre as comparações entre Travessia, novela da Globo, e Todas As Flores?

Acho cruel comparar porque são universos completamente distintos. Como você compara livros de autores diferentes? Eu acho infeliz. Não dou muita bola para isso.

Como foi lidar com o incêndio que destruiu parte do cenário de Todas as Flores?

Eu estava em Nova York para o Emmy quando o incêndio aconteceu, mas ficamos consternados. É um cenário importante, onde todo o elenco se cruza. Ainda tinha muita coisa para ser filmada lá. Ficamos aliviados porque o incêndio aconteceu durante a hora do almoço. Todos se uniram ainda mais depois disso, e já voltamos a gravar com algumas adaptações.

“Diariamente me surpreendo com alguma sensação, dúvida ou emoção na relação com o meu filho. Parei de ter medo de pensar se está certo ou errado. Não tem receita”

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A Porta ao Lado é seu filme mais recente e estreia em breve. A trama fala sobre casamento aberto. Como se define diante desses arranjos amorosos?

Estou em um relacionamento fechado e eu e Michel (Melamed) somos a favor da terapia de casal. É uma grande ferramenta para evidenciar algumas coisas e para ajustar questões de comunicação.

Acha que esse tema é um tabu?

As drogas ainda são um tema mais espinhoso. Tem algo de sexy e vendável em falar sobre amor — que continua sendo um bom negócio. O drama das drogas foi muito marginalizado, o que é danoso para nós e as futuras gerações.

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Você nasceu em Santo André e hoje mora no Rio de Janeiro. Como se conecta com suas raízes?

Eu vou mais para São Carlos, que é a cidade de toda a minha família. Foi onde cresci, meus pais ainda moram lá. Faço questão de colocar o Uri, meu filho de 3 anos, pisando na terra, pegando o ovo da galinha.

Pensa em voltar para São Paulo?

Quando passo uns dias em São Paulo, penso: “Quero ficar aqui!”. Há sempre uma porta aberta. Me identifico com a cidade e o meu trabalho acaba me levando para esse lugar. Amo ver os prédios, as artes, enquanto ando pelo Minhocão. Tem muita poesia ali.

O que mudou após a maternidade?

As coisas não param de mudar. Diariamente me surpreendo com alguma sensação, dúvida ou emoção na relação com o meu filho, que é bem passional. Parei de ter medo de pensar se está certo ou errado. Não tem receita. É claro que a gente busca informação, mas o dia a dia é só nosso. A maternidade é o organismo mais vivo que eu já conheci de uma relação. É um acontecimento absurdo.

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Publicado em VEJA São Paulo de 14 de dezembro de 2022, edição nº 2819

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