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“A Mostra existe enquanto seu público quiser que ela exista”, diz diretora

Renata de Almeida está à frente de uma das edições mais desafiadoras e afirma que as salas de cinema são importantes também pelo que provocam na cidade

Por Barbara Demerov Atualizado em 8 out 2021, 11h24 - Publicado em 8 out 2021, 06h00

Os últimos anos estão sendo árduos para Renata de Almeida e a equipe da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Além da pandemia, que moveu a edição de 2020 para o on-line — em 2021 as sessões serão virtuais e presenciais —, o tradicional evento que acontece há 45 anos na cidade enfrenta cortes de orçamento e a ausência de patrocinadores como a Petrobras.

Mas, em meio ao malabarismo para tudo sair da melhor forma, Renata destaca a importância de estimular o retorno seguro ao cinema. Além disso, filmes como Annette e Bergman Island, destaques no Festival de Cannes, marcarão presença no evento, que acontece de 21 de outubro a 3 de novembro.

Em 2020, a Mostra on-line trouxe 198 filmes. Neste ano são cerca de 200 títulos. Como foi o processo de seleção diante do formato híbrido?

No início do ano, diversos festivais estavam programados para ser presenciais. Achei que teríamos dificuldade em conseguir filmes para realizar uma Mostra virtual, mas nos enganamos. Houve muito interesse por parte de diretores e distribuidoras, então houve a necessidade de manter a plataforma do ano passado. Quando vimos, tínhamos o virtual, as salas de cinema e as despesas que vêm com elas. Estamos quebrando a cabeça para fazer a conta fechar, mas acho impor tante voltar para o cinema neste ano. Teremos filmes fortes de Berlim e de Cannes.

Quais serão os protocolos nas sessões presenciais?

Com a população vacinada, comprovante de vacinação, distanciamento, ocupação reduzida nas salas e uso obrigatório de máscara, creio que o público se sentirá seguro. Essa é uma obrigação da Mostra. Os cinemas são nossos parceiros desde sempre. Se eu quero viver em uma cidade cujos cinemas exibam filmes que eu goste, tenho que colaborar também.

O filme Annette será lançado no Brasil pela plataforma de streaming MUBI. Acha que isso será normal daqui para a frente?

As plataformas viraram um pouco o que as grandes produtoras e distribuidoras são. Mas, no Brasil, o que é cinema e o que é televisão andavam de forma muito separada. Na Europa já não é assim há décadas. Já apresentamos na Mostra a série The Kingdom, de Lars von Trier. Isso vai acontecer cada vez mais. Acredito que devemos considerar qualidade e conteúdo em vez dessa divisão tão rígida. É algo que veio para ficar.

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O crescimento do streaming pode prejudicar o cinema tradicional?

O streaming possui benefícios. Há muitos filmes sendo feitos graças às plataformas que os financiam. Mas temos que tomar cuidado com a sala de cinema, porque ela não é importante somente pelo filme em si, mas também pelo que ela provoca na cidade, o que traz às pessoas. Não podemos perder o encontro. Nossa natureza é social.

As sessões gratuitas no vão livre do Masp voltarão a acontecer. Outros espaços na cidade serão aproveitados?

Fizemos muitas vezes sessões nos CEUs. Estamos conversando com a prefeitura e, se der certo, faremos este ano também. Realizaremos sessões no Museu da Imigração, algo inédito no festival. É um museu tão bonito e, ao mesmo tempo, pouco explorado. Teremos dois dias de programação com projeção externa.

Você sente que o festival representa a unificação do cinema com o espaço urbano?

Sim. A Mostra existe enquanto seu público quiser que ela exista. É para a cidade que ela é feita. E eu sinto que existe um carinho de São Paulo pela Mostra. É um momento de ocupar lugares, um trabalho de quinze dias que faz a diferença. Quando eu sentir que ninguém mais quer saber dela, vou entender que é hora de encerrar.

“A primeira Mostra que eu fiz foi no ano do Plano Collor. Todo mundo estava tenso, com uma certa tristeza. É um pouco do que está acontecendo agora”

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Em 2019, a Mostra perdeu o patrocínio da Petrobras. Em 2020, veio a pandemia. Como vocês se adaptaram a esses impactos?

Quando tínhamos a Petrobras, era um sossego. Já no encerramento de uma edição tínhamos um patrocinador que garantia o ano seguinte. Agora há poucos garantidos, então trabalhamos por um tempo na insegurança. Sem patrocínios na pandemia, você aposta. Nós temos o patrocínio do Itaú, Spcine e Sabesp, além de parceiros como Sesc, ACNUR, Museu da Imigração e Incubadora Paradiso/Instituto Olga Rabinovich. Mas as incertezas durante o caminho pioraram. Trabalhávamos com uma segurança que não existe mais. A primeira Mostra que eu fiz foi no ano do Plano Collor. Todo mundo estava tenso, de mau humor, com uma certa tristeza. É um pouco do que está acontecendo agora. Estamos em uma depressão coletiva no país. Fico até constrangida em reclamar das dificuldades porque eu sei que estamos globalmente em uma situação difícil.

Esta edição foi mais difícil de produzir do que a de 2020?

No ano passado, demoramos para entender como seria, mas, quando entendemos, tudo fluiu. Tivemos cortes de orçamento, mas também cortamos gastos. Neste ano voltamos a ter gastos com os mesmos cortes de orçamento. Mas temos que pesar os riscos e acreditamos que voltar às salas (de cinema) é uma contribuição. Não vamos voltar como era antes, com a Central da Mostra por exemplo, mas é um primeiro passo e temos bons filmes como acompanhamento.

O governo federal patrocina a Mostra. Há algum tipo de ingerência na programação?

Temos patrocínio por meio da Lei Rouanet. Tivemos uma demora na aprovação neste ano, mas nunca nos pediram nada. E eu também não ia aceitar. Às vezes é melhor não fazer do que cair em algum tipo de chantagem, mas não houve nada disso. O que aconteceu foi uma demora a mais para aprovar o orçamento, mas nenhuma pressão relacionada ao conteúdo.

Qual o impacto da atual gestão federal no cinema brasileiro e festivais?

A produção de cinema está parada. Tentaram passar uma imagem de que a cultura só tira dinheiro da sociedade. Não é verdade. Essa área gera impostos, emprego e educação. O setor da cultura tem incentivos, mas ele devolve esse dinheiro. Não compreender a função da arte é um pouco tacanho.

Seu marido, Leon Cakoff, que fundou a Mostra, em 1977, faleceu há dez anos. Qual o maior legado deixado por ele?

Quando fazíamos uma sessão que não tinha público, ele dizia: “Se três pessoas vieram e isso fez bem a elas, já está bom”. Leon me ensinou a não ter ansiedade para tudo ser um sucesso total. Essa é uma forte marca da Mostra. Há filmes aguardados e aqueles que promovem a descoberta. Este é um dos grandes legados de Leon: o convite ao desconhecido.

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Publicado em VEJA São Paulo de 13 de outubro de 2021, edição nº 2759

  • https://youtu.be/a3AvpUfaeRE

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