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“Não admito que a Paulista seja segunda cracolândia de São Paulo”, diz presidente de associação

Lívio Giosa, do Paulista Viva, lidera projeto de metas para uma avenida mais “verde” e espera ver mais locais abertos para pedestres

Por Humberto Abdo Atualizado em 23 set 2021, 19h48 - Publicado em 24 set 2021, 06h00

Membro da Associação Paulista Viva desde a sua criação, em 1996, o empresário e ex-deputado estadual Lívio Giosa atua como presidente do grupo há pouco mais de dois anos. Com a chegada dos 130 anos da avenida, Giosa defende uma série de metas para transformar a Paulista em um polo sustentável com menos emissão de CO² e ações de conscientização. Enquanto isso, tenta atender às reclamações de moradores sobre as aglomerações aos domingos e o aumento de furtos e assaltos na pandemia.

O que o senhor planeja para o aniversário de 130 anos da avenida?

A data é em dezembro e estamos no esquenta. Já tivemos um fórum de sustentabilidade e lançamos um programa de conscientização com ações voltadas à eficiência energética.

Queremos reduzir as emissões de CO2 da região, atrair o poder público e a iniciativa privada para melhorar o paisagismo e a integração com os parques. A ciclovia já faz parte do conceito da avenida, agora a meta é trazer pontos de carga para carros elétricos. Esses planos começam em outubro e não têm data para terminar.

Como pretendem reduzir a sujeira nas calçadas, uma das principais reclamações dos frequentadores, e consertar passeios irregulares?

Já foi muito pior. Hoje temos mais adesão a essas reivindicações pelo ótimo diálogo com a Subprefeitura da Sé. Mas a avenida é gerida por três subprefeituras e nem sempre o contato fica alinhado, não há quem se entenda.

Enquanto a Sé nos atende imediatamente, a Praça Oswaldo Cruz está às moscas porque a Subprefeitura da Vila Mariana não toma medidas condizentes com nossos pedidos. Nessa primeira fase, vamos distribuir vinte lixeiras com imagens do Masp e mais quarenta bituqueiras. As calçadas fazem parte da discussão na programação de 130 anos, que inclui ideias de reurbanização.

Vários prédios comerciais restringem os espaços públicos com obstáculos de ferro, uma alternativa conhecida como “arquitetura hostil”. A avenida não deveria servir de exemplo e acolher seus pedestres?

Sim, as gentilezas urbanas geram e promovem as gentilezas humanas. Esse foi o tema de um dos nossos painéis e estamos alinhados com a presidente da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (Regina Monteiro).

Em alguns casos, as grades e ferros só estavam lá para uma reforma na pandemia. Os demais têm dificuldade de conviver com a população em situação de rua, que aumentou muito nesses últimos meses. Muitos instalam grandes vasos para diminuir essa alocação.

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A associação tem algum projeto para ajudar os moradores de rua?

Hoje essa ocupação é maior no entorno dos parques. Nós temos mecanismos e mão de obra suficientes para atacar isso, mas quem deve conduzir é o poder público. O problema da prefeitura é que ela quer enxergar a cidade como um todo, e isso não dá certo.

Precisa conhecer essas pessoas e criar uma situação digna, elas devem se sentir acolhidas. Com roupas, alimentação, asseio, chamando-as para um artesanato e uma nova prática profissional, isso pode ocorrer. Normalmente, de 100 pessoas só virão dez. E está ótimo, porque essas dez vão dizer para os outros moradores de rua “Opa, vocês não sabem o que estão perdendo”. Eu já fui deputado e sei que, se não tiver vontade política, não sai nada.

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Alguns moradores dos edifícios na avenida alegam que os furtos e assaltos aumentaram muito na pandemia. Como vocês têm lidado com esse problema?

Nosso papel é o tempo todo tentar fornecer dados e informações para a polícia. Temos um grupo de WhatsApp de segurança com todos os síndicos, conquistamos uma base móvel no Trianon, doamos vinte bicicletas para policiais ficarem circulando e a Guarda Civil Metropolitana sempre se apresenta, mas não consegue minimizar esses casos.

Temos a intenção de trazer de volta aquelas cabines físicas nas esquinas, que servem de espaço para um policial militar. Seria mais uma maneira de ter autoridades no local e coibir esses crimes.

“Muitos prédios instalam vasos nas calçadas para diminuir a presença de moradores de rua, que aumentou nos últimos meses”

Desde 2016, a “minicracolândia” da Praça José Molina tem venda de drogas e presença de usuários. Isso cresceu no último ano?

Cresceu, sem dúvida, e estamos cuidando ativamente disso porque não admito que a Paulista seja a segunda cracolândia de São Paulo. Todo dia a Guarda Civil está lá tentando desfazer, tira, depois volta, a briga é diária. Bastaria mobilizar times de hospitais da região e criar uma metodologia de acolhimento. As pessoas foram levadas a estar ali, mas, se não se dá nenhuma porta de saída, a entrega é total.

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Na Paulista aberta para pedestres aos domingos, as aglomerações geram incômodo aos moradores, assim como o som alto de artistas de rua, que muitas vezes se apresentam próximos uns dos outros. Como distribuir melhor essa ocupação?

Os próprios músicos e artistas perceberam que não adianta colocar uma banda em frente ao edifício residencial, eles acabam migrando para áreas que não têm efeito direto. Quando o projeto da avenida aberta nasceu, o impacto foi grande. Ali é passagem para pelo menos sete hospitais e a associação dos moradores foi contra na época. Nós somos a favor desse modelo que vai até as 16 horas. Se vai até as 18 horas, o uso de drogas e bebida alcoólica é uma loucura, supervisível.

Falta fiscalização para controlar os comércios ambulantes também?

Ainda falta muito e houve uma certa parcimônia compreensível na pandemia quanto a eles. Esse tema foi uma das nossas reivindicações desde o início, pois as regras não estavam claras. Quando não há regra, tudo pode e um ocupa mais espaço na calçada que o outro. Fica desorganizado.

O senhor vê potencial para novos eventos na Paulista pós-pandemia?

A Avenida Paulista já está saturada. Nós temos três grandes eventos: réveillon, Parada do Orgulho LGBTQIA+ e a Corrida de São Silvestre. A capital tem vários locais fantásticos que poderiam reproduzir a Paulista Aberta, por exemplo, como o Largo do Pacaembu, o Vale do Anhangabaú e a região do Memorial da América Latina. São lugares com pouco movimento e é preciso criar esse mapa para regionalizar a circulação das pessoas, fazer com que esses espaços públicos sejam mais rotativos. A Paulista acolhe todos os espaços culturais, nunca vai deixar de ser o símbolo da cidade e nesse sentido estamos bem servidos.

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Publicado em VEJA São Paulo de 29 de setembro de 2021, edição nº 2757

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