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De Mogi para a Ópera Estatal de Hamburgo: a trajetória do maestro Luiz de Godoy

Aos 34 anos, o paulista é diretor artístico do coro infantil dos Meninos Cantores de Hamburgo, com toda sua formação acadêmica em escolas públicas

Por Tomás Novaes Atualizado em 9 jun 2022, 18h06 - Publicado em 10 jun 2022, 06h00

Com apenas 5 anos, em 1993, um garoto de Mogi das Cruzes entrou no coro infantil de um projeto educacional graças ao empenho de sua mãe, professora da rede pública. Quase três décadas depois, o menino é diretor artístico do coro infantil dos Meninos Cantores de Hamburgo e maestro na Ópera Estatal na mesma cidade alemã.

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Aos 34 anos, ele tem uma passagem anterior pela Singakademie, em Viena. Ainda na capital austríaca, formou-se em regência com distinção e recebeu um Prêmio Erwin Ortner de promoção da música coral em 2016. As ligações que unem esses momentos da vida e carreira de Luiz de Godoy contam uma história e tanto.

Imagem mostra homem de terno de costas, regendo coro de crianças
Músico em ação: regência do coro dos Meninos Cantores de Hamburgo. Arquivo pessoal/Divulgação

O gosto pela música floresceu cedo e, aos 12 anos, já morando em São Paulo, começou seus estudos de piano na Escola Municipal de Música, instituição anexa ao Teatro Municipal. Na prova de admissão, questionado sobre o porquê de querer estudar piano, respondeu, com todas as letras: “Porque quero ser maestro”.

Maestro, por sinal, e não regente — Luiz não gosta desse termo. “Eu espero que eu nunca ‘reja’ a partir de um trono, mas que eu realmente construa interpretações junto com os meus conjuntos”, diz. A vontade de se aprimorar o levou à Universidade de São Paulo (USP), onde cursou a graduação em piano, e na sequência ao exterior, em 2010, concluindo três mestrados e mais especializações. Seja no Brasil, Portugal, França ou Alemanha, todo o seu trajeto acadêmico foi construído em escolas públicas.

Imagem mostra sala de concertos com orquestra e coro de crianças no palco
Luiz de Godoy regendo os Meninos Cantores de Hamburgo. Marcelo Hernandez/Funke Foto Services/Divulgação

“É difícil fazer isso ficar tangível em uma sociedade como a nossa, que tem tanto desprezo por esse tipo de instituição”, acredita Luiz. O artista não esquece as dificuldades vividas no Brasil. “Não dá para a gente glamorizar. É preciso desmistificar o acesso aos equipamentos públicos, que são poucos e estão sucateados”, lamenta.

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Dos pianos faltando teclas no Departamento de Música da USP até a Konzerthaus de Viena, foram anos de muito estudo e trabalho para se estabelecer não só financeiramente na Europa, mas cultural e socialmente. “Racismo não tem como ser ameno. Racismo é racismo. A sensação que tenho na Alemanha é de uma coisa menos agressiva do que no Brasil, porque fora sou diferente, mas, quando eu faço a música que eles gostam de ouvir, viro igual”, diz Luiz, que é negro. “Aqui, há uma perversidade, uma autoflagelação do povo para consigo mesmo.”

Imagem mostra criança ao lado de mulher com os braços levantados, em cima de palco, cantando em microfone
Ainda criança, em 1994: solo em coro infantil de Mogi das Cruzes. Arquivo pessoal/Divulgação

De volta a São Paulo para uma agenda de concertos neste mês, que inclui um recital com os Meninos Cantores de Hamburgo, a Orquestra Sinfônica da USP e solistas negros da Ocupação Cultural Jeholu na Catedral Evangélica de São Paulo em 24 de junho, esta é também a primeira vez que Luiz rege uma orquestra profissional por aqui, mesmo com uma carreira prestigiada no exterior.

Hoje, também coordenando o recém-criado departamento de educação musical através de coros infantojuvenis em Hamburgo, depois de ocupar cargos como mestre de capela dos Meninos Cantores de Viena, Godoy traça um caminho único. “São atuações pedagogicamente valiosas, artisticamente de ponta e social e politicamente relevantes em absoluto dentro de um contexto antirracista e decolonial. É tudo o que sempre sonhei”, afirma com convicção.

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Publicado em VEJA São Paulo de 15 de junho de 2022, edição nº 2793

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