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As histórias curiosas por trás das capas de livros como Torto Arado

Os artistas que ilustraram o abre-alas de publicações como a recém-lançada Enciclopédia Negra

Por Tatiane de Assis Atualizado em 8 abr 2021, 20h43 - Publicado em 9 abr 2021, 06h00

Novo olhar para Afra

A imagem de uma pintura da paulistana Mônica Ventura, 36 anos, estampa a Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras (Companhia das Letras; R$ 89,90), título organizado por Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Schwarcz. A publicação traz mais de 400 verbetes sobre personagens deixados de lado pela história oficial. Uma delas é Afra, que foi retratada por Mônica. “Foi um exercício de imaginação, também busquei na internet referências de mulheres negras com pele retinta para criá-la”, explica a artista.

Capa do livro Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras (Companhia das Letras). Mostra a imagem de uma pintura de uma mulher negra vestindo turbante
Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras (Companhia das Letras) Divulgação/Divulgação

Modificação consentida

A capa do livro O Som do Rugido da Onça (Companhia das Letras; R$ 54,90), da pernambucana Micheliny Verunschk, nasceu de uma pintura do roraimense Jaider Esbell, 42 anos, chamada O Clã das Onças (2020). “A obra já estava pronta. Pedi então permissão para usá-la. Também ficou acordado que alteraríamos as cores originais”, detalha Alceu Chiesorin Nunes, diretor de arte da editora, responsável pela diagramação do título, que traz a história de duas crianças indígenas que foram raptadas no século XIX.

Capa do livro O Som do Rugido da Onça (Companhia das Letras). Mostra ilustração de oito onças de mesmo tamanho, mas cores diferentes, na vertical
O Som do Rugido da Onça (Companhia das Letras; R$ 54,90) Divulgação/Divulgação

Busca no céu

O paulistano Fernando Vilela, 47 anos, assina as ilustrações da capa (e do miolo) do livro infantil Anna e o Balão (Dark Side Books; R$ 54,90). O título, escrito por Ferréz, tem Anna como protagonista. Trata-se de uma garotinha que perdeu o pai e que, sem entender muito como é essa coisa chamada morte, vai em busca dele pelo céu, em uma viagem de balão. “Construí as ilustrações com gravura em madeira e carimbos, técnicas que têm mais espaço para o improviso, trazendo assim mais leveza ao trabalho”, diz Vilela.

Capa do livro Anna e o Balão (Dark Side Books). Mostra uma ilustração de uma pequena menina encarando um enorme balão
Anna e o Balão (Dark Side Books) Divulgação/Divulgação

Facões verdes

“Este desenho é uma releitura de uma fotografia com duas mulheres empunhando facões”, inicia a paulistana Linoca Souza, 31 anos, que fez a ilustração da capa do romance best-seller Torto Arado (Todavia; R$ 57,90). “Não sabia de quem era, mas depois descobri que tinha sido feita pelo fotógrafo italiano Giovanni Marrozzini e que era parte de uma série realizada no país africano de Camarões em 2010”, acrescenta ela, que substitui os objetos cortantes por folhas de espadade-santa-bárbara. “Essa planta tem muita força, mesmo com poucos cuidados, sobrevive em diferentes solos”, conclui a artista.

Capa de Torto Arado (Todavia). Mostra uma ilustração de duas mulheres negras segurando duas plantas espada-de-santa-barbara
Torto Arado (Todavia) Divulgação/Divulgação

Enredo hipnótico

Ninguém continua o mesmo depois de ler Torto Arado, criação do baiano Itamar Vieira Junior. É hipnótico. Cinematográfico. Desconcertante. Logo nas páginas iniciais, brilha no ar a lâmina de uma faca escondida em uma mala e embrulhada num pano encardido em sangue. Um acidente acontece em seguida. Entra-se em um torvelinho. Não há mais como sair dele. Por isso, sorvi num único gole a história de Bibiana e Belonísia.

Dividida em três partes, a prosa poética edifica a trajetória dessas irmãs, mulheres fortes, lavradoras da Chapada Diamantina, quilombolas que vislumbram um futuro melhor. Itamar foge de armadilhas fáceis, não fala como as personagens, esquiva-se do caricato. Com linguagem sonora, musical, Torto Arado é para ser lido em voz alta. E seu refinado autor, premiado com o LeYa e o Jabuti, vem a ser a promessa de um dos grandes nomes da literatura brasileira do século XXI. ARNALDO LORENÇATO

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    Publicado em VEJA São Paulo de 14 de abril de 2021, edição nº 2733

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