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Sustentabilidade vertical: cresce número de prédios residenciais com selo verde

Selo de entidade ligada à USP se multiplica por condomínios da capital; descubra o bairro da Zona Sul campeão de empreendimentos do segmento

Por Guilherme Queiroz Atualizado em 16 dez 2021, 16h57 - Publicado em 17 dez 2021, 06h00

Não é mais só na hora de comprar um carro que os paulistanos ficam de olho no nível de emissão de gás carbônico. No ramo imobiliário, as incorporadoras que atuam na cidade perceberam que o consumidor está cada vez mais atento à sustentabilidade.

De olho nesse nicho, desde 2008 a Fundação Vanzolini, ligada à Escola Politécnica da USP, oferece no Brasil a certificação AQUA-HQE, de origem francesa. Uma vez contratada pela construtora, auditores da entidade acompanham a fase de projeto, a execução e a finalização do empreendimento.

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O objetivo é garantir, por exemplo, que toda a matéria-prima do prédio venha de locais próximos, para reduzir a emissão de carbono; exigir a presença de mecanismos que diminuam o consumo de água ou energia — e outros 270 requisitos, como um bom nível de luminosidade natural dos ambientes e o tipo de acabamento usado no banheiro, para evitar mofo.

Imagem mostra dois trabalhadores de capacete e camiseta azul em canteiro de obras com tijolos e cimento fresco.
Canteiro de obras da Trisul: selo da Vanzolini no projeto. Trisul/Divulgação

São 455 prédios residenciais com esse certificado no país, 206 deles na cidade de São Paulo. No total, 21.382 unidades passaram pelas pranchetas dos auditores da Vanzolini na capital. “Na França são mais de 2 milhões de unidades com o HQE, ainda estamos aprendendo”, conta o gerente comercial da entidade, Bruno Casagrande.

“O mercado queria um padrão normativo que atestasse que o empreendimento é sustentável”, explica. “No pré-projeto (a empresa) pode, por exemplo, fazer um estudo pluviométrico do bairro e se der um bom resultado, colocar um sistema de captação e reúso de água”. Casagrande afirma que, em prédios com o selo, o consumo de água é de 20% a 30% menor do que em edifícios sem a certificação.

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No caso de energia elétrica, a economia chega a 25%. “Nos resíduos domiciliares, a redução é de cerca de 60%, mas tenho casos em que o incorporador consegue reciclar até 98%”. Na ponta do consumidor final, o principal benefício é a redução no custo do condomínio. Segundo a Fundação Vanzolini, o valor da taxa mensal chega a ser 20% inferior.

A Vila Mariana é a região com o maior número de prédios com a certificação na cidade, com 23 edifícios entregues ou em construção. Também na Zona Sul, a Saúde tem seis edificações do tipo, entre elas duas torres da construtora Tarjab. Com quinze andares cada uma e previsão de entrega para 2022, dispõem de 190 unidades de 56 a 98 metros quadrados, que custam a partir de 369.000 reais. O empreendimento conta com 1 100 metros quadrados de área verde.

“Teoricamente, os empreendimentos de alto padrão têm mais margem para absorver os requisitos de sustentabilidade, mas é possível fazer em populares”, afirma o CEO da Tarjab, Carlos Borges, que conta que em 2022 a empresa entrega um conjunto do Minha Casa Minha Vida com o selo na Vila Carioca, na Zona Sul.

Tabela com duas colunas: Bairro e Número de edifícios.
Bairros de São Paulo com prédios residenciais com o selo AQUA. Reprodução/Veja SP

“Existe o certificado EDGE, o Green Building Council, o Selo Azul da Caixa Econômica, mas o AQUA entendemos que é o mais adaptado à realidade brasileira e o que traz mais sustentabilidade”, diz Borges.

Na mesma região da cidade, nas margens do Parque Ibirapuera, a construtora Trisul sobe dois prédios de catorze andares com 56 unidades de 186 a 233 metros quadrados, que custam a partir de 7,8 milhões de reais e têm previsão de conclusão para maio de 2022. “A água do chuveiro e do lavatório irá para uma estação de tratamento e vai alimentar as torneiras do térreo e a lavagem do jardim”, cita o diretor técnico da empresa, Roberto Pastor.

A professora da Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp Vanessa Gomes da Silva explica que serviços como o da Vanzolini servem para preencher um vácuo legal. “São certificações voluntárias e existem justamente para mostrar que houve uma preocupação. E preenchem um vazio da nossa legislação, que fala pouco sobre sustentabilidade.”

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Imagem mostra sala de jantar iluminada, com cadeiras bege, um banco de madeira, um quadro na parede e uma janela grande na lateral do cômodo.
O empreendimento na Saúde da Tarjab. Paulo Brenta/Divulgação

É preciso, no entanto, olho atento às promessas. “O meu prédio é entendido com sustentável se tiver painel fotovoltaico, torneira economizadora, piso com material reciclado, entre outros. E para cada uma dessas coisas eu ganho um check no selo. Mas eu posso ter tudo isso e ainda ter um desempenho ruim. Preciso ter um prédio com baixo consumo de energia. Mas no caso do AQUA, grande parte das avaliações se apega não ao que o edifício tem, mas ao que ele desempenha na prática”, aponta Vanessa, que afirma que o selo da Vanzolini é um dos mais consolidados no mercado imobiliário residencial.

Outra função é, claro, chamar a atenção do consumidor interessado em morar em um apartamento com um viés sustentável. É o caso da administradora Carolina Pascotto, 27, que desde dezembro de 2020 mora em uma unidade de 70 metros quadrados na Vila Madalena com a certificação. “Cheguei a olhar outros empreendimentos, mas a sustentabilidade foi um diferencial”, conta ela, sobre o processo de escolha.

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“Aqui tem muita luz natural, então só preciso utilizar o ar-condicionado naquele calor de 35 graus. Usa-se a água da chuva para lavar o prédio e regar o jardim.” Outra premissa do selo é optar por árvores nativas para a composição do paisagismo. “Trabalho de casa e não me sinto enclausurada. Meu apartamento dá de frente para o jardim”.

Mas, na ponta do papel, quanto custa para a construtora passar por todo o crivo da Vanzolini? “Gira em torno de 1% do custo da obra, sendo ela de 100 milhões ou 20 milhões de reais”, explica Roberto Pastor, da Trisul.

206 prédios residenciais possuem a certificação em São Paulo

“Tem empreendedores que dizem que no final sai mais barato (do que um projeto sem o AQUA), alguns afirmam que não aumenta em nada e para outros fica de 1% a 3% mais caro em relação ao valor final”, explica Bruno Casagrande, da Fundação Vanzolini.

Carlos Borges, da Tarjab, que também é vice-presidente de tecnologia e sustentabilidade do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), diz que a tendência é que o uso de selos do tipo vire algo comum no mercado.

Na sua análise, nos próximos anos as garantias de sustentabilidade se tornarão também uma exigência para a obtenção de financiamentos. “Temos conhecimento de bancos que vão criar benefícios para quem tiver certificações do tipo nos empreendimentos. É um processo que veio para ficar e tende a se acelerar.”

O ideal, no entanto, é que o termo pare o mais rápido possível de ser considerado um diferencial. “O sonho de consumo é não precisar falar de construção sustentável. Que isso deixe de ser algo a mais para virar algo típico, o que eu ainda não vi acontecer”, finaliza a professora Vanessa.

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Publicado em VEJA São Paulo de 22 de dezembro de 2021, edição nº 2769

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