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“Vamos postergar o início do primeiro semestre para abril”, diz reitor da USP

Vahan Agopyan fala sobre a volta às aulas da graduação, ressalta a importância da pesquisa e avalia a abertura do câmpus para eventos como o Boat Show

Por Tatiane de Assis 15 jan 2021, 01h00

Houve problemas para a USP se adequar às medidas de enfrentamento da pandemia?

É muito difícil fazer uma paralisação de uma universidade quando ela se dedica à pesquisa, que é o nosso caso. Um experimento, qualquer que seja, não fica lá esperando por você. A parte de pós-graduação acompanha a pesquisa em seu funcionamento. Na graduação é diferente, é possível fazer modificações. Mas é preciso planejamento, para não frustrar as expectativas da própria sociedade, que vai precisar desses profissionais em momentos de crise, e dos alunos, que querem continuar seus estudos para trabalhar.

O acesso à internet e aos equipamentos para acompanhar as aulas on-line foi um empecilho para os alunos, como foi visto na educação básica?

Nós trabalhamos com um número muito grande de alunos que entram através de vagas reservadas. Em 2021, pelo menos 50% dos nossos estudantes serão oriundos de escolas públicas. Tivemos de imediatamente alugar mais de 3 000 modems ou chips para que uma parte da comunidade universitária tivesse acesso à internet. Os alunos promoveram ações de solidariedade e conseguiram notebooks para os colegas que não tinham.

Apesar do cenário caótico, há algum saldo positivo de 2020?

Há alguns anos a universidade estimula a formação de grupos multidisciplinares. Com a pandemia, a importância disso foi mais bem percebida e houve uma intensificação que se desdobra, no aspecto internacional, da colaboração de um grupo daqui, por exemplo, com um grupo da Europa, China ou Japão.

Se o senhor fosse eleger o maior desafio deste ano, qual seria?

Temos vários, mas o maior é a retomada da graduação. Ela tem de voltar para seu caminho normal. Mas quando digo “caminho normal” logicamente é algo diferente do que se via antes da pandemia. Estou preocupado porque nós já vamos postergar o início do primeiro semestre da graduação para abril. Não podemos demorar demais, mas obviamente nos guiamos pela questão da saúde dos alunos.

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O que podemos esperar de diferente nas salas de aula?

Em 2021, não nos primeiros meses, mas nos últimos, as aulas presenciais serão enriquecidas com o emprego das ferramentas com que tanto alunos quanto professores tiveram contato durante o isolamento social.

As universidades públicas têm sido acusadas de ser locais de “doutrinação esquerdista”. Qual seu posicionamento?

Eu diria que é uma leitura incorreta, de pessoas que não compreendem ou não entendem como funciona uma universidade. A universidade é o lócus dos debates. Na hora que você não estimula essa discussão, deixa de formar o cidadão. As universidades são atacadas tanto pela esquerda quanto pela direita porque treinar os jovens para pensar é o que os mais radicais odeiam.

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Pesquisadora em um laboratório
Pesquisadora Helena Ferreira na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos: laboratório no interior ficou ativo e fez testes de Covid-19 Força tarefa Covid-19 USP Pirassununga/Divulgação

De que forma a USP pode ajudar no combate às fake news relacionadas às vacinas contra a Covid-19?

A universidade tenta colaborar sendo uma fonte fidedigna de informações, baseadas na ciência, no conhecimento, e não no achismo ou na suposição. O Jornal da USP nunca foi tão lido quanto nesta crise.

“As universidades são atacadas tanto pela esquerda quanto pela direita, porque treinar os jovens para pensar é o que os mais radicais odeiam”

Qual será o tamanho do orçamento de 2021 em relação ao do ano passado?

Ele é cerca de 4% maior do que o de 2020, gira em torno de 5,5 bilhões de reais.

Como foi a experiência do Boat Show na raia olímpica? Há previsão de novos eventos?

A cessão do espaço resultou, além do aluguel de 90 000 reais, em melhorias na estrutura, com balizamentos e troca de cabeamento do espaço; na doação de um barco de 18 pés, avaliado em 70 000 reais e que será utilizado pela comunidade para atividades esportivas, de ensino, pesquisa e extensão; e em 50% da renda do estacionamento do evento destinada ao Centro de Práticas Esportivas (Cepe). Somados, esses valores chegam a 400 000 reais. Para ter uma ideia, a raia tem custo anual de 1 milhão de reais para os cofres da universidade. Em razão da pandemia, não estão previstos eventos comerciais no câmpus neste primeiro semestre.

É possível planejar a construção de moradias populares no câmpus do Butantã?

Não há nenhum projeto da universidade voltado para essa questão. Em relação ao uso eficiente do câmpus, temos investido em projetos para transformar a USP num local mais amigável para seus usuários, principalmente pedestres e ciclistas e quem usa transporte público.

Pessoalmente, qual foi sua percepção da pandemia?

Foi e está sendo um período muito duro. Eu não perdi familiares, mas perdi amigos que, por causa da Covid-19, não se trataram das doenças cardiovasculares e oncológicas que tinham e faleceram. Quanto aos cuidados que tomo, como sou uma pessoa pública e tenho de estar presente, sigo todas as precauções recomendadas pelos médicos da universidade que orientam as atividades da reitoria. Tenho álcool gel na minha mesa, uso máscara sempre quando estou com alguém. Não estou usando ar-condicionado e trabalho com as janelas abertas.

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Publicado em VEJA São Paulo de 20 de janeiro de 2021, edição nº 2721

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