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“Onde está escrito que preciso obedecer ao partido?”, diz Mario Palumbo

Vereador do MDB afirma que recebe recados para votar a favor de Ricardo Nunes e diz que, apesar de ter fotos com a família do presidente, não é bolsonarista

Por Sérgio Quintella Atualizado em 4 nov 2021, 17h27 - Publicado em 5 nov 2021, 06h00

Terceiro vereador mais lembrado pelo eleitor no ano passado, com 118 000 votos, Mario Palumbo é do time dos delegados-celebridades, que possuem milhares de seguidores nas redes sociais. Integrante da chamada “bancada da bala” e admirador do então deputado Jair Bolsonaro, destinou 400 000 reais de emendas parlamentares para a compra de dez fuzis que serão usados pela Guarda Civil Metropolitana. Mesmo sem saber quem vai poder utilizar o armamento, o parlamentar diz que a escolha é benéfica.

O senhor destinou 400 000 reais de emenda parlamentar para a compra de dez fuzis que servirão à Guarda Civil. Uma das críticas é porque os agentes não possuem experiência com esse tipo de armamento.

A nossa Guarda Civil não é pioneira em comprar fuzil. Há guardas menores usando, como em Caxias do Sul (Rio Grande do Sul), São José dos Campos e Indaiatuba (no interior paulista). Quando o prefeito é sábio, ele valoriza a guarda. Geralmente as pessoas que criticam nunca pisaram em um ambiente hostil. É fácil criticar a Guarda Civil. O crime está de fuzil, de pistola. Nada mais justo que nossas forças estejam preparadas. Não é para a guarda atuar (com fuzil) na Cracolândia ou em reintegração de posse.

Mas a falta de experiência com armas desse calibre não seria um impeditivo para a compra?

Eles terão treinamento. Quando eu tive, em 2012, paguei do meu bolso. A Polícia Civil não oferecia isso. Agora temos de lutar para a guarda ter esse treinamento. Ninguém vai pegar o fuzil e dar para o guarda. Haverá o treinamento e a prova.

Não é um erro comprar primeiro as armas para só depois saber quem poderá usá-las e sem definir como será o treinamento?

O fuzil vai ser usado por uma tropa muito pequena, o Iope (Inspetoria de Operações Especiais). Apenas dez guardas serão habilitados. É um grupo de elite.

O senhor é do partido do prefeito Ricardo Nunes, mas tem votado sistematicamente contra os projetos do Executivo. Tem ouvido muita reclamação interna?

Sempre escuto, mas não me importo. Não vou fazer o que o prefeito quer, o que meus colegas querem. Quero trabalhar com independência. O projeto que aumenta salários de secretários e subprefeitos é uma vergonha. Ouvi que o reajuste é porque eles mexem com contratos milionários. E o enfermeiro que lida com vidas, não merece aumento? Muitos já falaram que eu não vou conseguir me reeleger. Não estou à venda. Não aceito palpite no que eu devo ou não fazer.

E se a relação com o MDB azedar de vez, pretende trocar de partido?

Não me importo muito, não. Se quiserem , podem me expulsar. A cúpula não fala nada, não, mas manda recadinho. Também respondo com certa ironia. Onde está escrito que preciso obedecer ao partido? Mandam assessores, não falam mais direto. De vez em quando dizem “isso não, isso sim”. Mas pararam de vir. Se for a vontade deles, eles que me expulsem. Eu durmo com a consciência tranquila.

O senhor foi crítico da força-tarefa de combate às festas clandestinas na cidade. Usaram força excessiva para fechar baladas?

Foi desproporcional. E não só baladas. Vi uma viatura do Garra, com policiais portando fuzil, em salão de cabeleireiro nos Jardins. Na hora achei que fosse roubo, sequestro. Mas a culpa não é dos policiais. É uma ordem idiota? É, mas não é ilegal. Vimos espetáculos, inclusive com deputado envolvido. No salão de cabeleireiro, era só ir lá e fechar. Eles iriam obedecer. Enquanto isso, na Estação da Luz, milhares de pessoas ficam aglomeradas todos os dias. E nas periferias os pancadões continuaram com tudo.

O senhor se refere ao deputado federal Alexandre Frota, que participou do comando das ações?

Ele usou dos meios que possuía para aparecer. Mas foi de maneira errada. Tem de ter limite.

“Vi uma viatura do Garra, com policiais portando fuzil, em salão de cabeleireiro nos Jardins. Na hora achei que fosse roubo, sequestro”

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Seu mandato tem algum projeto para combater os pancadões?

Já tem previsão na lei de contravenção penal. Como você faz para combater? Sou contrário a chegar com bombas, se as festas já estiverem ocorrendo. Tem de chegar antes. Que o governo faça o “caça-pancadão”. As subprefeituras podem ajudar arrumando local propício, sem libidinagem, sem carro roubado, sem droga, sem rachas. Mas não há vontade política. É mais fácil fechar baladinha com a TV.

Há várias fotos antigas suas na internet com o presidente Bolsonaro e os filhos dele. Ainda mantém contato com a família presidencial?

Não levanto a bandeira de nenhum político. Tive relação com eles antes de pensar em ser político. Não tive mais contato nenhum. Nunca mais me encontrei com eles. Não apago meu passado. Não sou advogado de político. Sigo de forma independente.

O senhor ainda é bolsonarista?

Não sou. E nunca fui negacionista. Mas entre ele e o Lula, vou 1 000 vezes no Bolsonaro. Só que ele teve falhas. Deveria falar de máscaras e distanciamento. Mas o comércio tinha de abrir.

Em um discurso, o senhor falou que vereador não trabalha. Por que acha isso?

Falei o seguinte: durante a pandemia, poucos vieram para a Câmara Municipal. Todo mês caíam 18 000 reais na nossa conta. Aqui parecia um deserto. É fácil falar para ficar em casa ganhando 18 000. Eu me recusei a ficar em casa. Vim todos os dias. Apareci sábado, domingo. Eu trabalho pra caramba. Quer ficar em casa? Não receba salário.

O senhor faz parte dos chamados delegados-celebridades, que possuem milhares de seguidores nas redes sociais. Outro nome é o delegado Da Cunha, que pediu afastamento do cargo após ser acusado de promover operações falsas. O que ocorreu com ele? Vocês são mesmo estrelas?

Não me considero celebridade. Tem de ter humildade. O poder e a fama são efêmeros. Isso vai passar. Não acompanhei o que aconteceu com o Cunha. Ele entrou em choque com o delegado-geral (Ruy Ferraz), que não é meu amigo. Quando vi essa briga, fiquei quieto.

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Publicado em VEJA São Paulo de 10 de novembro de 2021, edição nº 2763

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