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“Pandemia fez pessoas ficarem mais favoráveis à renda básica”, diz Eduardo Suplicy

Vereador diz que comércio deveria ter fechado para diminuir contágio, que situação da população de rua preocupa e que espera diálogo positivo com prefeito

Por Tatiane de Assis Atualizado em 4 jun 2021, 10h38 - Publicado em 4 jun 2021, 06h00

Como tem sido a rotina do senhor na pandemia?

Desde o dia 23 de março de 2020, estou disciplinadamente isolado. Trabalhando pelo computador. De forma precisa, participei de 528 diálogos virtuais até agora. Segunda, quarta e sexta, começo o dia fazendo ginástica em casa, das 7h15 às 8h15, com uma professora que me dá aulas desde 1999. No fim de semana, faço exercício na pracinha em frente a minha casa.

E o contato com sua família, como ficou?

Um dos meus filhos, o João, mora comigo. Os outros filhos e netos me visitam com todo cuidado, máscara e tudo mais. Permaneço em quarentena. Gostaria de ter ido à manifestação no dia 29 de maio, mas não fui.

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Aproxima-se o aniversário de 80 anos do senhor, em 21 de junho, como será a celebração?

Vou ganhar alguns presentes muito especiais. Finalmente, o presidente Lula aceitou um convite para fazer um diálogo ao vivo comigo sobre a renda básica de cidadania, com duração de sessenta minutos. Será no dia 21 de junho, às 18h. Nessa data também vai ao ar uma conversa com meu maior amigo no planeta Terra, o professor Philippe Van Parijs, maior autoridade sobre a renda básica no mundo.

eduardo suplicy sentado em seu escritório na frente de seu notebook e olhando para a foto
Suplicy em seu escritório: 528 conversas virtuais na quarentena Leo Martins/Veja SP

Como o senhor avalia o combate da pandemia na cidade e no estado de São Paulo?

O governo federal não ajudou muito com suas atitudes, especialmente as do presidente, para que se acelerasse o combate à pandemia. O exemplo de Araraquara, que de depois de ter um aumento do contágio fechou o comércio para valer, foi mais acertado. Seria bom se tivesse tido um procedimento semelhante para a Grande São Paulo. Claro que teria de ser feito de maneira mais coordenada, porque não estamos falando de uma cidade, mas de várias. Reconheço que houve um esforço dos governos Bruno Covas e João Doria, inclusive na produção de vacinas no Instituto Butantan, mas não o suficiente para enfrentar a gravidade dos problemas sociais.

O senhor pode detalhar mais esse último ponto?

A situação da população de rua em São Paulo é bastante preocupante. Em censo feito pela prefeitura em 2019, tem-se o dado de que havia 24 344 pessoas nessa condição. Em 2020 e 2021, o aumento do desemprego e dos despejos contribuiu para que houvesse uma piora da situação, a ponto de algumas organizações estimarem que esse número hoje esteja próximo de 40 000. Dados oficiais da prefeitura informam que até maio 44 pessoas em situação de rua faleceram de Covid-19. Só que especialistas têm dito que esse número é subdimensionado, porque eles vêm apenas do Consultório Na Rua (modalidade de serviço de atenção primária à saúde). Nas unidades de saúde, o campo de endereço das fichas cadastrais não possui a opção situação de rua. Existe apenas endereço ignorado, o que inclui pessoas sem domicílio, mas não fornece informações detalhadas.

+ Eduardo Suplicy é o vereador mais votado de São Paulo

E como andam as proposições que o senhor apresentou voltadas para essa população?

Junto com outros autores, apresentei a lei 17.252/2019, que consolida a política municipal para pessoas em situação de rua e institui um comitê secretarial, que abrange a discussão de temas como assistência social, direitos humanos e zeladoria urbana. Contudo, o decreto regulamentador está ainda para ser construído pela prefeitura. Com respeito à rede de acolhimento assistencial, hoje não há oferta suficiente. Considerando a situação emergencial advinda da Covid-19, são disponibilizadas 14 000 vagas. A maior parte delas é em centro de acolhida para homens sozinhos. Para casais e seus filhos, há poucas vagas, por isso é muito comum ver famílias nas ruas.

“Finalmente, o Lula aceitou um convite para fazer um diálogo comigo, ao vivo, com duração de sessenta minutos”

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Como foi a sua relação com o prefeito Bruno Covas?

Tivemos diálogos construtivos, mesmo tendo diferenças, as mais diversas.

O que esperar da gestão de Ricardo Nunes?

Estou aguardando a audiência com ele e a bancada do PT para analisar diversos projetos, inclusive sobre a economia solidária, o parque do Bexiga e o projeto para impedir remoções de ocupações durante a pandemia. Espero resultados positivos desse diálogo.

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Qual o senhor acredita que será a grande questão legislativa em 2022?

Eu espero que os candidatos à Presidência, inclusive o Lula, tenham como objetivo regulamentar quanto antes a renda básica de cidadania. E para isso é preciso que eles compreendam a maior vantagem da renda básica. Inclusive, você não me perguntou qual é.

Qual é?

É do ponto de vista da dignidade e da liberdade. O grande Prêmio Nobel de Economia, o indiano Amartya Sen, nos fala que, se o desenvolvimento for de fato para valer, deve significar maior liberdade para todas as pessoas.

Depois da concessão do auxílio emergencial na pandemia, o senhor acredita que a população e a classe política se tornaram mais favoráveis à implementação da renda básica?

Com certeza, houve um avanço enorme nesse assunto no Brasil e nos diferentes países do mundo. Porque foi verificado, ao redor do globo, nesse período, as formas mais diversas de distribuição de renda.

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Publicado em VEJA São Paulo de 09 de junho de 2021, edição nº 2741

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