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“Mataram meu marido na minha frente”

Ligia Bolognesi conta como sua história de amor com Roni foi interrompida em um assalto

Por Ligia Bolognesi, em depoimento a Fernanda Campos Almeida Atualizado em 6 set 2021, 14h32 - Publicado em 3 set 2021, 06h00

“Eu não era próxima do Roni quando trabalhava com ele, em 2006. Nós dois nos casamos com outras pessoas, mas o encontrei novamente em uma escola de paraquedismo depois do meu divórcio. Ele — também divorciado — era paraquedista profissional. Comecei a conversar com ele porque queria me tornar uma atleta no esporte. Quando Roni me convidou para tomar um chope, percebi que havia segundas intenções. Eu não queria nada na época porque tinha sido traída e o divórcio foi difícil. Porém, depois de outros encontros, repensei a decisão. Quem conhecia o Roni sabe que ele insistia no que queria.

Bastaram seis meses para que juntássemos as escovas de dentes. Ele conseguiu reavivar coisas dentro de mim que estavam esquecidas. Eu não lembrava o que era aquele friozinho na barriga. Eu esperava por uma mensagem dele durante o trabalho. Ansiava por um encontro, uma viagem, um beijo. Geralmente esse sentimento se enfraquece com o passar do tempo, mas eu continuei sentindo tudo isso ao longo de três anos que passamos casados.

ligia e roni abraçados posando para a foto em uma queda d'água, em Laos, ao fundo. ambos estão de óculos escuros
Lua de mel: mergulho nas cachoeiras de Laos, na Ásia Reprodução/Arquivo Pessoal/Veja SP

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Em 2019, nós dois viajamos até a praia com minha família. Na volta, quando estávamos deixando meus pais no portão da casa deles, fomos abordados por quatro rapazes. Roni foi o último a perceber o assalto porque ele estava na parte de trás do carro, tirando as bagagens do porta-malas. Quando ele se deu conta, os criminosos já estavam apontando as armas. Imediatamente, ele abriu os braços e disse ‘Ei! O que é isso? O que está acontecendo?’. Dois bandidos saíram correndo. Um deles, armado, ameaçou correr também, mas parou, deu a volta e atirou no peito do Roni antes de fugir. Meu marido caiu no chão com o impacto. Depois conseguiu se levantar e entrou no carro. A última coisa que ele me falou foi ‘Neguinha, tomei um tiro no peito. Me leva para o hospital’. Eu pulei para o banco do motorista e ele desmaiou em cima de mim, deixando minhas roupas ensanguentadas. Dirigi enlouquecidamente até o hospital mais próximo. Ele não conseguia respirar, afogando-se em sangue. levaram-no direto para a sala de cirurgia. Eu esperava na recepção em estado de choque. Pessoas que eu não conhecia tentavam limpar com álcool em gel o sangue impregnado da minha cabeça aos meus pés. Depois de duas horas, o médico me chamou em uma sala. Quando ele fechou a porta e pediu para que eu sentasse, já sabia qual seria a notícia. Ele disse que o Roni lutou bravamente pela vida, mas faleceu na mesa de cirurgia. A dor que eu sentia foi dilacerante. Parecia que alguém rasgava meu peito com uma faca de cima a baixo. Como isso era possível? Estava voltando da praia com meu marido e de uma hora para a outra o corpo dele se dirigia ao IML. De volta em casa, o silêncio sem ele era ensurdecedor.

Enterramos o Roni dois dias depois. Após o velório, investigadores apareceram na minha porta. Surgiu uma força dentro de mim para combater aquela impunidade. Ajudei a polícia a identificar os criminosos. Em três dias, um deles foi preso e o inquérito foi encaminhado para o Ministério Público.

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foto em preto e branco de ligia e roni abraçados e sorrindo em ubatuba. ligia está de óculos escuros
Primeiras memórias do casal Ligia e Roni: viagem a Ubatuba Reprodução/Arquivo Pessoal/Veja SP

Meses se passaram. Encontrei os outros bandidos nas redes sociais. Eles faziam postagens todos os dias. Tirava prints de tudo e criei um dossiê. Eles postavam fotos felizes no Carnaval, Páscoa, Dia das Mães. Para não enlouquecer, comecei a praticar krav magá — luta de defesa pessoal — em uma escola. Lá, conheci uma amiga e uma voz me dizia para contar a ela o que tinha acontecido. Descobri que ela era promotora do Ministério Público e que viu meu caso passando na televisão. Ela me colocou em contato com a Divisão de Capturas da Polícia Civil. Em menos de um mês, ela me ligou dizendo ‘Pode descansar. Todos foram capturados’.

Fiz questão de ir até a cela provisória de quem apertou o gatilho. Olhei nos olhos dele e disse que, provavelmente, ele tinha cruzado com pessoas que só tinham medo dele, mas chegou alguém que tinha coragem. Que eu iria até o inferno para pegá-lo e que ele apodreceria na cadeia. Ele não me respondeu. Parecia que uma tonelada tinha sido retirada das minhas costas, mas foi a partir daí que comecei a enfrentar meu luto de verdade. Retirei as coisas do Roni de casa e fui aos poucos voltando a viver. Eu lembrava do jeito dele de ser prático e decidido e refletia que, se eu tivesse demorado para aceitar o namoro, estaria arrependida porque o tempo que passamos juntos foi curto. Acredito que cada um que aparece na nossa vida tem um propósito e o do Roni foi o de me ensinar a viver o agora e não ficar me lamentando. Antes dele, eu não sabia o que era amar de verdade. Eu tive a rara oportunidade de ter conhecido o amor em sua mais pura essência. O amor — que envelhece com você ou que dura apenas um dia — tem que ser vivido no agora. A vida é um sopro! Não há tempo para relacionamentos encostados ou falidos. Sei que, onde quer que o Roni esteja, ele está vendo que estou me permitindo viver.”

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Publicado em VEJA São Paulo de 8 de setembro de 2021, edição nº 2754

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