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João de Deus é considerado foragido e está na lista da Interpol

O prazo para que ele se entregasse terminou às 14h de ontem. Saiba mais

Por Estadão Conteúdo
Atualizado em 16 dez 2018, 10h38 - Publicado em 16 dez 2018, 10h26
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  • O médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, foi considerado foragido pelo Ministério Público e pela Justiça e teve seu nome incluído na lista de procurados da Interpol. O prazo para que ele se entregasse terminou às 14h de ontem. Acusado de abuso sexual, o líder religioso não é visto publicamente desde a última quarta (12). A expectativa é que ele se entregue hoje em Goiás. O Estado apurou que a data foi definida numa negociação entre a polícia e a defesa do médium. Amanhã será apresentado um pedido de habeas corpus.

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    Integrantes do grupo destacado para fazer a investigação e as negociações ainda colocam em dúvida se o acerto será cumprido. Para eles, a defesa do acusado deverá aguardar o resultado do pedido de habeas corpus (HC). Se a medida for concedida antes de ele se apresentar, seria possível evitar um desgaste maior para o médium, que atrai anualmente para a cidade goiana de Abadiânia 120 000 fiéis – 40% deles estrangeiros. O advogado de defesa Alberto Zacharias Toron afirmou, porém, que seu cliente vai se entregar antes da apresentação do HC.

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    Uma vez preso, João de Deus seria levado para Goiânia, onde deve acontecer o interrogatório. “Será longo, detalhado. Há um grande número de relatos e informações que precisam ser questionadas”, afirmou o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes de Almeida. O MP de Goiás também investiga eventual movimentação suspeita de recursos financeiros, como transferência de dinheiro das contas de João de Deus. Transações financeiras desse tipo poderiam indicar intenção de ocultar valores e reduzir as chances de pagamento de indenização às vítimas. Segundo o jornal O Globo, João de Deus retirou 35 milhões de reais após as primeiras denúncias.

    Estratégias

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    A expectativa é que a defesa explore o que Toron classifica como “pequeno número de depoimentos” usados pela Justiça para fundamentar a decretação da prisão preventiva, o que poderia indicar fragilidade de provas. 

    Há a possibilidade, ainda, de que a espiritualidade atribuída a João de Deus seja usada na argumentação. Para a defesa, a intolerância religiosa poderia incentivar um grande número de denúncias, muitas das quais ainda não foram formalizadas.

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    A tendência é que os advogados procurem mostrar o médium como um homem rústico, simples, de personalidade multifacetada e que, muitas vezes, seria orientado por recomendações de guias espirituais. Em suma, viveria com uma lógica pouco convencional.

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    O momento em que o País vive também deverá ser incluído. Para advogados, depois de quatro anos de operação que trouxe denúncias contra uma série de pessoas públicas, e de um crime contra um candidato à Presidência, haveria um clima mais favorável ao que eles chamam de tendência ao “denuncismo” e à “polarização”. 

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    Denúncias

    O líder espiritual é suspeito de ter abusado sexualmente de mulheres durante consultas particulares realizadas no centro onde presta atendimento espiritual, a Casa Dom Inácio de Loyola em Abadiânia, no interior de Goiás. Em sua aparição nesse local na quarta (12), fez um rápido pronunciamento em que se declarou inocente e disse que está à disposição da Justiça.

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    A força-tarefa do Ministério Público encarregada de investigar os casos já coletou mais de 330 depoimentos em vários Estados e seis países. Do total, trinta mulheres já formalizaram as acusações. Elas relatam que, depois do atendimento em grupo, eram convidadas para uma consulta individual, onde os abusos seriam cometidos. O MP afirma ainda que quatro funcionários são suspeitos de ter envolvimento nos crimes.

    Clima de tensão

    Esperada pela população carente de Abadiânia, a festa de entrega de presentes de Natal tradicionalmente promovida por João de Deus foi feita ontem sob clima de tensão e alegria protocolar. Horas antes de o médium ser considerado foragido da polícia e procurado pela Interpol, sua mulher Ana Keila Teixeira pedia preces para o marido e alegria no coração. “Apesar das turbulências, peço que todos continuem rezando para que a verdade prevaleça”, disse.

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    Tendas foram montadas em frente da casa de João de Deus, na cidade goiana. Ali foram dispostos brinquedos que atraíram cerca de 200 crianças. Adultos ficaram na fila, aguardando a distribuição de bolas e bonecas para seus filhos. 

    Em anos anteriores, muitas vezes era o próprio João de Deus que se vestia de Papai Noel e fazia a entrega. Desta vez, ele foi lembrado pela mulher no discurso e também nas camisetas usadas por pessoas da organização. A veste branca trazia um retrato do médium, de braços abertos, com um gorro de Papai Noel, e os dizeres: “Obrigado João de Deus.”

    Não havia na festa um número significativo de voluntários que atendem em seu centro. Os “filhos de Abadiânia”, como são conhecidos os habitantes que nasceram e cresceram na cidade, eram a maior parte dos frequentadores. Adultos procuravam ficar em silêncio e fugiam de perguntas sobre a prisão preventiva, num sinal de respeito. A festa, ao contrário do que ocorreu em outros anos, acabou cedo. Às 14h, brinquedos haviam sido desmontados e pouco depois, a rua era lavada.

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    Dividida

    Abadiânia é dividia pela BR-60. Na parte onde ocorreu a festa, a dos “filhos de Abadiânia”, a expectativa é que as denúncias contra João de Deus não provoquem grande impacto. “Aqui o comércio não depende dele. Não vai ficar nem melhor, nem pior”, disse um morador que não quis se identificar. Depois que as denúncias de abuso sexual vieram à tona, na semana passada, o receio de ser identificado aumentou. A figura de João de Deus provoca não apenas adoração, mas temor – sobretudo entre os mais pobres.

    A apreensão é evidente na parte oposta da cidade, onde pousadas e lojas floresceram com o turismo movimentado pela Casa Dom Inácio de Loyola. Anualmente, cerca de 120 000 pessoas visitavam o local em busca de tratamento com o médium. O receio é que o turismo religioso caia e leve junto seus empregos e a renda. Nesta semana, a primeira depois de o escândalo surgir, o movimento já foi abalado. Várias reservas de hotéis foram canceladas e o número de ônibus com fiéis se reduziu.

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