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Famosos e anônimos retornam com depoimentos após um ano de quarentena

Entrevistados pela Vejinha no início da pandemia, Titi Müller, Rita Cadillac e personagens que não puderam se isolar contam o que mudou em suas rotinas

Por Redação VEJA São Paulo Atualizado em 18 mar 2021, 15h33 - Publicado em 12 mar 2021, 06h00

No início da quarentena, a Vejinha recolheu depoimentos de diferentes profissionais, entre famosos e anônimos, para contar em diários como estavam encarando a pandemia. Eles retornam para falar o que mudou.

“O trabalho não está igual”

Graças a Deus, estou ótima de saúde, tanto física quanto mental. Uso máscara, álcool em gel e respeito o distanciamento social. Não vou a baladas. Os lugares a que vou têm pessoas idosas e conscientes dos cuidados necessários neste momento. Minha rotina não mudou, continuo me exercitando em casa, cozinho, lavo e passeio com o meu cachorrinho, o Pietro.

“Pode ser bobagem, mas a vacinação deveria ter começado por quem trabalha, pega metrô e ônibus todo dia”

A única coisa que não está igual é o trabalho. Minha situação financeira ainda é delicada (ela pediu auxílio emergencial em 2020). Fiz muitos projetos no Carnaval, o que ajudou. Hoje (10), foi lançado o clipe do Pedro e Paraná do qual participei. Foi gravado em Maringá. Viajei até lá, mas antes de gravar, eu e os outros atores fizemos o teste de PCR. Só tirei a máscara quando vinha a câmera. Pode ser bobagem, mas a vacinação deveria ter começado por quem trabalha, pega ônibus e metrô todo dia.

rita cadillac encostada na parede

Rita Cadillac, 67 anos, é atriz e modelo, em depoimento a Tatiane de Assis

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“A maternidade trouxe uma ansiedade diferente”

Um ano depois, existe o medo com o cansaço existencial. Desde a chegada do Benja, minha mãe o viu apenas uma vez. Meu pai ainda não o conhece. Não tivemos coragem de colocá-lo em um avião e trazê-lo para cá. O Benja vai fazer 1 ano e é provável que ele não o conheça até lá. A perspectiva de cada faixa etária é diferente. Os idosos têm de se resguardar mais. Ao mesmo tempo, não julgo quem está indo ao baile da saudade.

O mais triste é que a gente se acostumou com o pior, que é o número de mortes. Estamos anestesiados. Tenho pensado muito no trabalho. Estávamos em pré-produção do Anota Aí novo e foi adiado. Não sabemos como vai ser, porque as produções estão suspensas. Dá muita vontade de voltar a trabalhar, ao mesmo tempo dá medo de ir para a rua. Não faz sentido um programa de viagens agora.

Fui ao parque outro dia e tinha mais movimento. Fiquei na noia. Mudou tudo em mim. A maternidade trouxe uma ansiedade diferente. Eu já era ansiosa. Tinha FoMO (Fear of Missing Out, medo de ficar de fora) por causa da demanda da carreira. Passei por dois burnouts em sete anos. Isso era um gatilho grande.

A pandemia foi cruel com as mulheres, em especial, com as periféricas. Estamos à beira de um colapso mental. Como eu posso estender a mão para o outro se também preciso para mim? Sempre me preparo para o cenário mais pessimista. Acompanho muito as notícias porque preciso entender e me adiantar de como serão os próximos meses. Não ver as notícias é um pé para começar a relaxar. Não sou nada religiosa, mas sinto que precisamos de um milagre. O Benja me dá forças para continuar.

Titi Müller em depoimento a Juliene Moretti

titi muller com seu filho benja
Titi Müller, 34 anos, é apresentadora e mãe do Benja, de 1 ano Reprodução/Instagram/Divulgação

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“A realidade está batendo”

É muito complicado falar do caos quando ainda se está dentro dele. Está batendo o cansaço e não apenas pela privação do sono, por ter um bebê em casa. Tem um cansaço espiritual também. Quando o Benjamin veio, em junho, no ex-pico da pandemia, foi tudo tão intenso, tão cheio de novidades, que tirou o foco. Agora a realidade está batendo.

Passou o Carnaval e a gente fica imaginando como teria sido levá-lo aos bloquinhos de criança. Meus pais mudaram para a mesma rua de casa e estamos com essa rede de apoio. Para atualizar, me tornei um ótimo cozinheiro. Continuo com os estudos sobre futurologia, que tem a ver com o meu trabalho. Me ajuda como artista no Scalene. Hoje estamos vivendo basicamente dos streamings e direitos autorais. Mas vamos gravar um álbum novo. Nos próximos meses lançaremos um podcast do festival CoMA, que a gente organiza e ainda não sabe se terá neste ano.

Não sei se é a criação ou uma masculinidade que tenho de desconstruir, mas geralmente a tristeza vira raiva e o medo vira ação e eu estou revendo isso, porque é ruim. É afundar os sentimentos, que logo vêm à tona. Na pandemia, eu tenho falado mais sobre isso. Não teria feito um ano atrás. Sinto que sou completamente diferente, mas ainda não digeri como.

Tomás Bertoni, 30 anos, é guitarrista da banda Scalene, em depoimento a Juliene Moretti

titi e tomás com o filho
Tomás Bertoni, 30 anos, é guitarrista da banda Scalene, marido de Titi Müller e pai de Benja Reprodução/Instagram/Divulgação

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“Já trabalhava demais, e agora ainda mais”

Não fiz nenhuma corrida pelos aplicativos em 2021. Fiz muitas até setembro, mas parei por conta da campanha para vereador (Luz foi eleito pelo Patriota). Saí bastante na rua, tentando driblar a Covid-19, mas não consegui. Mesmo depois de trabalhar durante a quarentena como motorista de Uber e fazer uma campanha toda, não tinha contraído o vírus. Exatamente um dia após a eleição, suspeitei que tinha pego. Havia entrado em contato com muitas pessoas naquela semana — muita selfie, muito cumprimento. Senti a garganta inflamada, fiz exame e estava com Covid. Passei vinte dias em casa, quase.

Minha esposa e meus filhos, de 10 e 13 anos, também tiveram a doença e, durante o confinamento, os meninos engordaram, principalmente o menor. Como empresário, o Marlon (refere-se a ele mesmo na terceira pessoa) teve bastante dificuldade. Consegui captar dinheiro para não demitir nenhum dos funcionários que trabalham na minha lojinha virtual de acessórios, no aplicativo para ajudar motoristas e na firma de proteção veicular. O ponto que eu mantinha na Zona Sul para os motoristas descansarem, lavar o carro, tomar café, tive de fechar. Não sei se os donos do espaço não simpatizam com meu partido, mas pediram o lugar de volta.

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Ainda produzo conteúdo no YouTube, mas hoje é voltado ao que o Marlon faz na política. Já trabalhava demais, e agora estou trabalhando ainda mais, com muito a aprender. Essa tarefa nova de vereador é bastante complexa, não é fácil, não.

Marlon Luz em depoimento a Saulo Yassuda

Marlon de lado com o rosto virado para a câmera em um carro
Marlon Luz, 40 anos, é motorista de aplicativo, influenciador digital e vereador Rogério Pallatta/Veja SP

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“Nas aldeias, guardei meu avental”

Quando estava em São Bernardo do Campo e no pronto-socorro, atendia sessenta pacientes por dia, mas como crianças não eram tão suscetíveis à doença, esse número reduziu.

Fui trabalhar em junho, pela Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, no Araguaia. Não havia casos de coronavírus e comecei um trabalho de prevenção nas aldeias, mas a doença veio e foram três meses de enfrentamento. Muitos não queriam ir para o hospital. Deparei com caos e escassez. Nos tapirapés, organizamos uma unidade de atendimento com oxigênio na escola da aldeia. Já nos carajás, eles não iam nem mesmo a esses postos.

“Tive contato com métodos de cura da medicina tradicional indígena. Temos muito que aprender”

Os agentes indígenas de saúde, que são da comunidade, são fundamentais. Eles são responsáveis pelo monitoramento da saúde nas aldeias e são os nossos elos. Aprendi essa medicina ocidental, tudo muito matemático. E, por lá, tive contato com outros métodos de cura da medicina tradicional indígena. Penso que temos muito que aprender com eles. É ressignificar o tempo inteiro. Guardei o avental branco porque é uma barreira.

Cansada e precisando entender o que tinha passado, não renovei o meu contrato. Mas, em seguida, fui chamada pelo Projeto Xingu para ir ao Baixo Xingu, que é onde estou hoje. Terminamos as primeiras doses da vacinação e foi emocionante. Lá tem um pouco mais de estrutura: somos em três profissionais e nos dividimos entre o polo e outras 48 aldeias. Para chegar até elas, é preciso pegar quatro horas de barco. Gostaria de ter feito isso em um contexto sem pandemia. A experiência deve ser transcendental.

Priscila Fonseca, 32 anos, é pediatra, em depoimento a Juliene Moretti

piscila sorrindo para a câmera com máscara no pescoço
Priscila Fonseca, tem 32 anos e é pediatra Arquivo Pessoal/Divulgação

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“Espero a festa da queima das máscaras”

Os jornalistas me perguntavam quando teríamos a vacina e eu respondia que seria no fim de 2020. O fato é que chegou antes. Só não contava com a variável do desgoverno de um presidente impactando o processo e desconstruindo informações das recomendações básicas. O subproduto disso é o que estamos vivendo: quase 300.000 mortes. Nem nos meus piores pesadelos imaginei que estaríamos nessa situação sem perspectiva de resolução.

Um componente dessa pandemia é a falta de empatia das pessoas. Ficam buscando o remédio, quando não tem. Uma das experiências mais tocantes foi um senhor que chegou com a família ao hospital. Tentamos de tudo, mas o estado era grave e ele morreu em alguns minutos. A mulher disse que ele estava mal e o pastor recomendou a ivermectina e disse que Jesus iria curá-lo. Eu não tenho problemas com Jesus, ele trabalha comigo assim como Maomé, Abraão, São Jorge e Iemanjá. Por que não veio para o hospital? Poderia ter uma chance. Recebia xingamentos via redes sociais quando falava de isolamento. Comecei a expor aqueles que me agrediam no privado. Sem pudor. Fiz com uns dez e reduziram.

Já tomei as duas doses da vacina e fechamos um cluster da família, assim posso ver a minha neta, aquela destruidora de corações senis. Espero a festa da queima das máscaras para ver as outras pessoas. Ainda vamos passar por um período difícil e, quando acabar, entro em quarentena.

Jamal Suleiman em depoimento a Juliene Moretti

jamal de braços cruzados e máscara posando para a foto
Jamal Suleiman, 61 anos, é infectologista do Hospital Emilio Ribas SP Rogério Pallatta/Veja SP

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“Voltamos ao aquário”

Em maio do ano passado, um dos picos da pandemia (que pena de nós, que pensávamos que seria o pior), tive Covid-19. Eu e minha mãe, isolados por catorze dias em um quarto, fadados a tosses, falta de ar, enjoos e um pouco mais do clássico da doença. Difícil acreditar que voltamos aos nossos aquários. Minha mãe nunca parou: é enfermeira. Eu segui em home office, com saídas para algumas pautas quando a situação melhorou um pouco.

De lá para cá, por algum milagre, ninguém que mora em casa pegou a doença. O que não significa que tudo foi lindo. Talvez o meu pior momento tenha sido em setembro, quando o combo pandemia + trabalho + faculdade + TCC me levou a terríveis crises de ansiedade, amenizadas com sessões de terapia. Acho que ninguém sai do momento atual com a saúde mental intacta e creio que é balela dizer que “vamos sair mais fortes”: não pedimos para ganhar músculos de (in)sanidade.

Peguei o vírus no ano passado provavelmente quando encostei em uma máquina de cartão e desde então evito o dispositivo: abençoado seja o pagamento por aproximação. Saí, sim. Fui a restaurantes, frequentei a casa de amigos, tomei drinques em um bar. Não entrei na loucura das baladas clandestinas, embora tenha visto dezenas de stories de conhecidos, disso, sim, tenho medo. Lembro de um trecho do meu livro favorito da pandemia, Mar Morto, de Jorge Amado: eles se foram afogar (originalmente, no singular).

Guilherme Queiroz, 22 anos, é repórter da Vejinha

guilherme e a mãe sentados no chão olhando para o horizonte
Guilherme e a mãe, Dênia: isolamento em 2020 Arquivo Pessoal/Veja SP

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Publicado em VEJA São Paulo de 17 de março de 2021, edição nº 2729

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