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Socorro

Por Ivan Angelo Atualizado em 5 dez 2016, 12h17 - Publicado em 11 jul 2015, 00h00

Minha amiga, jovem, seguia de carro por uma rua tranquila da Vila Mariana, ao lado da mãe, quando um desses absurdos modernos começou a se desenhar na frente delas na figura de um cachorro.

Iam sem pressa, davam-se tempo para as árvores e as casas, só por isso puderam parar sem grande freada e observar o cão, feio cão, que atravessava a rua em corrida desatenta, e o acompanharam com o olhar quando entrou por um portão entreaberto de uma casa, foi até a porta fechada, ergueu-se nas patas traseiras, arranhando a porta com as dianteiras, puderam ouvir que gania baixo como se chamasse, depois desistiu, e voltou para a rua, correu para um lado e para outro na calçada, atravessou a rua, na calçada de lá deu dois latidos altos, atravessou a rua de volta, sempre inquieto, agitado e apressado — no carro parado em fila dupla, filha e mãe tentavam entender o que se passava —, entrou pelo portão, foi até a porta novamente, arranhou, arranhou, ganiu aquele seu apelo engasgado, voltou para a calçada, atarantado.

Puderam vê-lo: imundo, magro, machucado, falhas no pelo, pequeno porte, raça indefinível. Seria aquela uma casa onde havia morado, agora desabitada? Repararam: casa boa, sem luxo, jardinzinho verde, não parecia abandonada. A filha falou:

— Vou bater lá, mãe.

— Não deve ter ninguém, filha, senão teriam aberto, tanto

que o cachorro chamou.

— Ele não pode ficar assim, tá desesperado! Vai acabar

atropelado. Vou lá.

O cão malcheiroso a acompanhou quando ela passou pelo portão, à procura da campainha, que foi encontrar ao lado da porta. Tocou uma vez, discreta. Nada. Duas vezes, toques mais longos. Já ia tocar três quando a porta se abriu e uma mulher tipo dona de casa desleixada se mostrou com cara de quem é que está me incomodando. No mesmo instante o cachorro chispou lá para dentro.

— Cachorro do inferno! — berrou a mulher. — Que é que a senhora quer?

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— Vim avisar do cachorro. Ele tava desesperado aí na rua, podia ser atropelado!

— Tomara! Já botei essa peste no lixo, e ele volta!

Três crianças, em escadinha de uns 4 a 6 anos, saíram pela porta. A moça falou que ela podia dar o cachorro, mas não maltratar, jogar fora assim. A mulher rebateu com um “Quer levar? Leva!”, foi lá dentro e trouxe pendurado o cão e sua reduzida tralha, botou nas mãos da moça e disse:

— Leva! Leva esse lixo!

A moça, sem ação, ajeitou-o no colo, viu que o cão, trêmulo, tinha um ferimento recente abaixo do olho direito e murmurou: “Ele tá machucado”, só uma constatação. O menino maior falou como se explicasse:

— Eu tentei furar o olho dele e não consegui.

A moça ouviu horrorizada e apressou-se com o cão para o carro, seguida pelas crianças. No banco da frente, a mãe tentou protestar, “Você já tem três cachorros no apartamento!”, enquanto a filha ajeitava o animal na traseira e as três crianças a assediavam, pedindo:

— Dona, me leva também! Me leva também!

Novo espanto na face da moça. Entrou depressa no carro e saiu para longe daquela casa de horrores. Parou direto no veterinário, mandou dar um banho e tosa no cão, ficou sabendo que era um pequeno schnauzer, desnutrido, estressado, com vermes; vacinou-o, medicou-o e levou-o para casa. É um queridinho. Só agora, passados quatro meses, ele venceu o stress e parou de tremer.

E-mail: ivan@abril.com.br.

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