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Acabou o espetáculo

Por Ivan Angelo - Atualizado em 27 Dec 2016, 15h03 - Publicado em 28 Oct 2016, 23h00

Você aí, com mais de 30 anos: há quanto tempo não vê um vaga-lume? E você, com menos de 30: já viu algum vaga-lume? Pergunto a um irmão de Belo Horizonte, que mora perto do morro onde jogávamos peladas: tem visto algum vaga-lume? “Negativo.” A outro irmão, que anda muito por terras de Goiás: tem pirilampo lá? “Nunca vi.” Leio no livro do cronista Luís Henrique Pellanda, de Curitiba: “Pena os vaga-lumes terem sumido”. Pergunto a minha colaboradora Val, do interior de Alagoas: veem vaga-lumes por lá? “Difícil.” Ao gaúcho Tito: “Nunca mais vi”. Procuro no resort na mata à beira-mar na Bahia: não há.

Pois é. Vaga-lumes não são citados nas listas de espécies ameaçadas de extinção, não vejo campanhas para salvá-los, e no entanto os sinais estão por aí, no Nordeste, Oeste, Centro, Sul. Porque desaparecem os vaga-lumes?

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Ora, direis, ver pirilampos! Certo perdeste o senso. E eu vos direi, no entanto, que, para vê-los, muita vez despertava e abria as janelas, pálido de espanto. Desculpe, Olavo Bilac, essa citação jocosa do seu poema, mas não descabida. Parece mesmo insensato especular por vaga-lumes numa cidade tão grande, pois é sabido que metrópoles não fazem bem à saúde de muitos bichos, mas eles ainda lampejavam nos Jardins quando morei por lá, quarenta anos atrás. Raros, raríssimos. Na infância, em Belo Horizonte, sim, abria janelas para vê-los invadir o quarto e salpicar de estrelas nosso pequeno céu. (Esse salpicar de estrelas roubei de outro poeta, Orestes Barbosa.) Eu, muitas vezes cruel e insensato, naquela infância sem culpas, pegava os besourinhos de bundinha acesa e escrevia com elas meu nome luminoso na camiseta de dormir. Talvez tenha sido para me redimir dessa culpa que escrevi, muitos anos depois, um livro infantil chamado O Vestido Luminoso da Princesa, contando a história de uma princesa que salva um vaga-lume do afogamento, e este era simplesmente o rei dos vaga-lumes, que no final a socorre numa grande dificuldade. Fico pensando: será que as crianças de hoje saberão do que estou falando? Pensarão que inventei o bichinho que acende o bumbum?

Para quem nunca os viu, e talvez jamais os veja, conto como são. Geralmente aí por novembro, dezembro, janeiro, enfim, no verão, eles acendem o seu pisca-alerta e saem ávidos à procura de parceiros para reprodução. Aquele pisca-pisca, tão lindo no ar, nunca é inocente. A fêmea pisca parada nas árvores, num arbusto, na grama, para anunciar que está pronta e também para ser encontrada na escuridão, pois eles só se acasalam à noite, não me perguntem por quê; o macho acende e apaga a lanterna durante o voo, para avisar que está chegando, e está a fim. Aquele fuzuê acontece somente no último mês da curta vida adulta deles, machos, pois morrem logo depois; as fêmeas esperam o amadurecer dos ovos, põem, e morrem. Os filhos vivem dois anos no estágio de larva, ficam adultos, põem-se a brilhar, enfeitam as noites com suas luzes esverdeadas, amareladas ou alaranjadas, conforme a espécie, transam e morrem.

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O que está acabando com eles? Vivem, ou viviam, nos campos, matas, brejos, cerrados e nas áreas urbanas que invadiram suas terras. Ora, na iluminação cada vez mais intensa das cidades seus WhatsApps luminosos não são vistos e eles não se encontram. As lavouras invadem campos, cerrados e matas, os agrotóxicos se dispersam, as queimadas se alastram, e aí era uma vez.

No nosso sítio, no interior do Rio de Janeiro, minha mulher e eu ficávamos sentados na varanda, luzes apagadas, vinhozinho no copo, apreciando o balé luminoso dos vaga-lumes. Acabou-se o espetáculo. Triste pensar que minha filhinha Carolina, de 15 meses, jamais o verá.

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