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“Não vai ter placa de inauguração com meu nome”, diz prefeito Ricardo Nunes

Em entrevista à Vejinha, ele promete manter secretariado, seguir os planos de Covas e afirma que não haverá pressão do MDB por cargos

Por Sérgio Quintella Atualizado em 21 Maio 2021, 17h16 - Publicado em 21 Maio 2021, 06h00

Quando o então vice-prefeito, Bruno Covas, estava a dias de assumir o comando da maior cidade do país, em março de 2018, devido à renúncia de João Doria para concorrer ao governo do estado, o neto de Mario Covas era só sorrisos. Questionado por Vejinha na época se estava ansioso, respondeu: “É claro! Já viu criança quando vai para a Disney pela primeira vez? Estou igual”.

Três anos e dois meses depois, o novo chefe da cidade não tem nenhum motivo para sorrir e comemorar a posse. Também não teve muito tempo para chorar em paz. Entre o sepultamento de Bruno, 41, ocorrido no início da noite de domingo (16), em Santos, após um longo tratamento contra o câncer, e o primeiro compromisso público como prefeito efetivado, na segunda, às 8h, no Allianz Parque, em evento de vacinação, Ricardo Nunes (MDB), 53, não conseguiu assimilar o tamanho da tristeza. Nem ele nem seus assessores.

“Quando eu cheguei, após esse primeiro compromisso, olhei a foto do Bruno na parede e bateu a tristeza, mas logo na sequência teve uma reunião com secretários e depois as reuniões não pararam. Não pudemos deixar de trabalhar para chorar”, diz Nunes, que recebeu Vejinha em seu gabinete (o de vice), no 6º andar do Edifício Matarazzo, ao fim daquele primeiro dia útil, para uma longa entrevista. É a mesma sala onde Bruno posou sorridente à frente do quadro com seu avô três anos antes. Na mesma parede, hoje, há uma foto de Nunes e Covas durante a campanha de 2020. O semblante de ambos, antes e agora, exemplifica a situação.

Quando a reportagem entrou na sala, no início da noite de segunda (17), o homem encarregado de gerir um orçamento de 67,5 bilhões de reais estava em frente a uma TV de 60 polegadas conectada a um notebook. O programa SP 360 apresenta, em tempo real, todos os dados da cidade, desde o porcentual de medicamentos em cada Unidade Básica de Saúde (UBS) até o número atualizado de vagas de creches. Quando há algo que exija maior atenção, ele escreve as demandas em um caderno. Os asteriscos são para temas mais urgentes, como a necessidade de agendar uma reunião com o Ministério da Cidadania para falar de um repasse destinado à assistência social que está quatro meses atrasado.

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A imagem mostra uma montagem com duas fotos. A imagem à direita mostra Bruno Covas, em seu gabinete, de pé, com duas mãos sobre sua mesa e sorrindo para a câmera. A imagem à esquerda apresenta Ricardo Nunes, apoiado em uma mesa, no gabinete da prefeitura. Ele olha sério para a câmera
Nunes (à esquerda) e Covas (à direita): mesmo gabinete, sensações diferentes Alexandre Battibugli/ Leo Martins/Veja SP

Casado com a empresária Regina Carnovale Nunes, 40, e pai de três filhos, Mayara, 23, Ricardo, 21, e Izabela, 14, Ricardo Luis Reis Nunes, que é palmeirense, é nascido e crescido na região de Interlagos. Vive com a família e quatro cachorros em uma casa próximo à Represa de Guarapiranga. “Outro dia cheguei em casa e um deles estava em cima da cama, eu reclamei, mas não adianta falar”, diz, sorrindo.

Ele deixou o bairro aos 12 anos, com os pais e os quatro irmãos mais novos (destes, um é falecido), para morar em Cananeia, no Litoral Sul. A ideia do chefe da família, morto quando Nunes tinha 24 anos, era montar uma empresa de ônibus, negócio que não deu certo. “Meus pais perderam tudo e recomeçamos do zero. Voltamos para São Paulo e fomos morar no Parque Santo Antônio”, mais pobre e mais distante da realidade de classe média em que os Nunes viviam antes da empreitada na cidade litorânea.

A queda no padrão econômico resultou em outra mudança, a vida de aluno de colégio particular para a de escola pública. Na estadual Dom Duarte Leopoldo e Silva, no Socorro, no entanto, a nova realidade lhe abriu as portas para a política. “Comecei a participar do grêmio estudantil, conseguimos melhorias na quadra e no laboratório”, recorda-se Ricardo.

Na época, sua maior participação em eleições, além de atuar como eleitor, foi como cabo eleitoral. Em 1982, ainda sob a ditadura militar, entregou santinhos, como voluntário, para um candidato a vereador que é hoje seu subordinado, o secretário municipal da Casa Civil, Ricardo Tripoli. “Lembra, Ricardo, eu entregando panfletos para você?”, diz o prefeito, ao ligar para Tripoli assim que se recordou da história. “É claro, você foi levado por sua avó.”

Três anos depois, na eleição vencida por Jânio Quadros, o jovem Nunes quase foi parar na delegacia ao apoiar o segundo colocado, Fernando Henrique Cardoso. “Eu estava pintando um muro com o nome do FHC, a polícia chegou e queria nos levar presos. Mas acabou ficando por isso”, recorda-se, rindo.

A imagem apresenta uma montagem com duas fotos. Na de cima, Ricardo Nunes tira uma selfie com a esposa, ambos sorrindo. Abaixo, ele está junto de sua família em uma sala, todos abraçados e sorrindo.
Nunes com a família: perdeu o pai aos 24 anos Instagram/Reprodução

LEIA TAMBÉM: Quem é Ricardo Nunes, novo prefeito de São Paulo

A primeira experiência como candidato viria sete anos após o “enquadro”. Sem dinheiro nem estrutura, não conseguiu se eleger vereador na eleição vencida por Paulo Maluf. Apesar do insucesso nas urnas, os caminhos políticos o levaram para um outro lado. Fundou o jornal Hora da Ação, apesar de não possuir graduação em jornalismo (se formou apenas no ensino médio). No periódico, distribuído gratuitamente a cada quinze dias, Nunes cobrava melhorias na região. Na edição de junho de 1994, a manchete estampada era: “Avenida do Rio Bonito, o corredor da morte”.

Em 1997, o novo prefeito paulistano fundou uma empresa de controle de pragas urbanas, a Nikkey, hoje tocada por seu filho Ricardo. “Não vou lá desde janeiro.” O sucesso como empresário o levou a assumir a presidência da Associação Empresarial da Região Sul (Aesul) e da Associação das Empresas Controladoras de Pragas do Estado de São Paulo. As agendas com o empresariado paulistano o credenciaram a concorrer mais uma vez a vereador, dessa vez com mais apoios (e dinheiro). Eleito para a Câmara Municipal em 2012, repetiu a dose em 2016.

No Palácio Anchieta, Ricardo Nunes, sempre pelo atual MDB, foi interlocutor da Igreja Católica (devoto de Nossa Senhora Aparecida, é frequentador assíduo da Paróquia Imaculada Conceição, em Interlagos, e costuma aconselhar-se com o pároco do local, o padre Hércules) e defendeu a regularização de templos religiosos. Seus maiores destaques foram atuando em Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs).

A imagem mostra figuras religiosas em uma mesa de madeira. Mais a cima, uma pequena foto de Nunes, ainda jovem, em uma cartaz escrito
Propaganda de sua eleição a vereador, em 92 (no alto) e coleção de imagens católicas: santos e santinho Arquivo pessoal/Alexandre Battibugli/Veja SP

Na gestão Haddad, foi autor do relatório da comissão que investigou denúncias de corrupção no Theatro Municipal. O documento foi remetido ao Ministério Público, que judicializou um processo por improbidade administrativa contra assessores próximos do então prefeito, Fernando Haddad, como o ex-secretário de Comunicação Nunzio Briguglio. Ambos são réus na ação judicial ainda em curso.

“A partir daí eu deixei de fazer parte da base de Haddad e fui para a oposição”, diz o ex-vereador. Foi como presidente da CPI da Sonegação Tributária, em 2019, que Nunes, apoiador do então governo municipal de Bruno Covas, conseguiu seus maiores ganhos políticos. A comissão conseguiu recuperar 1,2 bilhão de reais de impostos não pagos por grandes bancos à cidade.

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Mas foi somente no ano seguinte, ao ser escolhido como candidato a vice-prefeito de Bruno Covas, que Ricardo Nunes passou a ser de fato conhecido na metrópole, muitas vezes por questões que o desfavoreceram. Foi acusado de agredir sua esposa, Regina, em 2011, o que ambos negam. Também foi investigado pelo Ministério Público sobre um suposto esquema de desvio de dinheiro em contratos da prefeitura com creches conveniadas. No mês passado, o promotor de Justiça José Carlos Blat afirmou, em documento que está em segredo de Justiça, que não há indícios, por ora, do envolvimento de Nunes e outros citados.

As denúncias contra Nunes na corrida eleitoral fizeram com que o então candidato à reeleição, Bruno Covas, precisasse explicar sua escolha, o que o levou, em algumas situações, a demonstrar irritação. No discurso da vitória, após a chapa PSDB-MDB vencer Guilherme Boulos (Psol), Covas fez questão de enaltecer seu vice.

“Eu queria aqui fazer uma homenagem e um agradecimento especial ao Ricardo Nunes, que sofreu muito durante essa campanha. Mas esteja certo, Ricardo, que a partir de 1º de janeiro nós vamos governar e nós vamos mostrar para São Paulo quem nós somos e qual é a nossa visão de mundo”. Não deu tempo. Cinco meses depois, Covas pediu afastamento do cargo para cuidar de sua saúde e faleceu no dia 16 de maio.

A imagem apresenta uma montagem com três fotos. Na primeira, maior e à esquerda, Covas está ajoelhado, de máscara, rezando em uma igreja. À direita, superior, Covas acena sem máscara em palco com luzes fortes enquanto segura um microfone. À direita, inferior, Covas abraça o filho no evento de comemoração da vitória das eleições de 2020. Ele está cercado de diversos outros apoiadores, como João Doria.
Momentos de Covas durante a campanha e no dia da vitória: vida interrompida aos 41 anos Gilberto Marques/PSDB/Divulgação
A imagem mostra Covas e Nunes em campanha, nas ruas, cercado de apoiadores e bandeiras com nome e número do ´partido. Eles estão de máscara.
Bruno e Nunes na campanha: discurso de posse em favor do vice Leo Martins/Veja SP

Agora como prefeito de fato e de direito, Ricardo Nunes tem uma série de desafios, como fazer a máquina da cidade funcionar em meio a uma crise sanitária e econômica, ao mesmo tempo que precisa dar mais respostas do que fazer perguntas, como a que garante manter neste momento 100% dos secretários de Bruno Covas.

Na Câmara Municipal, sua antiga casa, vai ver uma das discussões mais barulhentas da metrópole, a revisão do Plano Diretor. Até o fim do mandato, tem 75 objetivos traçados no Plano de Metas, que vão da promessa de construção de quase 50 000 moradias (cinco vezes mais do que o entregue na primeira gestão Doria-Covas) à instalação de 20 000 pontos de wi-fi na metrópole. O custo das empreitadas prometidas chegará a 30 bilhões de reais.

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Também precisará terminar obras e promessas iniciadas no mandato anterior, como a reforma do Anhangabaú e a instalação do Parque Minhocão. “O Ricardo vai pegar um fardo pesado, mas ele é sereno e tranquilo e vai conseguir levar o governo adiante”, diz o ex-presidente da República Michel Temer.

A imagem mostra Ricardo Nunes e seus secreta´rios em uma sala, todos de máscara, durante uma reunião. Eles estão sentados em sofás e cadeiras, relativamente distantes
Seguindo a agenda: reunião com secretários Alexandre Battibugli/Veja SP

+ Ricardo Nunes cumpre primeira agenda como prefeito de São Paulo

Quase no fim da entrevista de cerca de duas horas com Nunes, sua esposa entra no gabinete. De cabelos louros (“pintei recentemente para encobrir os fios brancos”, queixou-se), usando vestido preto com detalhes brancos, até a altura dos joelhos, e carregando uma bolsa de grife, Regina diz não estar nem um pouco interessada no título de primeira-dama da metrópole.

“As pessoas me ligam para dar parabéns, mas a vontade que eu tenho é de bloquear todas elas. Estamos vivendo um luto muito grande pela morte do Bruno”, diz, emocionada, antes de se despedir, junto com o marido. Dali, o casal seguiu para um jantar na casa da ex-prefeita Marta Suplicy, atual secretária de Relações Internacionais.

“O que você comprou para levar?”, cochichou o prefeito. “Champanhe”, respondeu a primeira-dama, que é dona de uma clínica de estética. Antes de sair de vez, ela ainda comentou o caso das denúncias de violência doméstica. “Não houve boletim de ocorrência nem agressão. Estávamos apenas em um momento difícil do casamento.”

O assunto, aliás, ainda é motivo de irritação por parte do agora prefeito. Sem que fosse questionado, na primeira entrevista coletiva como mandatário empossado, no estádio do Palmeiras, Nunes voltou ao tema, deixando assessores incomodados e com os olhos arregalados. Apesar da experiência em falar em público, o novo prefeito passará por um bom treinamento de como (não) falar de certos assuntos, principalmente quando não lhe forem perguntados.

A imagem mostra Ricardo Nunes parado na porta de seu gabinete. Ele está a abrindo e há um pequeno letreiro escrito
Prefeito, na porta de seu gabinete: sem prazo para assumir a sala principal Alexandre Battibugli/Veja SP
“Não terei placa de inauguração com meu nome”

Já caiu a ficha de que o senhor assumiu a prefeitura definitivamente?

Hoje de manhã (segunda, 17), quando voltei da agenda no estádio do Palmeiras. Até então estávamos com a notícia do quadro irreversível do Bruno, depois aconteceu tudo aquilo. Mas não deu tempo nem de chorar, pois temos muitas coisas para cuidar.

Já pensou em quando vai ocorrer a mudança para o gabinete do prefeito, no andar de baixo?

Não, por enquanto vou continuar despachando no gabinete do vice-prefeito. Vou dar tempo ao tempo.

O senhor vem dizendo que manterá os secretários escolhidos por Bruno Covas. Mas secretários não são escolhas pessoais, de afinidade?

Essa é a equipe em que eu confio. Participei do processo de escolhas e conheço o trabalho de todos, conhecia quase todos antes da posse.

Mas o fato de o prefeito e os secretários serem de partidos diferentes não atrapalhará sua gestão?

A chapa PSDB-MDB é uma dobradinha. Estaremos numa continuidade. Minha gestão vai se chamar gestão Bruno Covas. Já mandei avisar que todas as placas de inauguração não deverão ter o meu nome. Vou honrar o nome do Bruno.

Não é preciso combinar isso com o MDB? O pedido de cargos já começou, não?

Não houve e não haverá pressão do MDB. Ninguém me pediu cargos. Antes de saírem falando isso, precisam me escutar primeiro.

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Existe a possibilidade de o senhor migrar para o PSDB? Chegou a ser convidado?

Me filiei ao PMDB quando tirei título de eleitor, minha relação com o MDB hoje é regional, não tenho preocupação com questões maiores do partido. Não veio um convite formal (do PSDB), apenas falaram que as portas estão abertas.

Caso convidem, qual seria a resposta hoje?

A resposta seria não, não vou me filiar.

Nunca vai se filiar ao PSDB?

A resposta que dei é não. Não é nunca, é não.

Com o senhor, o vereador Milton Leite, presidente da Câmara, vai ter mais, menos ou o mesmo poder que possui atualmente, com indicação de secretários e assessores de alto escalão?

(Risos) Ele é um vereador importante, mas não tem poder sobre a gestão.

O senhor é autor de um projeto de lei que cria um transporte aquático nas represas Billings e Guarapiranga. A medida foi incorporada ao Plano de Metas, mas especialistas dizem que a obra é pouco exequível.

É viável. Fizemos um projeto junto com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e o estudo é muito bem elaborado. Quando o primeiro trecho ficar pronto, na Billings, o mesmo trajeto que hoje é feito em uma hora e meia pelas vias normais vai levar apenas quinze minutos.

Sua vida mudou a partir de agora. O senhor passa a ter mais segurança, helicóptero à disposição, mordomo, restaurante particular.

Ainda não usei nada disso (pergunta ao secretário de Comunicação, Marcus Vinicius Sinval, como serão as refeições a partir daquele dia, que responde: “Sim, o senhor vai ter refeições particulares”). Hoje almocei macarrão aqui no gabinete, que mandei entregar. Sobre o helicóptero, na agenda de terça-feira (18) eu preferi ir de carro, mesmo sendo longe.

Por falar em local longe, a sua casa, em Interlagos, é muito distante da prefeitura. Pensou em uma mudança para um endereço mais perto?

(Fica um tempo em silêncio) Sabe que eu não tinha pensado nisso? É tanta coisa nova acontecendo que não parei para imaginar essas coisas.

Então é melhor eu refazer a primeira pergunta. A ficha caiu?

É, acho que ainda não.

O filho de Bruno Covas, Tomás, deu grande exemplo de companheirismo. Como é a relação com o menino? O senhor pretende trazê-lo aqui (na prefeitura)?

Esse garoto é impressionante. No velório, eu saí para não chorar na frente de todos. Ele veio atrás de mim e me abraçou. Há pouco tempo ele foi andar a cavalo com meus filhos, em um sítio que tenho na Grande São Paulo.

+ Filho de Bruno Covas, Tomás, de 15 anos, foi companheiro inseparável

Publicado em VEJA São Paulo de 26 de maio de 2021, edição nº 2739

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