“Não nos falta tempo. Falta-nos calma para olhar”

Ticiana Calipe conta como dirigir o tempo em um mundo frenético: "A chave somos nós mesmos. Um dia continua tendo 24 horas"

“Tudo está indo rápido demais”, as pessoas dizem. A quantidade de informações disponíveis hoje dá a sensação de que o mundo todo passa na frente dos olhos em segundos, mas trinta anos atrás — bem antes do acesso à internet no celular em tempo integral — já havia quem dissesse “tudo está indo rápido demais”.

Não importa o momento em que estamos vivendo, a sensação de aceleração sempre esteve e estará entre nós. Recentemente, li a fábula A Ilusão do Tempo. Ela fala sobre um futuro em que precisamos achar tempo para tudo mas ignoramos o necessário: as pessoas e, consequentemente, nós mesmos. Imersos no turbilhão do mundo que valoriza a pressa, como encontrar a calma interior que nos é de direito e entender o que precisa ser feito? E se olharmos para o retrovisor e entendermos a história antes de pensar no futuro?

O tempo serve para pôr ordem nos acontecimentos, mas tem duas características que frequentemente ignoramos: 1. ele é plural e pode ser contado de maneiras diferentes; 2. nós experimentamos o tempo mergulhados em sensações totalmente particulares, ou seja, eu sinto de uma forma e você, de outra.

Ao assistir ao incrível documentário Quanto Tempo o Tempo Tem, fiquei mexida com essas questões. Será que a forma como contamos o tempo será a mesma no futuro? Para me ajudar a pensar, procurei um amigo futurologista (sim, esse tipo existe, e sempre consegue fazer com que vejamos o avesso dos temas. Eu recomendo). “Falar de tempo pressupõe entender a dinâmica entre nós, humanos, e a natureza”, disse-me o amigo Paulo Renan, que trabalha justamente desenhando experiências imersivas que dão um toque de como será o amanhã. Nossa conversa teve início no WhatsApp, em longos áudios. A sensação de estarmos nos relacionando e cocriando nossa realidade foi tão intensa que, é preciso dizer, nem vi o tempo passar. Comecei a vivenciar a contagem do tempo com outro olhar. Aí está o poder das conversas e dos textos, como este que você está lendo agora.

Não nos falta tempo. Falta-nos calma para olhar. A chave somos nós mesmos. Um dia continua tendo 24 horas, uma hora vale sessenta minutos e, aleluia, cada minuto ainda tem sessenta segundos. Caso você já tenha se sentido preso no tempo (alguém aí já falou “porque no meu tempo…”?) ou ainda visto o tempo escorrer pelas mãos, faço um convite para que repense o modo relativo como tem experimentado esse passar de momento atrás de momento.

Coisas que nos entretêm não faltam — e, ao que tudo indica, as distrações só vão aumentar. Para lidar com a euforia de fazer tudo ao mesmo tempo e não se sentir engolido por completo, vale fazer uma pausa. Pare agora e observe: precisa mesmo ser tão rápido assim? No cinema, a medida de frames por segundo é uma referência ao número de imagens que a câmera faz. O diretor escolhe. Quantos frames por segundo a sua vida realmente precisa ter? O diretor é você.

 (Rodrigo Nóbrega/Divulgação)

Ticiana Calipe (@ticianacalipe) é diretora de arte formada pela Escola Superior de Artes e Design, em Portugal, e pós-graduada na Espanha. Entre uma e outra consultoria de design de marca e tecnologia aplicada a construção de projetos digitais, arranjou tempo para dedicar-se ao livro Propósito S.A.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657.

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