“Emoções potencialmente negativas têm de ser entendidas como conselheiros”

Satyanatha ensina a escutar o que dizem as suas emoções

É um paradoxo: acreditamos que as melhores decisões são tomadas só com a razão e a análise, mas também achamos que quem faz isso é uma pessoa fria, sem coração. Nós, humanos, somos mesmo engraçados. A racionalidade reta e direta é realmente uma comida sem tempero, uma vida sem poesia. Ela perde o sutil significado e, ainda que seja aparentemente completa, é insossa, incômoda, alheia à natureza humana. Nós a estranhamos; dela desgostamos. Falta algo. Todas as nossas melhores decisões são tomadas na clareza da mente, no pensamento lúcido e autêntico, distante das vagas distorções das nossas sombras e preconceitos. Só que a razão é, quase sempre, acompanhada de… uma amiga. Ela pode ser alguma emoção; ou uma virtude; ou uma intuição. Aí, sim, tudo se humaniza, fica familiar. Mas é preciso que a razão, por favor, ande em boa companhia!

A mente clara e desapegada acompanhada de compaixão cria soluções belíssimas. Cheia de altruísmo, a razão cria vidas melhores. Quando a amiga que a acompanha é a criatividade, nascem tanto a arte quanto a tecnologia. De braços dados com a alta intuição, a mente intelectual se antecipa, parecendo enxergar o invisível e ler as páginas adiante do tempo, abençoada por sincronicidades e pela simplicidade da beleza da alma, que busca fazer e ser o bem.

Aprendi há anos, pelas sábias palavras de um monge meu professor, a sempre perguntar quem é que anda com a minha razão. Mais comuns, frequentes e desafiadoras são as companhias das emoções negativas. Raiva, tristeza, medo, inveja — elas existem na mente, e de lá influenciam e dão palpites nas nossas decisões. Como lidar com elas? Há uma mágica, há uma maneira. Essas emoções, potencialmente negativas, têm de ser entendidas como os nossos conselheiros. Estão sempre a nosso favor, embora a elas falte a devida sabedoria.

A raiva é um pedido de ação. Ela vem áspera, eclode; parece misturada com fogo e tenta desfazer e destruir. Mas ela é, mesmo, apenas um pedido de seu subconsciente. Segure essa raiva explosiva — apenas por alguns momentos, já que repressão longa sempre faz mal — e, assim que ela diminuir, você encontrará a ação adequada. Coloque-se, posicione-se, ou fale, ou mude algo. Aja. Assim, a energia da raiva terá sido transformada — na ação. E, se você não agir, essa raiva vai se tornar um veneno, que devagar estragará algo em você: sua alegria, sua pureza ou sua saúde.

O medo é um pedido de cautela. Ele é paralisante, gélido. Tente nunca parar ali: aceite, acolha, ouça, mas o transforme em reflexão e cautela, para que ele não possa congelar a sua vida e impedir que ela flua.

A inveja é sempre um pedido de equilíbrio. Alguém tem algo que você não tem, abstrato ou concreto. A busca da harmonia, quando se afasta do que há de melhor na gente, desce ladeira abaixo e se torna inveja. Ninguém terá vida igual à vida de ninguém: mas, se algo falta em você que precisa ser suprido, sanado, busque aquilo que lhe trará a harmonia e o equilíbrio, em vez de olhar a grama do jardim das outras pessoas.

A mágoa é um pedido de recolhimento e reavaliação. Quem é aquela pessoa? O que ela faz, o que significa na sua vida, realmente? Talvez você descubra que ela não fez nada por mal, e isso limpe sua mágoa. Ou, se a descoberta for oposta, você também vai saber o que fazer — perdoar e se afastar.

E a tristeza? Ela vem e vai. É a nuvem que passa, absolutamente normal. Se ela demorar a passar, é um pedido para ir buscar o sol da alma, a verdade da gente, o propósito, aquele abraço mais gostoso. A clareza do pensamento é essencial, e só a consegue quem, antes de tentar entender o mundo, olhar para si mesmo.

 

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 21 de agosto de 2019, edição nº 2648.

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