O bem-estar que vem do bem-fazer

Professora de filosofia, Lúcia Helena Galvão Maya reflete sobre a palavra bem

Bem-estar. Resolvi refletir um pouco sobre esse substantivo composto tão em moda em nossos dias, que costuma ser definido como um “estado de conforto e boa disposição, com posse de saúde, afetividade, segurança, tranquilidade e outros aspectos positivos”. Daí, é comum encontrá-lo associado a regimes de saúde, práticas de esporte, contato com a natureza etc.

O que é curioso, no substantivo em questão, é o uso da palavra “bem”. Se estamos nos referindo apenas ao estado físico e ambiental favorável, por que não ser mais específico e usar sadio-estar, confortável-estar, seguro-estar? Desculpem-me, mas, como filósofa, acho que a palavra “Bem” merece ser foco, e não reforço de outra coisa: substantivo, e não advérbio.

Se tomarmos como possibilidade que a nossa função no mundo como seres humanos seja agregar valor humano à nossa vida e à dos demais, ou seja, agregar bem ao mundo, marcando nossa passagem como válida e útil para nós mesmos e para a natureza como um todo, cada vez que praticarmos esse bem, cumpriremos com essa missão e realizaremos um pouco mais da nossa identidade. Ou seja: daremos nosso recado.

E não se trata de um conceito de Bem discutível e relativo, mas de algo óbvio e consensual: trata-se de “funcionar bem” como ser humano, com todas as especiais possibilidades que essa condição oferece: inteligência, vontade, criatividade, generosidade, empatia, amor e algumas ou muitas outras; enfim, todos os “aplicativos” deste aparelho humano operativos e com boa performance. E sem interpretações pseudomaquiavélicas: não é fazer qualquer coisa agora para chegar a um suposto bem lá na frente: é garantir a qualidade humana dos meus atos agora, acima e antes de qualquer resultado desejado.

Há uma bastante conhecida passagem bíblica que enuncia algo como “— Buscai seu Reino em primeiro lugar (…) e todas as demais coisas vos serão acrescentadas”. Por comparação, vejo que o Bem, atributo humano por excelência, gera exatamente esse efeito. Um dia em que fomos coerentes com aquilo que a nossa dignidade e respeito próprio esperavam de nós, um dia em que fomos humanos de fato, é capaz de gerar um nível de “bem-estar” que poucas outras coisas (se é que existem essas coisas!) seriam capazes de fazer. E esse legítimo bem-estar é perfeitamente capaz de proporcionar, como consequência, boa saúde, afetividade, segurança, tranquilidade etc.

É como imaginar uma folha de papel com limalha de ferro espalhada sobre ela. Eu desafio você a, com a ajuda das mãos, de uma espátula ou de outra ferramenta qualquer, colocar essa limalha em uma forma retangular bem definida. Certo, depois de algum trabalho, você o realizará, mas qualquer pequeno tremor ou até a proximidade da sua respiração destruirá o seu trabalho. E se, em vez disso, eu lhe desse um ímã de forma retangular para que o posicionasse debaixo da folha? Com qualquer pequeno movimento do papel, sem a necessidade de muito esforço, a limalha correria para o local desejado! Esse ímã seria a ideia do Bem; com qualquer movimento da vida, tudo corre sem tanto esforço para o local adequado, para o local humanamente adequado!

Espero que você entenda o exemplo. Sugiro buscar o Bem como meta de vida, buscar agregar valor humano a tudo o que fazemos e não perder oportunidades (e até ser capaz de criar oportunidades) para praticá-lo: experimente! A conclusão é a seguinte: o bem-estar vem do bem-fazer, que nada mais é do que buscar servir ao Bem!

 (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Professora de filosofia e palestrante da Nova Acrópole há 31 anos, Lúcia Helena Galvão Maya é também poeta, cronista e roteirista de teatro. Possui quatro livros publicados e mais de 25 milhões de visualizações em suas palestras no Youtube.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 12 de fevereiro de 2020, edição nº 2673.

 

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