Dirceu Alves Jr.

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Marjorie Estiano, “O Desaparecimento do Elefante” e suas muitas motivações

Uma atriz surpreendente. Principalmente no teatro. É assim que podemos descrever Marjorie Estiano, curitibana de 31 anos, falante, com muitas ideias, disposta a formar repertório. E também é cantora. Sim, foi dessa forma que o público tomou conhecimento de seu nome, como a Natasha de “Malhação”, entre 2004 e 2005, meio vilã, meio roqueira, a […]

“Eu faço aquilo que me instiga”, diz Marjorie (Foto: André Arruda)

Uma atriz surpreendente. Principalmente no teatro. É assim que podemos descrever Marjorie Estiano, curitibana de 31 anos, falante, com muitas ideias, disposta a formar repertório. E também é cantora. Sim, foi dessa forma que o público tomou conhecimento de seu nome, como a Natasha de “Malhação”, entre 2004 e 2005, meio vilã, meio roqueira, a vocalista da Vagabanda. As novelas se seguiram, sempre com papéis diferentes. A dedicada filha de um pai alcoólatra em “Páginas da Vida” (2006), a garotinha enganada pelo vilão em “Duas Caras” (2007), a nerd Tônia de “Caminho das Índias” (2009) e a contestadora Laura da recente “Lado a Lado”. Logo podemos dizer que Marjorie também surpreende na TV. Mas não tanto quanto no teatro. Em 2010, foi uma prostituta francesa em “Inverno da Luz Vermelha”. Pelas mãos da mesma diretora, Monique Gardenberg, ela subverte a lógica e se destaca em “O Desaparecimento do Elefante”, cartaz do Sesc Pinheiros. Na adaptação de cinco contos do japonês Haruki Murakami, a atriz, na primeira cena, está nua, meio na penumbra, falando ao telefone com o entediado personagem de Caco Ciocler. Menos de uma hora depois, ao lado do mesmo Caco, a mocinha versátil da Globo aparece na pele de uma cosplay japonesa, de espada na bainha, comendo sanduíches, dançando e assaltando uma lanchonete, não necessariamente nessa ordem. Parece um desenho animado. É de virar a cabeça mesmo… Fala, Marjorie!

Para uma atriz com uma carreira constante na televisão fazer teatro é um ato de persistência?

No meu caso, não é persistência. Eu faço aquilo que me interessa e me instiga. Em qualquer veículo, teatro, televisão, cinema, música. É assim que funciona. Não tenho um posicionamento conceitual ou mercadológico para escolher trabalho. Eu só não gosto de fazer algo simplesmente por fazer. Preciso ter uma motivação.

Em “O Desaparecimento do Elefante”, você encara ousadias, como uma longa cena de nudez e uma personagem sem qualquer traço realista, e gera até certo espanto no público. Você se dá conta disso?

Quando recebi o convite para a peça, eu pensei de cara que não saberia fazer aqueles personagens. Nunca tinha interpretado algo tão longe do naturalismo. E, logo em seguida, eu pensei que justamente por não saber fazer é que deveria fazer, entende? A minha intenção é transitar entre gêneros e estilos de interpretação, desenvolvendo particularidades. Não só para aprender. Existem grandes atores que se especializam em um estilo. Mas o que me instiga é experimentar o diferente. A melhor coisa, e falo isso em qualquer profissão, é ficar vulnerável. É sempre bom se sentir um pouco inseguro diante do trabalho.

Mas é seu segundo trabalho com a Monique Gardenberg. Antes, vocês fizeram “Inverno da Luz Vermelha”. Isso deixa você mais tranquila, não?

A Monique me dá um respaldo muito grande. Eu me jogo em um lugar de desconforto, mas com ela me sinto amparada. Confio nos seus pontos de vistas, na sua inteligência, na sua classe. Eu me identifico com as coisas que ela faz.

É muito inusitado ver você e o Caco Ciocler, até pela referência televisiva que inevitavelmente o público tem de vocês, naquela história…

Eu acho superdivertido. Com esse espetáculo, eu me desliguei completamente da lógica. Sempre busquei os personagens por caminhos racionais. Eu me embasava em pesquisas ou analisava o perfil psicológico, enfim.  E, no caso da cosplay, eu não conseguia achar uma lógica naquela situação. Um casal que decide assaltar uma lanchonete porque está com fome… A Monique me mandou simplesmente acreditar naquele momento e criei em cima dos elementos que tinham ali. O fato de a personagem ser uma japonesa, ser uma cosplay, de ter aquela pegada artes marciais. Se eu ficasse buscando uma explicação para tudo talvez eu tivesse que me aprofundar em kung fu, sei lá, e a personagem ficaria menos solta.

Você já tinha feito dois personagens em uma mesma peça? É tranquilo saltar de registros tão diferentes em tão pouco tempo?

Existe um processo de desligamento natural. É como sair da gravação da novela e ir para o teatro fazer o espetáculo, o que aconteceu muito nos últimos meses. Acumulei a novela “Lado a Lado” com a temporada da peça no Rio. Eu costumo estabelecer pontos de concentração. No momento em que começo a vestir o figurino, eu já vou passando o texto na minha cabeça. É como se eu mudasse de corpo. O teatro é um lugar de respiro. Eu saio de um universo e vou para outro.

Marjorie, como uma cosplay japonesa, e Caco Ciocler na cena “Segundo Ataque” (Foto: André Gardenberg)

Quando você veio para São Paulo, aos 19 anos, foi morar no bairro da Liberdade. Essa japonesa traz referências daquele tempo?

Eu sempre acho mais interessante subverter a realidade, mudar um pouco esse caminho que a gente está acostumada a trilhar. Claro que trago em mim um pouco de todas as pessoas que cruzam de alguma maneira na minha vida e isso aparece um pouco nos meus personagens. Mas não realizei nenhuma pesquisa mais profunda sobre artes marciais ou sobre o universo oriental. Morei em um prédio da Liberdade que tinha um karaokê no salão de festas todos os finais de semana. Isso ficou de alguma forma.

Você saiu de Curitiba e veio para São Paulo. O interesse, pelo visto, era mais no teatro mesmo?

Eu vim para São Paulo tentar o mercado de trabalho e por todas as razões óbvias. É um mercado maior, tem mais gente, tem mais dinheiro. Cheguei por aqui e entrei para a faculdade de música. Em paralelo, eu fazia cursos técnicos de artes cênicas. Sempre pensava no Rio de Janeiro como um lugar mais forte para a televisão. Em São Paulo, eu poderia investir em mais coisas, inclusive na música. Nos seis meses seguintes, eu fiz muita publicidade e veio um convite para trabalhar em TV no Rio. Não estava muito satisfeita com a faculdade e tranquei. Meu interesse nunca foi ter um diploma.

Essa sua bagagem, digamos versátil, pesa muito na hora em que um diretor a escala para uma novela?

Eu não sei o que se passa na cabeça de um diretor de TV. Acho que se estabelece um processo de confiança. O diretor acredita que você carrega um determinado repertório para o personagem. Talvez tenha uma relação com a aparência física também. Isso conta muito mais na televisão que no teatro. Eu sei…

Como estabelecer esse diálogo entre a atriz e a celebridade? De que forma você tenta controlar isso?

Eu acho que é uma questão de ver e estabelecer prioridades. Existe uma bagagem que te leva a algum lugar. E a mídia estabelece coisas, seja nas fotos que a gente faz ou nas entrevistas que a gente dá. Não é porque estou na capa de uma revista X, que talvez explore mais a minha forma física, que serei desautorizada como atriz. Eu sei que trabalho com a imagem. Não é o meu cartão de visitas. Mas sei que ela é parte muito importante. A minha preocupação é sempre estar mais focada na carreira que no marketing. E aí naturalmente a repercussão do trabalho vai gerar o marketing (Marjorie dá um longo suspiro).

A sua nudez na cena inicial da peça mostra um pouco desse caminho, por isso surpreende as pessoas… Elas sabem qual é a sua. Poderia ficar vulgar com outra atriz, por exemplo…

A Monique tem um bom gosto incrível. Para mim, aquela cena inicial era desde o princípio muito interessante. Eu queria fazê-la. Mas em nossa primeira reunião ninguém sabia o que iria interpretar. A Monique foi aos poucos decidindo quem teria cada papel. E veio muito de encontro ao o que eu gostaria de fazer. Coisas longe do naturalismo e menos caricatas. Trabalhar a sexualidade, o erotismo é um algo que me interessa muito.

E existem ainda os interesses da cantora nesse momento?

Tenho vontade de fazer tudo. E vou administrando tempo e interesse. Estou trabalhando no meu próximo disco há três anos e ele deve sair no segundo semestre. Começo a colocar a voz nas canções na próxima semana. Vou gravar bastante coisa autoral, tem também uma regravação e outra que chamo de uma nova interpretação. Mas o álbum ainda não tem nome, não tem nada. Deve sair no segundo semestre. E aí vou poder falar com propriedade.

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