Memória: Nina Horta (1939-2019)

Minha despedida da maior cronista gastronômica do Brasil, uma fonte inesgotável de inspiração

Lembro-me como se fosse hoje da primeira conversa com Nina Horta no início dos anos 90. Foi pouco antes de me tornar crítico de restaurantes e, mais tarde, editor de gastronomia. Tinha pego uma matéria e a missão era escrever para recém-casados que iam receber amigos pela primeira vez em casa. A reportagem foi encomenda por uma revista que nem existe mais. Nina, generosa, atendeu o telefone e falou tudo sobre o assunto. Ninguém melhor que ela, sócia do extinto bufê Ginger, que fez algumas das maiores festas desta cidade, para o bê-á-bá da arte do acolhimento. Ela ia explicando quais receitas fazer, como escolher as louças, a maneira de montar a mesa, o estilo de jantar, que preferencialmente deveria ser informal para quem estava debutando como anfitrião.

Admirava Nina e seus textos há tempos. Eu, que sempre sonhei em ser roteirista de cinema, devorava gulosamente as crônicas cheias de comfort food que ela publicava na Ilustrada do fim dos anos 80. Ela falava inglês fluentemente, traduziu vários livros e eternizou a versão em português de comfort food. Virou comida de alma. Foi assim que Nina alimentou leitores e mais leitores nas últimas três décadas.

Uma mulher da palavras: crônica da mesa e da alma

Uma mulher da palavras: crônica da mesa e da alma (Arnaldo Lorençato/Veja SP)

Temos histórias divertidas. Saímos para jantar um par de vezes, vimos um ou outro concerto no antigo Teatro Cultura Artística, parávamos em algum balcão para tomar um drinque. Ela gostava de destilados, em especial de uísque e vodca. Adorava quando mandava bicota lascada no rosto e me chamava de seu noivo. O apelidado foi dado justamente pelo marido da Nina, o Sylvio. Numa dessas vezes que saímos para ouvir boa música e tomar um copo, ele fingiu ciúme. “Vai com seu noivo?”, ele brincou.

O vinho veio mais tarde na vida de Nina. Tomamos um português de boa cepa quando estive na casa dela pela última vez em fevereiro. Havia voltado da Índia e ela queria saber tudo sobre a comida, sobre o país pelo qual tinha fascínio. Como sempre, Nina falava com a propriedade dos grandes intelectuais. Lera tudo sobre o país asiático, descrevia as ruas Nova Déli como se tivesse vivido lá em algum momento. Contou ainda de uma cozinheira indiana que vivia em São Paulo, com quem aprendeu os segredos dos curries. Rimos muito.

Logo depois, ela faria uma cirurgia. Foi para um desses hospitais bacanudos, o mesmo onde minha mãe, que partiu dois anos atrás, ficou longos períodos internada. Como minha mãe, Nina teve uma infecção hospitalar, que nunca conseguiram debelar. Ela partiu nessa madrugada.

Um dos sonhos que não realizei foi ter cozinhado para Nina, ao menos uma única vez. Eu a vivia convidando, mas nunca dava certo. Numa dessas oportunidades, ela me disse “Lorençato, não quero comer sua comida, mas um prato da sua mãe. Você vive falando desse cocido madrileño que ela faz”. Acabei não pedindo com a devida insistência. E, sem sofrer, ficarei devendo para sempre esse encontro com as duas.

Último abraço: fevereiro de 2019

Último abraço: fevereiro de 2019 (Dulce Horta/Veja SP)

Por outro lado, tive oportunidade de saborear a comida de Nina numa ocasião muito especial, a minha festa de 50 anos. Não bastava reunir os amigos. Eles haviam de comer e beber bem. Convidei Nina para cuidar dos comes. Ela topou. Que requinte! Ela me perguntou: “Lorençato, o que você quer?”. Não me deixou abrir a boca e escolheu tudo. Aquele cheiro bom que até hoje ronda as minhas narinas, comida fresca e benfeita. Não ficarei aqui a descrever os pratos, mas um só vale por todos: um pudim de brioches daqueles que tem lugar garantido na memória do paladar. Foi também uma das últimas festas que Nina fez, senão a última. Tive esse privilégio.

A nossa cronista-maior nos deixou, mas seu legado é imenso. Estou órfão desde fevereiro deste ano quando ela publicou sua última crônica. Não lerei mais suas perguntas sempre inquietantes no Facebook. Por outro lado, ficam na memória o sorriso doce, os cabelos brancos. Ficam também seus legados reunidos em livros, o primeiro Não é Sopa, com o qual tive uma sessão especial de autógrafos quando finalmente nos conhecemos na casa dela em 1996. E O Frango Ensopado da Minha Mãe, com que ela concorreu e levou o prêmio Jabuti três anos atrás. Estava no júri e, faço aqui uma inconfidência: meu voto foi dela. Não, não porque éramos amigos, mas porque a achava genial antes mesmo de conhecê-la.

Vai Nina. Fica uma saudade dolorida!

Assista à deliciosa entrevista que eu e Helena Galante fizemos com Nina para o Bons de Garfo:

 

+ OUÇA Cozinha do Lorençato, um podcast de gastronomia

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