TEATRO

"Um Verão Familiar" revigora o tema do filho pródigo

Diretor Eric Lenate dá preferência às muitas metáforas do texto escrito por João Fábio Cabral

Por: Dirceu Alves Jr. - Atualizado em

Um Verão Familiar
Renata Guida, Ed Moraes, Lavínia Pannunzio e João Bourbonnais: atores ganham destaque no denso texto (Foto: Gustavo Porto)

Logo em sua primeira encenação, O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade (2008), ainda nos tempos do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), de Antunes Filho, o diretor Eric Lenate mostrou forte personalidade. Essa pegada autoral foi confirmada em Celebração (2009) e, principalmente, em Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete (2011), quando ele injetou vigor em um texto frágil de Jô Bilac na montagem da Cia. dos Inquietos.

Ao lado desse mesmo grupo, Lenate comanda o drama Um Verão Familiar e, apesar de ainda profundamente preocupado com a estética, foi econômico e preciso, dando preferência às muitas metáforas do texto escrito por João Fábio Cabral.

A surpreendente trama em embalagem a princípio óbvia traz à tona a parábola do filho pródigo para tratar da necessidade de enfrentar os fantasmas do passado e enterrá-los. Ed Moraes interpreta o jardineiro Júlio, um homem que encara traumas ao retomar o convívio com a família. Considerado esquisito, ele viveu sufocado até sair de casa para tocar a vida. As lembranças são reconstruídas através da brutalidade do pai (o ator João Bourbonnais), da opressão da mãe (Lavínia Pannunzio) e da irmã sonhadora (Renata Guida).

A direção levou ao palco uma cronologia um tanto livre, sem explicitar os saltos e retrocessos do tempo, e capaz de deixar que o espectador tire as próprias conclusões. Para isso, sutilezas como um tonel cheio de água — no qual Ed Moraes fica mergulhado boa parte da peça, como simbologia da repressão — são empregadas em meio à parca iluminação e aos cenários simples.

Nesse contexto, as interpretações sobressaem. Enquanto Ed Moraes e João Bourbonnais exploram o naturalismo, com diálogos diretos e subtextos embutidos em suas ações, Lavínia Pannunzio e Renata Guida transitam pelo oposto. Na pele da mãe e da filha, respectivamente, elas surgem líricas e perplexas para ressaltar o caráter onírico das personagens. À primeira vista, essa opção causa muita estranheza, mas justifica-se com o andamento da história e no impactante final. Dramaturgo irregular, Cabral encontrou aqui uma montagem um tanto inspirada.

AVALIAÇÃO ✪✪✪

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Fonte: VEJA SÃO PAULO