Teatro

"Véspera" aborda o absurdo das relações familiares na era da tecnologia

Tragicomédia encenada no Teatro Itália é assinada por Camila Appel, filha da dramaturga Leilah Assumpção

Por: Dirceu Alves Jr. - Atualizado em

Teatro - Véspera - 2276
Rafael Maia, Juçara Morais, Silvia Lourenço, Tadeu Di Pyetro e Cris Nicolotti em "Véspera": ação se passa no dia 24 de dezembro (Foto: Bob Sousa)

Em setembro de 2010, o texto de estreia da paulistana Camila Appel, filha da dramaturga Leilah Assumpção, chegou aos palcos da cidade. Ela flertou com o absurdo em “A Pantera”, mostrando certo talento para a tarefa exercida pela mãe desde os anos 60. Em cartaz no Teatro Itália, a tragicomédia “Véspera” é a segunda investida de Camila e, neste trabalho, a autora de 31 anos apresenta ousadia e potencial para construir uma obra de personalidade ou, pelo menos, para tentar encontrar uma linguagem diferenciada. Sob a direção de Hudson Senna, o espetáculo enfoca o absurdo das relações familiares em uma era dominada pela tecnologia. A montagem funde elementos clássicos presentes no cenário de Márcio Vinicius com referências a equipamentos de última geração, sobretudo nos afiados diálogos. Deixa no ar, porém, a precisão do tempo da ação.

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A trama se inicia em um 24 de dezembro qualquer, durante o almoço do dia antes do Natal. Depressiva, a mãe (interpretada por Cris Nicolotti) lamenta a ausência do filho, que vive na Europa e não virá para a ceia. O pai (papel de Tadeu Di Pyetro) pouco parece se importar com tudo, enquanto a filha (Silvia Lourenço) anseia por livrar-se da refeição para ver o namorado. A apática empregada (Juçara Morais), contudo, traz uma notícia perturbadora. Uma queda de energia impede o funcionamento dos aparelhos eletrônicos e um sujeito da vizinhança (Rafael Maia) encarregou-se de organizar uma assembleia para reverter a situação.

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Camila busca nesse ponto de virada a essência da peça. O texto questiona as carências, fragilidades e barreiras estabelecidas entre as pessoas. Cris Nicolotti constrói com economia e profundidade o papel da mãe que desistiu de se comunicar. Silvia Lourenço cresce ao investir na perplexidade diante da família. Em meio a esses dois destaques, a direção de Hudson Senna realça a unidade e o estranhamento em todo o elenco, sublinhando a solidão de cada um. “Véspera” está longe de representar a maturidade de Camila, mas evidencia a pretensão de retratar algo significativo de seu tempo, como sua mãe já fez em “Fala Baixo Senão Eu Grito” e “Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam que Eu Sou Donzela”.

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Fonte: VEJA SÃO PAULO