Sociedade

Fundadores da TFP brigam com mais novos por brasão e ideologia

Integrantes mais antigos querem que entidade retome atuação política e, enquanto isso não acontece, promovem caravanas "pela família" no país

Por: Angela Pinho

paulo correa de brito filho
Paulo Corrêa de Brito Filho, um dos pioneiros (Foto: Mário Rodrigues)

Criada em São Paulo em 1960, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) fez história com passeatas de oposição a temas que vão do aborto à reforma agrária, passando por outros como o rock’n’roll, o comunismo e a modernização da Igreja Católica. A militância contra todas essas causas ficou, ao longo de décadas, personificada na imagem de seu fundador, Plinio Corrêa de Oliveira, que comandava a instituição a partir de um casarão em Higienópolis repleto de vitrais e lustres em forma de tochas. Com sua morte, em 1995, tornou-se claro que a organização não era tão coesa nas ideias conservadoras como se imaginava.

Uma parcela, cada vez mais numerosa, entusiasta do grupo chamado de Arautos do Evangelho queria também ter direito a voto nas eleições para a presidência, o que era restrito até então a fundadores — hoje, seis homens, entre 76 e 88 anos. O objetivo era se distanciar do viés moral e unir forças na difusão católica, que tinha espaço menor na agenda. “Foi aventado nas assembleias se deveríamos tratar desses assuntos, e a maioria sempre entendeu por bem que não”, explica Roberto Kasuo Takayanagi, o atual diretor administrativo e financeiro. Iniciava-se ali um conflito que ainda se arrasta nos tribunais e teve seus últimos capítulos no início deste mês.

roberto kasuo
Roberto Takayanagi, atual diretor da TFP (Foto: Lucas Lima)

São quatro as principais causas que dividem os dois lados da briga. A maior delas é o desejo dos fundadores de que a eleição volte a ser como antes (só eles votariam), de forma a lhes garantir a retomada do poder. As outras se referem a uma condição curiosa: mesmo sem nunca abandonarem a filiação à TFP, esses membros mais velhos montaram um grupo dissidente para continuar defendendo as bandeiras de sempre. “A família, a vida humana inocente e a propriedade privada continuam entre as prioridades”, diz Paulo de Brito Filho. Em 2004, batizaram essa entidade paralela de Associação dos Fundadores da TFP, mas foram proibidos na Justiça de usar a sigla. Passaram a se chamar, então, apenas Associação dos Fundadores.

No último dia 4, entraram com recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) a fim de reaver as três letrinhas. No mesmo pedido, reivindicam derrubar outro veto: o de usar como brasão a figura de um leão dourado. Os magistrados avaliaram até agora que ele é muito semelhante ao felino original da TFP. Para desconstruir essa impressão, os antigos listaram doze diferenças, a exemplo da espada na mão.

  • Voltar ao início

    Compartilhe essa matéria:

  • Todas as imagens da galeria:

Por fim, existe um cabo de guerra pela posse de três imóveis, em Itaquera, Amparo e Jundiaí (nos autos, aliás, há acusações mútuas de desvio de recursos). Por enquanto, os fundadores têm levado a pior também nessa questão. Não há prazo para que o recurso seja julgado, mas eles se dizem confiantes.

Enquanto vivem essa queda de braço, os grupos diferem cada vez mais em suas filosofias. A atual TFP, que afirma ter cerca de 400 sócios e 200 000 colaboradores, faz visitas a famílias para pregar a Palavra e distribui medalhas de Nossa Senhora, entre outras atividades católicas. A Associação dos Fundadores, por sua vez, usa o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO), que montou em 2006 em homenagem ao fundador, como uma TFP de outrora. Um dos maiores orgulhos do instituto, aliás, é estar sediado no velho casarão de Higienópolis, que mantém as características arquitetônicas do passado.

O IPCO, que tem como presidente o construtor Adolpho Lindenberg, diz ter um número “variável” de integrantes. Porém, segundo o instituto, chegam a reunir-se mais de 100 pessoas em seus eventos. Só da “ala jovem”, são quarenta rapazes de 18 a 30 anos que viajam o Brasil com a Caravana Cruzada pela Família, na qual promovem buzinaços e passeatas “pacíficas e ordeiras”, na definição do coordenador Daniel Félix de Sousa Martins. Nessas ocasiões, além de lutarem contra a legalização do aborto e propagarem a união “monogâmica e indissolúvel entre homem e mulher” (criticam, por exemplo, a presença do personagem gay Félix na novela Amor à Vida), atacam os “tentáculos modernos da reforma agrária” (traduzidos, por exemplo, nos pleitos de índios e quilombolas por terras).

caravana ipco
Dissidentes mais conservadores: programação sob sigilo para não apanharem na rua (Foto: Divulgação)

O roteiro dessas peregrinações deixou de ser divulgado neste ano, após seus militantes serem agredidos em Curitiba, segundo eles, por defensores de causas que maldizem. “Eram o movimento homossexual, abortistas e elementos do PT”, aponta Martins. Em pleno 2013, as polêmicas da TFP continuam tão acesas quanto as tochas artificiais de sua antiga sede.

Fonte: VEJA SÃO PAULO