Crime

Quadrilhas chegam a furtar 4 quilômetros de fios por dia

Bandidos simulam até manutenções na rede para extrair cobre

Por: Adriana Farias

Rua dos Gusmões centro Semáforo
Semáforo desligado na Rua dos Gusmões, no centro, na quarta (3): o local foi alvo de ladrões pela décima vez neste ano (Foto: Leo Martins)

Na madrugada de 27 de fevereiro, um carro com o logotipo da Telefônica Vivo estacionou na Rua Conselheiro Moreira de Barros, em Santana. Ostentando uniforme e crachá da companhia, dois homens espalharam cones pela calçada e começaram a trabalhar na galeria subterrânea da via. Em duas horas, o “serviço” terminou. A dupla desmontou o cenário e sumiu depois de surrupiar 80 metros de fios elétricos da concessionária. Por descuido, um dos bandidos deixou a carteira de identidade cair no local, e ambos acabaram presos no mesmo dia. Parece surreal, mas trata-se de uma cena corriqueira.

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Um total de 738 quilômetros de cabos, usados para os mais diversos fins, foram furtados no primeiro semestre deste ano na capital, o que representa uma média de 4 quilômetros por dia. Ou seja, São Paulo perde quase uma Avenida Brigadeiro Faria Lima em fiação a cada 24 horas. O problema afeta 1,8 milhão de pessoas por ano e causa um prejuízo de 54 milhões de reais para as empresas. Os bandidos são atraídos pelo valioso cobre empregado na produção dos fios. Cada quilo do metal é revendido por 15 reais em ferros-velhos. O material volta ao mercado na forma de fios recapeados.

Na rede de telefonia, 252 quilômetros de fios desapareceram entre janeiro e junho, um crescimento de 40% em relação ao mesmo período de 2015. Esse não é o único setor atingido. Na manhã da última quarta (3), os cabos do semáforo instalado na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua dos Gusmões, no centro, foram subtraídos pela décima vez em 2016. Sim, é isto: há um roubo no local a cada vinte dias. “Tornou-se epidêmico nesse trecho, ocorre sempre”, afirmou um funcionário da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) que tentava contornar o caos no trânsito à espera da equipe de manutenção.

Vanderlei Oliveira administrador fios
O administrador Vanderlei Oliveira: prejuízo com um apagão de nove horas (Foto: Ricardo D'angelo)

A Eletropaulo também sofre com o fenômeno. Os fios do poste de luz localizado em frente à Unidade Básica de Saúde Jardim Guanabara, na Freguesia do Ó, desapareceram três vezes desde 2014. Na última delas, em 18 de janeiro, o posto passou vinte dias sem energia. “Cerca de 900 frascos de vacina estragaram na geladeira”, diz a coordenadora do espaço, Mariliana Mattos. “Os clínicos gerais tiveram de usar lanterna para atender os pacientes.” 

Em 15 de abril, a vítima foi a Rua Benjamin Constant, no centro, e o prédio da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo ficou às escuras por nove horas. “Quase um terço dos equipamentos queimou. O prejuízo chega a 70 000 reais”, diz o gerente-geral Vanderlei Oliveira. Na rede da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), 6 quilômetros de cabos suspensos, usados na locomoção dos trens, evaporaram neste ano. Em abril, as composições da Linha 11-Coral, com fluxo diário de 680 000 pessoas, circularam durante catorze dias com maior tempo de intervalo em decorrência dos danos provocados por um furto.

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Para desestimular novas investidas dos larápios, as empresas vêm tomando medidas preventivas. Nos últimos anos, CET e Telefônica Vivo passaram a usar um cabo bimetálico, com aço envolto em fina camada de cobre, o que torna o material menos atrativo. Mas essa variante ainda é minoria na malha. A Eletropaulo, por seu lado, instala sistemas de trava mais robustos para o acesso às galerias subterrâneas desde 2012. “Também colocamos alarmes em 25% das 4 000 câmaras”, diz William Fernandes, diretor de obras e manutenção.

Eletropaulo - William Fernandes
William Fernandes, da Eletropaulo: alarmes nas câmaras subterrâneas (Foto: Ricardo D'Angelo)

O crime é tão disseminado que há um setor na Polícia Civil apenas para lidar com casos desse tipo — até alguns anos, ele carregava o sugestivo nome de Delegacia de Furtos de Fios, mas, em 2012, foi rebatizado de Delegacia de Investigações sobre Crimes Patrimoniais contra Órgãos e Serviços Públicos. A equipe, de 26 agentes, prendeu cinquenta pessoas na capital no ano passado. “Algumas das quadrilhas que desbaratamos são especializadas”, afirma o delegado Jan Plzak. “Chegam a utilizar caminhões e equipamentos caros para roubar até 12 toneladas de cabos em um único dia.”

NA MIRA DO COBRE

Os números do crime na capital

738 quilômetros de cabos sumiram em 2016 

54 milhões de reais é o prejuízo anual

50 pessoas foram presas em 2015

Fontes: Telefônica Vivo, Eletropaulo, CET, prefeitura, CPTM e Polícia Civil

Fonte: VEJA SÃO PAULO