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Manifestação

Protestos na Avenida Paulista causam transtorno

Passeatas complicam o trânsito e atrapalham o atendimento médico da região. Apenas neste ano foram realizadas dezessete. Em média, uma por semana

16.abr.2010 | Atualizada em 7.dez.2010 por Mariana Barros [com colaboração de Henrique Skujis]

Na última quinta-feira, cerca de trinta metalúrgicos continuavam enfurnados dentro de barracas de camping na calçada em frente ao prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista. Eles davam continuidade às reivindicações que haviam motivado uma passeata dois dias antes. O grupo, que exige redução da jornada de trabalho, aguardava o avanço das negociações e ansiava pela remota possibilidade de se reunir com Paulo Skaf, o presidente da entidade. Sem obterem resposta, os metalúrgicos aproveitaram os 26 graus registrados pelos relógios do canteiro central para tirar os sapatos e bater papo, sentados ou deitados em seus iglus de lona. Desviando-se dos abrigos e das enormes faixas estendidas no chão, parte do 1 milhão de pedestres que circulam diariamente pela via tentava prosseguir em seu itinerário. Durante a passeata que culminou em frente à Fiesp, foram interditadas duas pistas da Avenida Paulista, desde o Paraíso até as imediações da Rua Pamplona. Com carro de som, faixas, balões e perto de 1 500 participantes, a ação surtiu efeito imediato: engessou o trânsito e deixou o entorno completamente congestionado durante horas. 

Gustavo Rampini/AE
Pista bloqueada por médicos residentes, na quarta-feira (14): turma de jaleco complicou a vida dos colegas
Pista bloqueada por médicos residentes, na quarta-feira (14): turma de jaleco complicou a vida dos colegas
(Foto: Gustavo Rampini/AE)
Pista bloqueada por médicos residentes, na quarta-feira (14): turma de jaleco complicou a vida dos colegas

Essa havia sido a 16ª manifestação realizada na avenida somente neste ano — a 17ª ocorreria um dia depois, quando médicos residentes se reuniram no vão livre do Masp e ocuparam uma pista da via para exigir reajuste nas bolsas de trabalho, data-base para aumento anual e ampliação da licença-maternidade. Para completar, à tarde, membros do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal em São Paulo empunharam microfones e reivindicaram revisão salarial. O local escolhido foi o Tribunal Regional Federal (TRF), também na Avenida Paulista. “Em outro lugar, não causaríamos impacto. Precisamos chamar atenção para a nossa causa”, diz Gerson Salvador, presidente da Associação Nacional dos Médicos Residentes. Ninguém discorda da visibilidade que os atos na avenida conseguem atrair. Visíveis também são as consequências que as interdições, ainda que parciais ou momentâneas, provocam no entorno, onde há quinze hospitais e cerca de 100 clínicas e consultórios, além de um intenso tráfego de ambulâncias. “Em dias de passeata, cada atendimento nosso leva dez minutos a mais, o que é um tempo precioso”, afirma Paulo Sálvio, diretor de operações do Grupo Bem, que oferece serviços emergenciais a toda a rede privada da região. Nesse caso, dez minutos podem significar a diferença entre vida e morte.

Existem sete ações movidas pelo Ministério Público contra sindicatos tramitando na Justiça, todas motivadas por protestos que causaram danos materiais e morais aos cidadãos. Outras duas acabaram em condenação, ambas contra o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), mas apenas uma foi paga, no valor de 83 000 reais. Quintas e sextas-feiras, quando o tráfego é mais intenso, são os dias preferidos pela associação para paralisar a avenida — e, de quebra, deixar sem aula os alunos das escolas públicas. Maria Izabel Noronha, presidente da entidade, tenta justificar o injustificável. Para ela, a categoria não poderia se reunir em praças porque isso impediria o formato de passeata. E acrescenta que quintas e sextas são eleitas para permitir a participação de professores do interior do estado, que, assim, fazem gazeta e emendam o fim de semana na capital. Em sua opinião, nem mesmo a concentração de hospitais é impeditiva. “Em qualquer lugar em que nos reunirmos haverá centros de atendimento médico por perto”, diz Maria Izabel. “E quem disse que os hospitais próximos à Paulista tiveram demanda nos dias de passeata?” Diariamente, cerca de 750 pessoas são atendidas pelo Hospital Sírio Libanês, localizado a poucos metros da avenida. 

Mario Rodrigues
Paulo Sálvio, do Grupo Bem: “Atendimentos emergenciais demoram dez minutos a mais em dia de protesto”
Paulo Sálvio, do Grupo Bem: “Atendimentos emergenciais demoram dez minutos a mais em dia de protesto”
(Foto: Mario Rodrigues)
Paulo Sálvio,do Grupo Bem: “Atendimentos emergenciais demoram dez minutos a mais em dia de protesto”

Embora a livre manifestação seja um direito garantido pela Constituição, as entidades têm obrigação de avisar a CET e a Polícia Militar para que estas acompanhem o ato e minimizem seu impacto. Do contrário, podem ser processadas. “Vale o bom senso. Se todo mundo quiser fazer reivindicações, ninguém mais vai circular pela Paulista”, afirma José Carlos Freitas, promotor de habitação e urbanismo. Somente a Parada do Orgulho Gay, a corrida de São Sivestre e a festa de réveillon têm autorização da prefeitura para ser realizadas ali. Cansada de amargar os congestionamentos decorrentes dos protestos, a ginecologista e obstetra Virgínia Roncatti simplesmente parou de realizar partos na Pro Matre e no Hospital Santa Catarina. Exceções são abertas quando o plano de saúde a que ela atende oferece somente esses locais como opção. Foi o que aconteceu com uma de suas pacientes, que decidiu dar à luz na Pro Matre. Na semana passada, no entanto, a médica teve de cancelar duas visitas à maternidade. Em um dia, por causa do ato dos metalúrgicos. No outro, por causa dos médicos residentes. Nem mesmo o Masp é poupado dos transtornos. De acordo com o secretário-geral do museu, Luiz Pereira Barreto, em dias de manifestação os funcionários ficam acuados e o público tende a zero. “Não questiono a legitimidade e as reivindicações, mas é preciso preservar o direito de ir e vir de quem quer entrar aqui.” Há quinze dias, o Masp enviou um ofício à Secretaria de Segurança Pública do Estado pedindo que a polícia ao menos garanta o acesso à bilheteria com grades que separem seus visitantes da multidão. Afinal, com a repetição dessas cenas, cada vez menos o vão criado pela arquiteta Lina Bo Bardi pode ser chamado de “livre”.

NÚMEROS DA PAULISTA

1 milhão

de pedestres por dia

120 000

veículos por dia

15

hospitais

100

centros de atendimento médico

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