Teatro

Paulo Miklos estreia no palco como Chet Baker

O vocalista e guitarrista dos Titãs protagoniza peça sobre o cultuado trompetista americano e celebra nove anos longe das drogas

Por: Dirceu Alves Jr. - Atualizado em

Paulo Miklos
O artista em atividade: Miklos dividido entre o teatro, cinema e shows da banda (Foto: Rodrigo Dionísio)

No ápice dramático do espetáculo Chet Baker, Apenas um Sopro, o cantor e trompetista americano (interpretado por Paulo Miklos) recupera os sentidos depois de uma injeção de heroína, mas continua viajando na egotrip, a ponto de esboçar um lamento aos colegas no estúdio de gravação. “Meu problema é que sou talentoso demais”, diz. “Caramba, como sou bom, mas vivo querendo pegar uns atalhos e, às vezes, dá m....” As palavras do personagem extrapolam o limite artístico e encontram ressonânciana intimidade do vocalista e guitarrista dos Titãs. A partir de quarta (20), ele pode ser visto em sua primeira incursão teatral, no Centro Cultural Banco do Brasil. “É um acerto de contas com o meu passado”, conta Miklos, que estreia nos palcos depois de bem-sucedidas experiências nos filmes O Invasor (2002) e É Proibido Fumar (2009). “É muito difícil enxergar os próprios erros sendo adulado por todo mundo, e, por vezes, dói perceber que essa prepotência também faz parte da minha vida.

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Chet Baker, Apenas um Sopro traz um livre recorte da biografia barra-pesada do ídolo do jazz, morto em 1988. Duas décadas antes, o artista teve os lábios rachados e perdeu os dentes em uma briga de rua, ficando impedido de tocar seu instrumento por três anos.A peça se desenrola na tarde em que Baker retorna aos estúdios depois do episódio e encontra um clima de desconfiança entre os músicos que o acompanharão - papéis de Anna Toledo, Jonathas Joba, Piero Damiani e Ladislau Kardos. “A escolha de Miklos possibilita um contraponto com a trajetória de Baker, pois é um cara que, além das óbvias afinidades, carrega experiências pessoais que o ajudam a contar essa história”, afirma o diretor da peça, José Roberto Jardim.

Chet Baker, Apenas um Sopro
Paulo Miklos e Anna Toledo: recorte sobre a vida do músico americano (Foto: Victor Iemini)

Criado na região central e vivendo no bairro de Perdizes desde a adolescência, Paulo Roberto de Souza Miklos — que completa 57 anos no dia 21 — mergulhou no clichê sexo, drogas e rock’n’roll. “Foi o cinema que me levou a enxergar a hora de largar tudo”, conta. “Virado do avesso eu fazia shows e discos, mas para enfrentar um dia de filmagem é preciso ter cara boa e a memória afiada.” Está limpo das drogas químicas há nove anos e, na sequência, também largou o álcool e o cigarro. Em 2006, disposto a se internar, procurou uma clínica de reabilitação, mas foi aconselhado a recorrer a uma terapia específica para dependentes. “Já tinha admitido que precisava começar uma nova história, e junto veio a noção de que não faria diferença subir no palco de cara limpa, eu cantaria com a fúria de sempre”, explica.

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Se Miklos fala naturalmente desses dramas, a tristeza não é disfarçada diante do teste de força de vontade a que foi submetido.“Caso eu não estivesse equilibrado, afundaria de vez”, reconhece. Sua mãe morreu em 2012, e, um ano depois, foi a vez de sua mulher, Rachel Salem, com quem vivia desde 1982, ser derrotada por um câncer no pulmão. Passados seis meses, o pai também morreu. “Fiquei sem chão, chorava nos shows, cantando qualquer coisa, e ninguém entendia nada”, recorda. O parceiro Branco Mello, dos Titãs, reconhece que o fato de o amigo ter deixado velhos hábitos foi fundamental para a superação desses lutos. “O Paulo se mostrou um guerreiro ao enfrentar com maturidade essas grandes perdas sem deixar de sofrer”, avalia.

Carrossel - O Filme
Oscar Filho e Paulo Miklos em Carrossel: novo filme em 2016 (Foto: Tom Hamburger e Caio Romano Guerra)

Nesse processo, Miklos se aproximou ainda mais da única filha, Manoela, 32, doutora em relações internacionais e criadora do projeto #AgoraÉqueSãoElas, que convidou colunistas e jornalistas homens a abrir espaço na mídia para mulheres narrarem casos de machismo. “Eu botei uma feminista no mundo!”, brinca. Além da peça, ele representará nas telas neste ano outro nome da música. Na pele do compositor Adoniran Barbosa, protagonizará a ampliação em longa metragem do curta Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano, ainda sem previsão de estreia.

Sucesso entre as crianças, o filme Carrossel renderá uma segunda parte, e o artista já garantiu uma brecha para retomar o vilão Gonzales. Jura, no entanto, que não há risco de o ator engolir o músico. As sessões de Chet Baker são de segunda a quinta porque nos fins de semana a prioridade é o grupo. Os Titãs fazem de seis a oito shows por mês e renovaram o fôlego em 2014 com um CD de inéditas, Nheengatu. Para coroar a boa fase, o álbum gerou um DVD produzido por Renata Galvão, com quem Miklos engatou um namoro há um ano. “Eu largo a droga, mas a banda, não”, diverte-se. 

o invasor
Revelação no cinema: Paulo Miklos e Mariana Ximenes em O Invasor (2002) (Foto: Divulgação)

Sete vidas do ator

O Invasor (2002, foto): ele estreou na pele do malandro Anísio, no filme de Beto Brant, com Marco Ricca e Mariana Ximenes

Bang Bang (2005): novela das 7 da Rede Globo escrita por Mario Prata. Miklos representouo pistoleiro Kid Cadillac

Estômago (2007): mais um bandido, desta vez batizado de Etcétera, era seu personagem nolonga do cineasta Marcos Jorge

É Proibido Fumar (2009): nesta comédia de Anna Muylaert, viveu o namorado antitabagista da personagem de Gloria Pires

Sessão de Terapia (2012): no seriado dirigido por Selton Mello, teve participação como o pai dap aciente Nina (Bianca Müller)

Carrossel — O Filme (2015): interpretou o vilão Gonzales,que atormenta as crianças em um acampamento

Califórnia (2015): é um dos protagonistas do filme de Marina Person em cartaz na cidade

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Fonte: VEJA SÃO PAULO