Crime

Mãe suspeita de matar filhas tinha 200 000 em dívidas

Giovanna Knorr Victorazzo gostava de ir ao shopping e se maquiar. Paola estava empolgada com a feira cultural da escola

Por: João Batista Jr., Juliana Deodoro e Nataly Costa

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A casa de Mary Knorr: homenagens deixadas pelos vizinhos após a descoberta dos assassinatos (Foto: Marcos Ambrosio / Folhapress)

Giovanna Victorazzo, de 14 anos, havia se programado para andar nas montanhas-russas do Hopi Hari na sexta (13). Iria na companhia de Camila Rebouças, da mesma idade, e outras três amigas. Como o smartphone de Giovanna tinha quebrado dias antes, suas colegas lhe mandaram mensagens pelo Facebook na véspera para acertar os detalhes do passeio. Como não houve retorno, o programa acabou desmarcado, mas ninguém achou estranha a atitude da menina. Giovanna era assim mesmo: às vezes, desconectava-se e desaparecia por um tempo das redes sociais. Somente no sábado (14) ficou claro o real motivo do seu sumiço. Naquele dia, quando estava em um churrasco familiar, Camila recebeu a notícia de que a amiga havia sido encontrada morta dentro de casa ao lado da irmã, Paola, de 13. Socorrida quase sem vida na mesma residência, localizada no bairro do Butantã, Mary Vieira Knorr, 53, teria confessado a um PM ter dado fim à vida de suas filhas. “Chorei muito quando soube disso”, lembra Camila. Por não acreditar na notícia, a garota pediu que seu pai a levasse até o local do crime. “A Gi não respondeu às nossas mensagens no Facebook porque já devia estar morta.”

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 Outras pessoas também notaram a ausência de Giovanna. Os irmãos Leon Gustavo, 27 anos, e Eliane, 31, ambos frutos do primeiro casamento de Mary, ligaram para lá na mesma sexta. Nada de alguém atender. Mandaram torpedos.Também ficaram sem resposta. Preocupado, Leon foi no dia seguinte até a casa onde sua mãe morava com as meninas. Mesmo da calçada, sentiu um cheiro forte de gás vindo de dentro. Decidiu subir no muro da casa vizinha, notou um odor ainda mais intenso e ligou para o Corpo de Bombeiros. Em pouco tempo,o imóvel foi invadido. Era por volta das 15 horas de sábado (14). Leon entrou com os soldados e encontrou Mary na sala, desacordada, com o corpo molhado de gasolina. O ar estava denso devido ao gás de cozinha espalhado pelo ambiente. No andar de cima, o rapaz descobriu as adolescentes mortas no quarto que dividiam.

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Mary com o yorkshire Rick, também encontrado morto (Foto: Fotos Arquivos de família)

Giovanna estava deitada de lado na parte inferior de um beliche. Bastante inchada, tinha o pescoço marcado por hematomas e com manchas de sangue. Em outro beliche, ao lado, também na parte inferior, estava o corpo de Paola. Seu pescoço não apresentava marcas, porém o nariz e a boca estavam machucados e existiam sinais de sangue. A caçula vestia um pijama branco com estampas de coração na cor lilás. Havia também algumas manchas de sangue seco no chão do quarto. No boxe do banheiro, encontrou-se o cadáver de Rick, o yorkshire de estimação das meninas. O cachorro morreu por asfixia, com um saco plástico na cabeça.

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Mary com a filha Paola: até a última quinta (19), ela estava sob custódia policial (Foto: Arquivo de família)

Até o fim da tarde da última quinta (19), Mary não havia sido ouvida pela polícia. Com a perda de sentidos por ter inalado gás por tempo ainda indeterminado, ela deu entrada no Hospital Universitário, na Cidade Universitária, onde permanece sob custódia da polícia. Segue sob efeito de calmantes, mas não corria risco de vida. “Eu tinha a intenção de interrogá-la imediatamente, mas não foi possível”, conta o delegado Gilmar Contrera, do 14º Distrito Policial, em Pinheiros, responsável pelo inquérito. Isso porque um atestado assinado pela médica Eloisa Correa de Souza diagnosticou que a paciente está com um quadro de transtornos mentais. “Ela não anda falando coisa com coisa”, diz o advogado Lindberg Souza Assis, contratado pela família de Mary. “Na visita que fiz na última quarta, ela chegou a perguntar como estão as meninas.” Ainda que a investigação esteja apenas no início, a polícia trata a mãe das adolescentes como a única suspeita do crime.

 Mary Vieira Knorr tem um histórico profissional conturbado. Trabalha como corretora de imóveis, embora não tenha registro no Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) para atuar na área. Responde a quatro inquéritos (três por estelionato e um por apropriação indébita). No Serasa, serviço de análise de crédito, constam contra ela doze pendências e seis protestos. Um dos casos diz respeito a uma dívida de 25000 reais. Essa quantia era parte do sinal da transação de compra de um imóvel de 400 000 reais na Granja Viana. “Ela usou esse dinheiro e não pagou meu cliente”, acusa o advogado Ivair José Souza. Outra pessoa entrou com um protesto referente a uma promissória de 3 600 reais. O motivo foi parecido. Mary teria embolsado indevidamente a quantia pela intermediação da venda de um apartamento, em Cotia. “Ela deixou de atender as minhas ligações”, lembra Marina Alves de Souza, que se apresenta como outra vítima de calote. As duas se encontraram pela última vez no ano passado. A corretora estava com um dente quebrado e com a boca machucada. “Ela me disse que havia batido o carro, mas a sensação era a de que tinha apanhado de alguém.” A polícia calcula que Mary tenha uma dívida acumulada de pelo menos 200 000 reais.

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O enterro das adolescentes, no cemitério de Taboão da Serra: a polícia vai colher nos próximos dias os depoimentos de vizinhos, parentes e professores das meninas (Foto: Ricardo Cardoso / Estadão Conteúdo)

Ela se mudou para o endereço atual, um sobrado de 170 metros quadrados, um ano e meio atrás. “Há três meses eu não recebia o pagamento do aluguel”, conta Adriana Munari, proprietária do imóvel. “No entanto, minha inquilina tinha combinado comigo de acertar os atrasos até o fim de setembro.” Mary não cuidava sozinha das contas familiares. O comerciante Marco Antonio Victorazzo, pai das adolescentes assassinadas e separado dela há nove anos, pagava pensão alimentícia. “Estou sem explicações para o que aconteceu, dói demais falar sobre isso”, afirmou ele a VEJA SÃO PAULO, bastante emocionado. Victorazzo não tem outros filhos. Nos fins de semana que passava com as garotas, gostava de levá-las para pescar.

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A casa de Mary Knorr: homenagens deixadas pelos vizinhos após a descoberta dos assassinatos (Foto: Marcos Ambrosio / Folhapress)

Na quinta, as meninas faltaram à escola. Segundo a polícia, é provável que tenham sido assassinadas no mesmo dia. Giovanna por esganadura e Paola, por asfixia. Na sexta, Mary foi vista por vizinhos passeando na rua com o yorkshire Rick. A perícia vai analisar se foram utilizados objetos como travesseiros na ação contra as adolescentes. Como não é descartada a possibilidade do uso de sedativos, estão sendo feitos exames toxicológicos. Os resultados devem ficar prontos em trinta dias. De acordo com a hipótese principal da investigação, Mary teria matado as duas filhas na quinta, o cachorro entre sexta e sábado e, na sequência, teria aberto o gás do fogão para tentar se suicidar.

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PMs na cena do crime: a morte das meninas teria ocorrido na quinta (12) (Foto: Mario Ângelo / Folhapress)

Amigas próximas das adolescentes contam que elas levavam uma vida confortável e nunca haviam falado sobre problemas financeiros no lar. “A Mary, que para mim era uma segunda mãe, queixava-se de que a Giovanna não limpava a casa”, lembra Camila. Ela costumava passar todos os fins de semana com Giovanna.Os programas preferidos eram ira os shoppings Eldorado e Villa-Lobos. Nessas ocasiões, Giovanna saíac om 100 ou 200 reais para gastar. Vaidosa, mostrava-se feliz por causa de um estojo de maquiagem da marca francesa Sephora recebido de presente da mãe. Paola era mais introspectiva e estava empolgada com a feira cultural do colégio onde estudava, o Pollux, no Butantã. O tema seria poluição. “A mãe das meninas esteve presente em todas as reuniões e sempre se mostrou muito interessada em saber do aproveitamento escolar delas”, relata a coordenadora pedagógica Maria Cristina Geraissate. Muitas vezes, Mary ia buscar as meninas na escola na companhia do yorkshire Rick.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO