Arte e design

Quando Paris alucina

É a vez dos Campana na cidade: eles decoram uma suíte de hotel, ganham prêmio e mostra e assinam um objeto para uma grande grife

Por: Kênya Zanatta, de Paris - Atualizado em

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A peça central desta suíte com dois quartos, num dos hotéis simbólicos da margem esquerda do Sena, é o enorme tapete fabricado sob medida pela empresa italiana Nodus com base num desenho de dois artistas paulistas e confeccionado a mão na Índia. A peça inteiriça viajou os continentes e agora sobe pelas paredes da suíte Fernando & Humberto do Hotel Lutetia, aberta em setembro, desenhando uma cabeceira. “Tudo foi escolhido para evocar uma floresta, mas respeitando o estilo art déco do hotel”, diz Fernando Campana. Ele e o irmão, Humberto, selecionaram móveis próprios produzidos na Europa, como as poltronas Leather Works, da Edra, um patchwork de 400 peças de couro, e as luminárias de ratã Amanita, da Alessi, cujas formas lembram um cogumelo. Almofadas de tricô da coleção Soft Reptil, da Trousseau, e serigrafias do Vitra Design Museum, da Alemanha, completam a decoração. O ambiente entra para a lista de suítes temáticas, que inclui o artista plástico brasileiro Vik Muniz e o pintor e escultor francês Arman, e mira a clientela vinda do Brasil, a terceira mais importante do Lutetia depois dos americanos e dos franceses.

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Mas não é necessário se hospedar no grande hotel do Boulevard Raspail para admirar as obras dos artistas. Eles são os primeiros brasileiros a criar objetos de viagem para a parisiense Louis Vuitton, cuja venda será mundial: para a linha Objets Nomades, bolaram o Maracatu, um armário portátil e dobrável, com 1,2 metro, feito de sobras bem-acabadas de couro coloridas, com três prateleiras internas. São apenas doze disponíveis. O Museu das Artes Decorativas expõe até fevereiro de 2013 a nova série de móveis da dupla. As onze peças da exposição Barroco Rococó foram produzidas em Roma, com o auxílio de artesãos italianos, e associam o bronze e o mármore, materiais típicos da tradição italiana, a elementos verde-amarelos, como o bambu e a fibra de coco. Algumas foram expostas na embaixada do país em Roma em 2011, mas o museu apresenta peças novas num cenário inusitado. O popular capacho de fibra de coco recobre o chão e as paredes da sala dedicada aos designers. “Isso cria uma sensação tátil e olfativa e remete aos gabinetes de curiosidades do século XVIII”, diz Fernando. Cada um dos móveis é um gabinete de curiosidades em si. Examinados com atenção, revelam, entre as figuras de bronze fundido, objetos prosaicos como pentes, seringas e crocodilos de brinquedo. “Fizemos uma arqueologia urbana”, nas palavras de Fernando, que tempera com irreverência a imponência do metal. “O que nos interessa é resgatar técnicas em extinção”, conta Humberto, que passou várias semanas trabalhando com artesãos em Roma.

A capital italiana foi, aliás, grande fonte de inspiração pelos inúmeros extratos de história e estilos arquitetônicos que se misturam nas ruas do centro histórico. A loja do museu vende peças feitas pelos designers: um colar formado por garras de crocodilo de ouro, imagem recorrente na mostra, sai por 2 500 euros e tem edição limitada a trinta exemplares. Além da inauguração da suíte do Lutetia e da exposição, os designers receberam em setembro o prêmio Colbert Criação & Patrimônio. A recompensa valoriza o trabalho de personalidades que renovam a criação contemporânea e ao mesmo tempo preservam o savoir-faire tradicional e é entregue anualmente pelo Comitê Colbert, que reúne 75 marcas de luxo francesas e treze instituições culturais.

Suíte Fernando & Humberto, no Hotel Lutetia. 45, Boulevard Raspail, ☎ 33 (1) 4954-4646. Diária da suíte com dois quartos: 2 500 euros

Barroco Rococó, no Musée des Arts Décoratifs.107, Rue de Rivoli, ☎ 33 (1) 4455-5750. Até 24 de fevereiro. Entrada: 9,50 euros

Fonte: VEJA SÃO PAULO