Educação

Grêmios estudantis ganham relevância nos colégios

Grupos organizados pelos alunos criam atividades além das festinhas e campeonatos

Por: Angela Pinho - Atualizado em

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Gabriel (à esq.) e Thomaz, do Elvira Brandão: cartazes com as bandeiras dos estudantes (Foto: Lucas Lima)

A rotina da Escola Estadual Doutor Murtinho Nobre, na região do Ipiranga, começou a mudar em 2012, quando uma caixa de papelão foi instalada no pátio pelo grêmio local para receber sugestões dos alunos. Uma das ideias resultou em plebiscito sobre a cor do uniforme, que passou de branco (“suja muito fácil”, reclamavam) para cinza.

Outra novidade: agora, há uma feira de ciências e campanha de conscientização contra as “guerrinhas” de merenda. “Arremessavam as frutas e esguichavam os saquinhos de suco”, descreve Bárbara Michelle de Oliveira, de 13 anos, membro do grupo, fundado em maio de 2012.

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Com ações mais impactantes no dia a dia dos jovens que a organização da pró-xima festa do sorvete ou a arrecadação de prendas para a gincana, uma série de grêmios vem conquistando espaço singular nas salas de aula. Um levantamento da Secretaria Estadual de Educação finalizado neste mês mostrou que se trata de uma instituição fortalecida: 48% das escolas estaduais com ensino médio da capital possuem sua entidade estudantil.

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Alunos do Bandeirantes, na rádio interna: espaço também para entretenimento (Foto: Lucas Lima)

Em quase um terço (ou 29%) delas, o órgão não existia cinco anos atrás. Os dados mostram ainda que a maioria tem eleições diretas e prestação de contas anual. São casos como o do colégio Alexandre Von Humboldt, também público, da Lapa, onde o participante Rafael Correa, de 16 anos, repetiu diversas vezes a mesma palestra, a fim de convencer os colegas a combater o desperdício de merenda e auxiliar na limpeza. “Queremos aprender em um ambiente mais agradável”, defende.

Nas escolas particulares, que ficaram de fora da pesquisa, a politização dos grêmios é evidente. Em junho, quando a onda de protestos fervilhava pelo país, estudantes do Elvira Brandão, na Chácara Santo Antônio, fixaram cartazes nos postes da região com suas bandeiras, como a valorização dos professores. Alguns dias depois, voltaram para retirá-los. “Com a chuva, eles poderiam se descolar e sujar a rua”, diz Gabriel de Castelo Branco, de 14 anos.

No Colégio Santa Maria, há organização de discussões sobre assuntos da atualidade (o papel da mulher na sociedade, a desmilitarização da polícia etc.). No Porto Seguro, a política também é item fundamental da agenda. No “clube de debates”, dois grupos discutem um tema nacional ou internacional previamente combinado — o último foi a vinda de médicos estrangeiros. “Isso é importante para estimular a pesquisa e a oratória”, ressalta o presidente Vinícius Calegari, de 15 anos. Para Mozart Neves Ramos, integrante do Conselho Nacional de Educação, é errado ver a mobilização estudantil como ameaça. “Ter uma liderança entre os alunos ajuda muito os diretores, pois facilita o diálogo”, afirma.

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Turma de uma estadual do Ipiranga: combate ao desperdício de merenda (Foto: Fernando Moraes)

Não que apenas os temas “sérios” sejam importantes. As entidades têm a função de inventar maneiras criativas de entretenimento. No Santa Cruz, por exemplo, foi montado um álbum com fotos dos jogadores do campeonato de futebol interno — os “craques” posam para as figurinhas, que são vendidas em pacotinhos (75 centavos).

No Elvira Brandão, toda sexta-feira é realizada uma happy hour, sem bebidas alcoólicas, mas com atrações como videogame. Graças à intervenção do grêmio, cada jovem ganhou o direito de levar um convidado. No Bandeirantes, há uma rádio interna com música e informativos sobre as atividades.Apesar de a evolução dos grupos acontecer tanto nas escolas particulares quanto nas públicas, não são poucas as diferenças entre eles.

Enquanto os superconectados das particulares lançam mão da tecnologia como a principal ferramenta de comunicação, apenas 11% dos alunos das públicas se mobilizam por Facebook, 3,6% por blog e menos de 1% por Twitter. Na maior parte das vezes, os avisos são dados diretamente em sala de aula e por meio da boa e velha cartolina.

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(Foto: Lucas Lima)

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO