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Gabriella Pascolato: empresária de moda revela trajetória de 90 anos em biografia

Mãe de Costanza Pascolato, Gabriella deu primeiros passos na moda em 1948, quando fundou a tecelagem que dirige até hoje

Por: Alvaro Leme - Atualizado em

Ícone fashion aos 90 anos de idade, a empresária Gabriella Pascolato deu os primeiros passos na moda nacional em 1948, quando fundou a tecelagem que dirige até hoje. Seis décadas depois, essa elegante senhora lança sua biografia, Gabriella Pascolato ­ Santa Constância e Outras Histórias, resultado de um longo depoimento dado ao autor, Sérgio Ribas. No livro, relata uma trajetória que vai da infância na Itália ao seu reinado entre a turma das passarelas do Brasil (onde é muito conhecida também por ser mãe da expert em estilo Costanza Pascolato).

Contar sua história numa biografia era um sonho antigo?

Jamais me achei à altura de escrever um livro. Meus filhos sugeriram, e aceitei porque era uma chance de contar também a história de nossa tecelagem. Não acho que minha vida seja assim tão interessante...

O livro traz alguma grande revelação?

Não exatamente. Contém pormenores de histórias pouco conhecidas. Sobre pessoas da moda que vi começar, por exemplo. O Renato Kherlakian, que me convidou para desfilar na São Paulo Fashion Week, criou a confecção na garagem dos pais, em Santana, com um crédito de tecido que dei a ele. A jornalista de moda Erika Palomino, quando não era ninguém e queria vencer, vinha me pedir conselhos.

A senhora esteve pessoalmente com ícones da moda como Coco Chanel. Que impressão teve dela?

Conheci todos os costureiros franceses e italianos importantes. Madame Chanel já era velha quando a encontrei, mas muito interessante. Tinha uma bela figura, o tipo de mulher que conseguia ficar chique sem precisar de muitas roupas. Também fui amiga de Emilio Pucci e de Salvatore Ferragamo, que conheci ainda meio camponês. Era meu sapateiro.

A senhora não tem ido tanto à São Paulo Fashion Week. Enjoou?

Enjoei um pouco, sim. Passei sessenta anos assistindo aos desfiles dos Estados Unidos, da França e da Itália. Além disso, aqui havia atrasos e me cansava de caminhar por aquele prédio tão grande (o Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera).

Quem não nasce elegante pode aprender a ser elegante?

Acho muito raro. Mas não significa que é necessário ser rico para ser chique.

O que mais lhe desagrada na moda de hoje em dia?

Acompanho moda há tantos anos que nada mais me arrepia. Não me dou ao luxo de julgar porque uma peça que hoje é horrorosa pode virar a última moda daqui a três anos.

A senhora trabalhou com tecidos a vida inteira. Qual considera o mais chique?

Um bom cetim.

E o mais cafona?

Em geral, combinações de viscose com algodão tendem a ficar grosseiras.

O que não pode entrar nunca no guarda-roupa de uma mulher elegante?

Bolsas muito espalhafatosas e sapatos de bico extremamente fino. Estes ou apertam demais os dedos ou precisam ser de tamanho muito maior que o pé da mulher. E acho que estampados devem ser usados com cautela. De dia, tudo bem. À noite, não gosto.

E o que não pode faltar?

Um bom conjuntinho que tenha casaco, calça e uma saia como opção.

Sua filha Costanza é uma das mulheres mais elegantes do país. Qual foi a principal lição que a senhora lhe ensinou?

Ela já veio assim. Nunca precisei me esforçar para ensinar Costanza a ser elegante. Com 2 anos e meio, ela chorava na frente do espelho por não gostar do comprimento de um vestido.

Qual é sua grande paixão de consumo?

Roupas. Todo mês, minha costureira (Elza de Oliveira Araújo) vem aqui para me fazer um terninho. Mostro uma roupa de bom corte e ela consegue fazer com o mesmo caimento.

É vaidosa?

Não. Nunca precisei de muita produção. E sempre tive uma facilidade enorme para ter homens atrás de mim... Ficava amiga deles para amenizar e mantinha distância.

A senhora já fez plástica ou aplicou Botox?

Mas nem pensar!

Se pudesse voltar no tempo, o que mudaria em sua vida?

O período da II Guerra Mundial, que foi sem dúvida o mais difícil de minha vida. De resto, não tenho do que me queixar. Os últimos cinqüenta anos foram maravilhosos. Nem percebi que estava ficando velha.

Fonte: VEJA SÃO PAULO