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Resort Laucala Island é único e exótico em Fiji

Com diária de 4 600 dólares, inclui passeio em um submarino e mergulho em piscina transparente na ilha

Por: Adriana Setti, de Fiji - Atualizado em

submarino laucala island resort
Deep Flight Super Falcon, o submarino do fundador da Red Bull: passeio único pela costa norte do arquipélago (Foto: Maila Johnson)

"Caso algo aconteça comigo lá embaixo, você tem todos os comandos duplicados no seu cockpit para assumir o controle do submarino”, diz o piloto Gordon Wakeham, em tom sereno. “Se houver pane no motor, a flotabilidade positiva da cápsula nos trará de volta à superfície.” Enxugo o suor das mãos e travo as várias pontas do cinto de segurança, o último passo antes de vedar o meu pequeno casulo de fibra de carbono com uma cúpula de acrílico. Finalmente, a plataforma de madeira acoplada ao Deep Flight Super Falcon começa a avançarem direção ao mar. Ao atingir alguns metros de profundidade, o submarino se desprende e vai ganhando velocidade, que pode chegar a até 11 quilômetros por hora.

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Dentro do cockpit, ouço apenas um ruído agudo, interrompido vez ou outra pela voz inalterável de Gordon: “Are you o.k.?”. Pouco a pouco, meu campo de visão tinge-se de azul. Prendo a respiração. Quando nos aproximamos de um arrecife, surgem vários tipos de peixinhos coloridos e uma tartaruga. Tudo parece bem menor visto através do acrílico côncavo. Mas isso está longe de ser o único elemento desconcertante. Em meio a uma aglomeração de plânctons que produz o efeito visual de uma tempesta de cósmica, noto que o indicador acusa 60 metros de profundidade.

Com aspecto semelhante ao de um caça aéreo, medindo 5,9 metros de comprimento e 2,7 metros de largura com as asas abertas, o Super Falcon é a mais extravagante das amenidades do pacote all inclusive do Laucala Island Resort (pronuncia-se “lodhala”), instalado na ilha privada do bilionário austríaco Dietrich Mateschitz, no nordeste do Arquipélagode Fiji.

Notório por sua paixão pela inovação, pelos esportes radicais e pelas supermáquinas, o cofundador da marca de bebidas energéticas Red Bull arrematou o “brinquedinho” de última geração por 1,7 milhão de dólares em 2013. Especializada em “submarinos pessoais”, a Deep Flight é o laboratório de criações do célebre engenheiro Graham Hawkes, que também desenhou a bolha transparente que protagoniza a expedição submarinano documentário Criaturas das Profundezas, produzido pelo cineasta James Cameron.

piscina principal laucala island resort
Piscina transparente: caixote cercado por uma lagoa e coqueiros (Foto: Jason Busch)

Mesmo que não proporcionasse viagens ao fundo do mar aos hóspedes, o Laucala Island Resort já teria seu lugar garantido entre os playgrounds mais singulares do planeta. A ilha abriga apenas 25 vilas e residências (uma delas, no topoda montanha, é o refúgio de férias de Mateschitz), pulverizadas por uma faixa de 4 quilômetros na costa norte, pontilhada de praias brancas.

O staff constitui um exército de 400 pessoas, que atende um máximo de oitenta hóspedes, número raramente atingido. “Uau! Uma pessoa!”, exclamou o único hóspede com quem cruzei durante os dias que passei no hotel. A surpresa teve razão de ser. Dada a vastidão, até aquele momento eu também tinha a sensação de estar na minha ilha particular, atendida por um séquito discreto e sorridente e por uma equipe de concierges encabeçadap elo onipresente Tony Saukuru, elegantíssimo em seu sarongue bege.

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O campo de golfe de dezoito buracos é assinado pelo escocês David McLay Kidd. A piscina anexa ao Beach Bar é um caixote retangular transparente em meio a uma gigantesca lagoa cercada de coqueiros. A lista de atividades aquáticas disponíveis (e incluídas na diária) requer as habilidades de um 007: jet ski, wakeboard, esqui aquático, mergulho, pesca esportiva, windsurf, kitesurf.

Há três tipos de veleiro disponíveis, entre eles o clássico Rere Ahi, de 1970, inteiramente construído com madeira teca, que leva os hóspedes para velejar no pôr do sol. A lancha especial de mergulho tem esplêndidos sofás de couro branco e chega em pouquíssimos minutos a dive spots como o Big Blue, uma parede coralina onde é possível avistar tubarões, arraias e cardumes de barracudas -- alguns dos melhorespontos de mergulho de Fiji, no Estreito de Somosomo, estão a pouco mais de uma hora de viagem.

campo de golfe laucala island resort VEJA LUXO 2015
Campo de golfe: o projeto do escocês David McLay Kidd conta com dezoito buracos (Foto: Jason Busch)

Para o deslocamento, os hóspedes contam com carrinhos de golfe -- desviar-se dos enormes caranguejos e sapos que atravessam as ruas de paralelepípedos acrescenta uma leve dose de emoção aos trajetos noturnos. Ainda assim, deixar os domínios da vila requer esforço. Minha Vivili, o modelo mais “simples”, era uma casa de praia compartimentada em cinco pavilhões (hall de entrada, quarto, closet, lounge, banheiro) lindamente cobertos de palha. As estruturas são erguidas com vigas de madeira maciça alinhavadas com magi magi, um delicadíssimo trabalho manual que desenha formas geométricas com cordas de fibras de coco.

Dois funcionários na ilha dedicam-se exclusivamente a produzi- los emantê-los. O complexo conta ainda com um banheiro ao ar livre e um espaçoso lounge sombreado ao redor da piscina privada que se estende até a praia. Para a privacidade total, basta posicionar um coco vermelho à entrada dos seus aposentos. As vilas não têm cortinas e as portas de vidro são enormes, para que o contato com a natureza seja mais próximo. Os móveis são de madeira maciça. Mesas, cadeiras e day beds possuem formas orgânicas, arredondadas, nada tem ponta ou acabamento sintético.

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O décor é inspirado na cultura fijiana, com texturas e estampas que lembram tatuagens tradicionais. Uma luminária em formato de medusa, feita de fibra de coco, é o suprassumo do design naturalista. Na unidade mais espetacular, a Overwater Residence (a favorita da apresentadora americana Oprah Winfrey), o estilo rústico ganha um twist urbano com chaises vermelhas, quadros e peças de design em cores gritantes. O projeto é uma parceria entre o escritório americano de arquitetura WATG e a designer de interiores britânica Lynne Hunt.

A construção demandou um investimento de 300 milhões de dólares e se estendeu por cinco anos. Inaugurado em 2008, o hotel quase não é visível a quem sobrevoa o semblante vulcânico da ilha (que tem um pequeno aeroporto), cujo pico mais alto chega a 260 metros. Ainda que levante a bandeira da sustentabilidade, o resort não utiliza placas solares.“Dietrich não quer que seus convidados sobrevoem a ilha e tenham esse visual natural estragado por estruturas metálicas”, diz o francês Vincent Pauchon, diretor de vendas e marketing. “Para ele, a proposta ecológica não deve se sobrepor ao design.”

restaurante laucala island resort
Beach Bar: a arquitetura rústica remete ao artesanato da região (Foto: Jason Busch)

Mais de 50% da superfície de Laucala (cujaárea total é de 1 400 hectares) é coberta por mata virgem, e 10% abrigam uma pequena fazenda, onde são cultivados chás, especiarias, verduras, frutas tropicais e ervas medicinais (que servem de base para os produtos usados no spa, 100% fabricados in loco). Também há porcos, vacas, galinhas, patos e até mesmo bois da raça japonesa wagyu, alimentados com capim importado da Nova Zelândia. A água consumida brota das nascentes locais. “Mais de 80% dos nossos ingredientes são produzidos na ilha, e a meta é expandir essa marca nos próximos anos”, diz o chef executivo australiano Anthony Healy, que administra uma equipe de 44 cozinheiros.“Eu sempre me interessei por agricultura, mas nunca imaginei que fosse participar de um projetodess a dimensão. É o emprego dos sonhos.”

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Há cinco restaurantes na ilha. O top de linha é o Plantation House, sede de uma antiga fazenda de coco decorada com imagens de tatuagens do Pacífico Sul clicadas pelo fotógrafo de moda italiano Gian Paolo Barbieri. As mesas redondas são forradas com toalhas que vão até o chão e decoradas com orquídeas. O café da manhã é uma orgia com croissants, pães, manteiga, iogurte e frutas produzidos na ilha e uma profusão de pratinhos que inclui steak tartare coberto com um ovo frito de codorna, fatias de atum defumado e queijos, regados a champanhe.

lagosta grelhada laucala island resort
Lagosta grelhada, num dos cinco restaurantes da ilha: produção própria e local de carne e vegetais (Foto: Adriana Setti)

Mas é nas refeições principais que Healy desfila sua maestria, em receitas como o risoto de baunilha ou o parfait de fígado de frango free range (criado solto, o bom e velho frango caipira). Pequenas flores, ervas e cores equilibradas compõem belas apresentações. A carta de vinhos incluídos na diária tem foco em finíssimos australianos e neozelandeses, além de contar com o champanhe Cattier -- cada vila tem sua adega climatizada abastecida diariamente. No restaurante Seagrass, espetacularmente debruçado sobre o mar, são servidas receitas asiáticas como teppanyaki. No Beach Bar, a pedida é sashimi, lagosta grelhada e sorvetes artesanais de sobremesa.

Pergunta inevitável, dada a proporção entre recursos e hóspedes: o hotel dá lucro? “Ah, isso eu deixo para você adivinhar”, diz Vincent Pauchon, que emendou a frase numa gargalhada. “Nós trabalhamos sem limite de orçamento e sem metas financeiras para cumprir, só visamos à felicidade dos hóspedes”, afirma. O carpe diem é algo exercitado em Laucala desde os anos 70, quando a ilha foi comprada pelo milionário bon-vivant Malcolm Forbes (1919-1990), editor da revista que leva o seu sobrenome (em 2003, Mateschitz arrematou apropriedade de seus herdeiros). Suas cinzas estão sepultadas na ilha sob a inscrição: “When alive, he lived” (Quando vivo, ele viveu). Não há dúvida deque seu espírito segue firme e forte.

Laucala Island Resort: tel. (11) 3331-6515 (reservas no Brasil), laucala.com; diárias desde 4 600 dólares, para duas pessoas, all inclusive, ou 150 000 dólares para alugar a ilha completa (mínimo de cinco dias).

Fonte: VEJA SÃO PAULO