Cidade

Família Baumgart enfrenta crise com interdição do Center Norte

Alto índice de contaminação do solo culminou com o fechamento do shopping na semana passada

Por: Claudia Jordão - Atualizado em

Center Norte
O Center Norte no início da década de 80: obras de emergência para a reabertura (Foto: Arquivo Pessoal)

São Paulo, Zona Norte, início dos anos 60. As lagoas de extração de areia que decoravam a paisagem da região da Vila Guilherme estavam longe do circuito dos lugares mais românticos da cidade na época. O desfile de caminhões e tratores que cuidavam de aterrar o terreno também não devia ajudar muito no clima.

+ Os principais episódios da crise do Shopping Center Norte

+ Prefeitura libera funcionamento do Center Norte

Indiferente a tudo isso, um casal comparecia com frequência ao local para conferir de perto a transformação da área onde seria erguido, duas décadas depois, um dos maiores shoppings do país. “Namorei e noivei por ali”, conta Glorinha Baumgart, que incorporou o sobrenome alemão do marido ao se casar, em 1965. Visionário, o engenheiro Curt Walter Otto Baumgart amava a Zona Norte e tinha o sonho de colocar o local no mapa da metrópole. Para isso, convenceu o pai, Otto Baumgart, fundador da Vedacit, uma fábrica de impermeabilizantes para construção civil, a adquirir uma grande área por lá.

+ Prefeitura determina a interdição do Center Norte

+ Construído sobre um lixão, Shopping Center Norte vira área de risco

Além da parte alagada, a região tinha um depósito de lixo alimentado por moradores ribeirinhos. O projeto finalmente tomou forma em 1984, com a abertura do Center Norte (tempos depois, surgiriam nos arredores o Lar Center e os pavilhões do Expo Center Norte, do mesmo grupo empresarial).

O prédio térreo e os corredores largos do shopping imitavam o comércio de rua, e um terço do espaço foi reservado aos lojistas de Santana e arredores, outra ideia de Otto para valorizar os “conterrâneos”. O fundador morreu aos 73 anos, por complicações cardíacas, em setembro de 2010. Num mercado ocupado atualmente por administradoras profissionais, o clã continua à frente do empreendimento, incluindo Glorinha, que, além de ser uma das acionistas, cuida do setor de marketing. “A história da nossa família se confunde com a do Center Norte”, afirma ela. “Meus filhos praticamente nasceram lá.”

+ Negócios variados: os números da holding Baumgart Participações

Em grande parte por causa dessa ligação afetiva com o negócio, a novela que culminou com a interdição do shopping na semana passada vem afetando muito os Baumgart. A crise começou em setembro, quando a Cetesb passou a multar o local diariamente e o incluiu na lista de áreas contaminadas devido a uma concentração acima do normal de gás metano, o que acarretaria risco de explosões, segundo os técnicos da agência.

Preocupada com a possibilidade de um acidente, a prefeitura entrou no circuito, pedindo a interdição da área. No primeiro round da batalha jurídica, os responsáveis pelo centro de compras conseguiram evitar a paralisação. Na última terça (4), porém, o juiz responsável pelo caso ordenou que as portas fossem fechadas (o Lar Center e um Carrefour localizado no mesmo terreno também acabaram lacrados). “Não é uma situação fácil, tudo o que aconteceu nos desagrada muito, mas resolver a questão é nossa prioridade número 1”, afirma Gabriela Baumgart, de 37 anos, uma das diretoras do Center Norte e a caçula dos três filhos do casal Otto e Glorinha.

Glorinha Baumgart
Glorinha, a mulher do fundador: “Foi duro aceitarmos o fechamento, porque sempre trabalhamos com muita seriedade” (Foto: Reinaldo Menegim)

Antes da lacração, a crise detonada pelos laudos da Cetesb já havia provocado estragos severos no negócio, por onde chegavam a circular até 120.000 pessoas nos fins de semana. A administração diz que a queda do movimento foi de 25%, mas há lojistas que estimam uma redução quase três vezes maior. Alguns comerciantes diminuíram a carga horária de funcionários e os estoques de mercadorias.

Apesar de a maioria dos lojistas apoiar a gestão (alguns têm circulado com a camiseta “C.N. acreditamos em você”), há quem já pense em pedir indenização em função desses problemas. “A dona da rede quer ser ressarcida dos prejuízos”, diz a gerente de uma loja de calçados femininos que afirma ter vendido 50% menos nos dias que antecederam a interdição.

Em resposta à exigência da Cetesb, o estabelecimento concluiu na mesma quarta a instalação de onze drenos para o escoamento do metano, num investimento de 3,7 milhões de reais. Na quinta (6), após vistoria do prefeito Gilberto Kassab com técnicos da Cetesb, os administradores do centro de compras se preparavam para reabrir o shopping na sexta.

Desde a época da construção, o fundador sabia da presença de gás metano no solo do terreno (ao longo dos anos, a área foi ampliada com a compra de lotes vizinhos, até atingir o tamanho atual, de 600.000 metros quadrados). “Por medida de segurança, Curt mandou instalar respiradouros no estacionamento durante a obra”, lembra Glorinha Baumgart. Alguns dos lojistas mais antigos também conheciam a questão, mas nunca haviam imaginado que ela poderia se transformar num problema grave. “Os donos do Center Norte sempre nos tranquilizaram sobre isso, e a vida seguiu”, diz o empresário Renê Heiman Himmelhochs, proprietário há 27 anos do quiosque Happy Balloon.

A Cetesb começou a investigar a história ainda nos anos 90. O alerta foi a explosão do Osasco Plaza Shopping, em 1996, quando uma falha no sistema de gás levou para os ares parte da praça de alimentação e causou a morte de 42 pessoas, além de deixar centenas de feridos. A administração do Center Norte diz que realizou nos últimos anos uma série de testes para entender a extensão do problema e estudar possíveis alternativas técnicas. “Esse trabalho sempre era feito sob a supervisão do Curt”, diz Glorinha. A morte dele, no ano passado, coincidiu com o aumento da pressão da Cetesb para que os administradores tomassem medidas urgentes para acabar com a ameaça do metano.

O Center Norte é uma das joias da holding Baumgart Participações, que tem faturamento anual estimado em 600 milhões de reais. Além dos centros de compras, o grupo possui empreendimentos espalhados por áreas diversas, da agropecuária à hotelaria. Somente os shoppings empregam atualmente 7.500 pessoas.

Na década de 70, após o falecimento do patriarca, Otto Baumgart, as ações da família foram divididas em partes iguais por Curt e seus irmãos, Rolf Gustavo Roberto e Ursula Erika Marianna. Todos eles nomearam parentes para representá-los nas empresas, e nunca se teve notícia de desentendimentos graves entre os familiares.

Discretos e avessos a qualquer tipo de badalação, os Baumgart são conhecidos também pela retidão com que sempre tocaram seus negócios. Membros do clã aparecem com frequência nas listas dos dez maiores pagadores de imposto de renda do Brasil. A única exceção ao perfil discreto da turma é a esfuziante socialite Yara Baumgart (novamente Rossi), que foi casada por décadas com Rolf Gustavo Roberto e teve com ele quatro filhos.

Center Norte Gás 2236
Vistoria da Cetesb na terça (20): técnicos cobram ações imediatas para que o quadro não se torne grave (Foto: Moacyr Lopes Junior)

O espírito empreendedor e os modos simples do engenheiro Curt são características admiradas e, na medida do possível, imitadas pela maior parte dos integrantes da terceira geração da família. “Ele era muito popular e carismático”, afirma o lojista Renê Heiman. O engenheiro circulava pelo shopping de camisa de mangas curtas e despachava numa acanhada mesa de ferro. “Certa vez, durante as obras, ele dividiu a marmita fria de um pedreiro e ainda elogiou o que comeu”, lembra o comerciante.

O conjunto de salas no Center Norte de onde a família atualmente toma conta do negócio mantém o mesmo estilo espartano. Na mesa de Glorinha há uma foto do marido no porta-retratos. “Quando olho para a imagem, rezo e peço a ele que me oriente nestes momentos difíceis”, afirma ela.

Apesar da crise, o clã acredita que terá capacidade para retomar os negócios e limpar a imagem arranhada do Center Norte. Seus integrantes esperam que, sanados os problemas, a cidade volte a sentir confiança no shopping. De preferência, a mesma que eles tiveram no local do empreendimento há cinquenta anos.

Fonte: VEJA SÃO PAULO