Crônica

Encontros com o futuro

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica 2290
(Foto: Veja São Paulo)

Volto ao assunto. Dizia eu na última crônica que comete arredondados enganos quem se mete a fazer previsões sobre o que está lá na frente. É um pouco diferente do que vou dizer agora: nem sempre a gente percebe que está às voltas com o futuro, ou com uma coisa que tem um pé ou um braço esticado nessa direção.

Às vezes a gente encontra coisas novas e as vê apenas como mais um brinquedo bacaninha, não como o futuro chegando.

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Falei de um meu avô, de um momento em que ele percebeu consequências futuras. Reconto, caso alguém não tenha lido. Ele tinha uma varanda rodeada de gaiolas de passarinhos. Contam que, quando ouviu pela primeira vez música em uma vitrola, cutucou a pessoa ao lado e comentou: “Isso vai acabar com a criação de passarinhos”. Demorou, mas hoje é raro ter show de passarinhos em casa.

Ao contrário desse meu
 avô, encontrei-me algumas
 vezes com o futuro e não saquei logo que dali a uns anos aquilo faria parte da vida de todos. Ou fiquei esperando acontecer, e não aconteceu.

Quando, aqui no Brasil, ainda vivíamos a era bancária do cheque para tirar dinheiro no banco e tínhamos a maior inflação e a maior dívida externa do planeta, no início dos anos 80, visitei um amigo em Toronto, no Canadá. Numa daquelas enormes e labirínticas galerias subterrâneas, verdadeiras cidades invisíveis — tomo aqui emprestada a imagem do escritor Ítalo Calvino —, meu amigo me levou até uma esquina, sacou um cartão de plástico do bolso, enfiou-o em uma fenda de um dispositivo incrustado na parede, teclou alguns números numa parte do dispositivo, e outra fenda daquela parede inoxidável entregou-lhe várias notas de dólares canadenses. Ele explicou que sem aquelas máquinas naquela cidade subterrânea não poderiam se virar no gelado inverno canadense. Achei ótimo, maravilhoso, mas coisa deles, sem pensar que aquela seria uma das mágicas mais comuns do meu futuro.

(Mágica seria a palavra adequada para o que meu neto de 7 anos achava que acontecia quando o pai dele precisava de dinhei-ro. Eu lhe disse que não tinha dinheiro para certa compra e o comentário dele estabeleceu uma diferença entre mim e o pai dele: “Vô, meu pai tem um cartão que ele enfia numa máquina e ela dá dinheiro para ele”.)

Ainda em Toronto, um repórter de uma cidade próxima me entrevistou, no fim da tarde. Perguntei quando sairia a entrevista. Amanhã, ele disse. Quis saber se ele ainda iria para a redação, escrever. Não, ele não ia à redação; eles não tinham uma redação. A pauta, a reportagem, a preparação do texto, os títulos, a entrega para imprimir, tudo era feito em casa, na casa dos responsáveis pelas várias fases. Eu, editor de um dos jornais mais modernos de São Paulo, achei de novo que aquilo era bacaninha, mas uma coisa lá deles, não ia acontecer aqui. Ainda não aconteceu.

A Telesp me ofereceu seu primeiro “telefone portátil”, pesado, enorme, instável, impossível de levar no bolso, tinha até um coldre para pendurar na cintura. Achei incômodo, acabei dando-o às minhas filhas. Digamos que desmarquei aquele encontro com o futuro. Mesmo os minúsculos celulares de hoje, levezinhos e multimídia, não andam no meu bolso, por desnecessários. Quem sabe um dia.

Sempre achei os mapas das cidades complicados, a posição deles nunca coincide com o ponto de vista de quem procura um lugar. São muito teimosos quanto a norte e sul, e quando estamos em um lugar que não conhecemos nunca sabemos onde é o norte ou o oeste. Pegamos um mapa e temos de ficar girando-o, procurando nos colocar nele, na direção que queremos seguir. Na verdade, o que eu estava querendo que houvesse era um GPS. Pois inventaram. Eu estava, sem saber, conversando com o futuro.

e-mail: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO