Criminalidade

Rua 24 de Maio, no centro, tem comércio escancarado de drogas

A reportagem de VEJA SÃO PAULO flagra ações de tráfico à luz do dia em frente à Galeria do Rock

Por: Adriana Farias - Atualizado em

Com 450 lojas divididas por sete andares, a Galeria do Rock, na Rua 24 de Maio, é um centro conhecido na cidade pela concentração de lojas de roupa e de disco. Tão antigo quanto a tradição do endereço nessa área é o problema da venda de drogas nas suas imediações. “Na década de 80, era mais maconha, na sombra da noite”, lembra Manoel Camassa, de 73 anos, delegado aposentado e síndico do complexo na época.

Hoje, o comércio envolve também cocaína, LSD e outras substâncias mais pesadas. Como senão bastasse, tudo ocorre à luz do dia, em frente à entrada do local, como constatou a reportagem de VEJA SÃO PAULO.

Desde o início de fevereiro, uma equipe de jornalistas da revista registrou a movimentação com câmeras escondidas. O negócio ilegal é realizado por ao menos dez pessoas. As mulheres costumam esconder os entorpecentes no sutiã, enquanto os homens se passam por vendedores ambulantes de camisetas e tênis (os pacotes ficam escondidos nos cabides ou dentro de calçados).

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Em qualquer dia da semana, é possível encontrá-los atuando na área como se estivessem em uma feira livre. “Skank, 50 conto o grama. Vai querer?”, anuncia um deles em uma das cenas captadas, referindo-se à maconha sintetizada em laboratório.

A atuação dos marginais amedronta os lojistas, que reclamam da intimidação da clientela do prédio, frequentado por 25 000 pessoas diariamente. “Eles formam uma verdadeira barreira na entrada, precisamos escoltar alguns jovens até o metrô porque eles se sentem inseguros”, diz Antonio de Souza Neto, administrador da galeria. Há na vizinhança alguns prédios residenciais. Os moradores, como o representante comercial Alberto Gattoni, também relatam temor. “Meus irmãos e sobrinhos têm pavor daqui e evitam me visitar”, afirma ele.

Tráfico Galeria do Rock
O prédio no centro: marginais intimidam lojistas (Foto: Uriel Punk/Estadão Conteúdo)

A repressão da polícia existe, mas parece insuficiente para pôr ordem na região. Imagens de 16 de fevereiro mostram um homem de camiseta cinza sendo abordado por um PM, em diálogo que dura aproximadamente sete minutos. Ele é revistado e, em seguida, liberado. Seis dias depois, as câmeras mostram a mesma pessoa de novo no lugar, repassando a clientes pequenos pacotes. O suspeito é mais uma vez revistado por um guarda e solto na sequência. No outro dia, volta ao expediente na rua, usando a mesma bermuda quadriculada da véspera, e fica um tempo de bate-papo com Puro Ódio, o apelido do traficante mais conhecido da área.

Como demonstra o vídeo de Vejinha, Puro Ódio tem comparsas no prédio comercial situado no número 57 da Rua 24 de Maio, em frente à Galeria do Rock. O condomínio é conhecido como Galeria Nervosa. É fácil entender o apelido. O local não tem alvará de funcionamento da prefeitura, e, por lá, atuam vendedores de camisetas e de outros produtos piratas. Esses lojistas indicam clientes a Puro Ódio.

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Em uma ocasião, a repórter passou-se por uma interessada em comprar entorpecentes. Um lojista da Galeria Nervosa imediatamente chamou o bandido.“ Maconha eu faço 20 conto, 5 gramas, para você. O pó eu faço 5 gramas, 100 reais, da boa!”, disse Puro Ódio. O pagamento poderia ser feito até no cartão de crédito em uma lanchonete ali por perto.

Desde o ano passado, o Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do centro tem discutido a questão em suas reuniões mensais, com a presença de autoridades. Na sessão de 14 de abril de 2015, por exemplo, havia representantes das polícias Militar e Civil. Apesar disso, o problema persiste. Segundo a prefeitura, os proprietários da Galeria Nervosa foram multados por falta de licença para o funcionamento e o endereço poderá ser interditado. “Nós também estamos atuando para coibir os ambulantes irregulares”, afirma Alcides Amazonas, subprefeito da Sé.

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A polícia diz que está atenta ao movimento. “Nós fazemos de quatro a cinco flagrantes de tráfico por mês na 24 de Maio, que é uma zona de preocupação, pois os registros são maiores que nas outras vias”, afirma o tenente-coronel Francisco Cangerana, do 7º Batalhão da PM. “Mas, quando tiramos alguns deles de circulação, logo surgem outros para ocupar o espaço”, diz Cangerana.

De acordo com as estatísticas do 3º Distrito Policial, responsável pela área, as ocorrências de venda e porte de drogas aumentaram de 46 para 267 casos entre o primeiro bimestre de 2015 e o mesmo período deste ano (uma evolução de 480%). Em dezembro, foram apreendidos 20 quilos de cocaína, avaliados em 200 000 reais, que abasteceriam a Rua 24 de Maio e as redondezas. “As investigações estão em andamento para identificarmos os chefes do crime organizado”, garante Luis Roberto Hellmeister, titular do 3º DP. Enquanto isso não acontece, a feira da droga continua na porta da Galeria do Rock.

Com reportagem de Rudah Poran, Adriano Conter e Pedro Belo

Fonte: VEJA SÃO PAULO