Teatro

Depois da peça: atores têm desconto em restaurantes

Pizzaria Speranza, Planeta’s e Cantina Luna Di Capri estão entre os campeões da permuta

Por: Dirceu Alves Jr. - Atualizado em

Entre as décadas de 50 e 70, o Gigetto, no centro, era conhecido como o escritório do meio artístico paulistano. A definição do dramaturgo Plínio Marcos se aplica com perfeição ao restaurante inaugurado em 1938 que recebia o elenco de praticamente todas as peças da cidade, numa época em que raros teatros fugiam da região central. Para a maioria, era dado desconto. Já Plínio Marcos jamais pagaria a conta. Pelas suas mesas batiam ponto Cacilda Becker, que anunciava sua chegada com uma sonora gargalhada, Raul Cortez e Juca de Oliveira, cliente assíduo até hoje. "No Gigetto nasceu a maioria dos espetáculos dos quais participei entre os anos 60 e 90", afirma Juca. Atualmente, o circuito teatral vai da Zona Sul à Zona Norte e os jantares com estrelas, regados a bate-papos estendidos madrugada afora, também se pulverizaram por outros endereços.

O galã Marcello Antony e seus colegas do espetáculo Vestido de Noiva, em cartaz no Teatro Vivo, no Brooklin, têm aparecido na Pizzaria Speranza, de Moema. "Ator não se contenta em se apresentar e ir para casa, precisa comentar o que aconteceu naquela noite", diz Luciana Carnieli, que atua ao lado de Antony, Leandra Leal e Vera Zimmermann na montagem. Inaugu-rada há meio século, a Speranza é um dos estabelecimentos que repetem uma fórmula consagrada pelo Gigetto junto aos artistas e praticada até hoje pela casa: o apoio cultural ou a permuta. Ou seja, uma espécie de boca-livre. Ao oferecerem descontos nos pratos para as equipes, os restaurantes garantem frequência e também a curiosidade do público. Ex-garçom do Gigetto, José Alves de Godoy, o Mosquito, fundou há quarenta anos a Cantina D’Amico Piolin. Cansado de precisar implorar para que seus clientes artistas, a maioria funcionários da TV Tupi, pagassem as contas, ele reduziu os preços para essa turma. Logo viu sua receita crescer. Localizada na Rua Augusta, a casa mantém a prática de oferecer 50% de bonificação a artistas e estudantes da Escola de Arte Dramática da USP.

Dois dos campeões de permutas na região da Bela Vista, o restaurante Planeta’s e a Cantina Luna Di Capri apoiam 150 espetáculos por ano, cobrando de elenco e demais integrantes da equipe metade do preço dos pratos. Grupos reconhecidos, como o Tapa, Folias, Parlapatões e Os Fofos Encenam, têm a vantagem mesmo quando não estão em cartaz. "O Luna Di Capri é o que mais se aproxima do que foi o Gigetto no seu auge", compara o dramaturgo Rubens Rewald. Restaurantes como Quattrino, Ecco, Mestiço e Fillipa caíram na graça dos famosos não apenas pelas cortesias. No Quattrino, no Jardim Paulistano, é possível encontrar Marília Gabriela, Zezé Polessa, Clarice Niskier e José Wilker. A proprietária, Mary Nigri, frisa que nem todos usufruem a cortesia de 29 reais por prato oferecida às montagens que colocam o logo da casa no programa. "O Wilker, por exemplo, abriu mão do desconto e paga a conta integral", conta a empresária.

Perto dali, na Consolação, o Mestiço é point há doze anos. Na noite do último dia 30, o ator Leopoldo Pacheco saiu do Teatro Jardim São Paulo, na Zona Norte, onde apresenta a comédia Amigas, pero No Mucho. Logo encontrou Marcelo Médici, um dos protagonistas de O Mistério de Irma Vap, exibida no Teatro Shopping Frei Caneca. Betty Faria e Marieta Severo também costumam circular por lá. O Mestiço e o Fillipa, no Jardim Paulistano, abatem de 20 a 30 reais da fatura das cerca de dez peças que cada um apoia. "Em momento nenhum isso significa um prejuízo. É uma troca que divulga a casa e aumenta o leque de clientes", diz Ina de Abreu, sócia e chef dos dois restaurantes. E a tietagem? "Como sempre temos famosos aqui, o público já se acostumou e a abordagem é tranquila."

Fonte: VEJA SÃO PAULO