Crônica

Cursinho para motorista

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Fui renovar minha carteira de motorista. Surpresa! Devido a uma lei mais ou menos recente, eu deveria fazer um cursinho sobre trânsito durante quinze horas. Podia optar por um exame direto, mas o que lembrava do assunto? Horrorizei-me. Principalmente porque o intensivo começava às 8 da manhã, sábado e domingo. Lamentei-me com um amigo:

– Que injustiça! Tenho carta há séculos!

– Olha, eu soube de um amigo de um primo do vizinho de uma tia de um despachante que quebra o galho. Você renova sem fazer o curso.

Não gosto de certo tipo de coisa. Como reclamar contra a máquina do governo se na primeira oportunidade...

– Vou fazer o curso – respondi, bocejando por antecipação.

Inscrevi-me. Ficava no Jabaquara. Ao chegar, cadastraram meu dedo indicador.

– Para quê?

– Na entrada e na saída das aulas, você confirma a digital. Para evitar fraudes.

Oh, céus! Teria de assistir às aulas! O curso começou. Minhas pestanas batiam mais que leque de chinesa, para ficar acordado. O professor explicou sua história. De origem indígena, saíra da tribo para estudar sociologia. Mais tarde, sua irmã e seu sobrinho morreram atropelados por um motorista imprudente. Dedicou-se então ao estudo do trânsito. Suspirei, pensando: "Nunca imaginei que alguém tivesse tal vocação!".

A certa altura, ele perguntou:

– Alguém aqui nunca teve multas?

Duas senhoras ergueram as mãos. Dirigiam havia 25 anos. Eram do tipo que navega calmamente no asfalto, enquanto rôo as unhas atrás. Lembrei-me de dois amigos que se consideram melhores motoristas que eu. Ambos com a carta suspensa, por excesso de multas. Justamente, o professor falava da confraria dos que não acreditam em placas.

– As pessoas acham que podem negociar com o limite de velocidade – ele explicou. – Mas placa é placa.

Dias antes, um dos sem-carta andava furioso. Esbravejava:

– Levei a multa a 40! O limite era 30, mas alguém anda a 30?

Por que tantos de nós não costumam acreditar nas leis? Não conheço ninguém capaz de bater uma carteira. A maioria acha normal passar pelo vermelho ou entrar na contramão. Outro amigo costuma dirigir após uma dúzia de cervejas, com o argumento:

– Ooo aaalllcoooooooooooolll nãããooo meee afeeeta!

– Nesse caso, você deve ser estudado num laboratório! – respondo. – Pois está sendo contra tudo o que a ciência já descobriu sobre bebida e coordenação motora.

Muita gente, como eu, cresce com a impressão de que o trânsito é uma guerra, na qual quem anda devagar é perdedor. Correr, ultrapassar, dirigir com ferocidade é sinônimo de macheza. Para muitas mulheres, de auto-afirmação feminina.

Apesar do sono, dos resmungos e dos bocejos, gostei de ter feito o curso. Achava ser mais um espasmo burocrático para arrecadar dinheiro. Fiquei a favor. No mínimo, tomei consciência de que leis são leis. Não foram feitas para eu fingir que não existem.

Renovei a carta.

O único problema é que meus amigos criaram horror de carona comigo. Se a placa diz 30, ando a 30. Se não pode virar, não viro. E assim por diante. Aos seus olhos, é incompreensível. Quando um deles reclamou demais do meu estilo, reagi:

– Quero lembrar que eu tenho carta e você está suspenso.

– Isso não significa que você seja bom motorista! – retrucou.

– Não, de fato. Só significa que eu posso dirigir e você não.

Engatei a primeira e aumentei a velocidade para 40, como autorizava a placa, enquanto ele rugia ao meu lado.

Fonte: VEJA SÃO PAULO