Crônica

Carta

Por: Ivan Angelo

cronica
(Foto: Veja São Paulo)

Ao dono de um cachorrinho que chora no bairro de Perdizes. Prezado senhor ou senhora, residente a uma quadra da PUC, que provavelmente não sabe que seu cachorrinho está com problemas.

De uns dias para cá, durante a manhã e a tarde, temos ouvido o choro dele. Um choro fraco, que começa como um lamento, na forma de ganidos alongados, depois se torna uma pelo, misturado com um ou outro latido isolado, depois evolui para um tom de reivindicação, com mais latidos do que gemidos, depois o tom se mostra indignado, com latidos um pouco mais fortes, como se reclamasse “será que ninguém me ouve?”, e em seguida com raiva, só latidos, como se perdessea paciência e passasse a xingar, e então não lamenta mais, só xinga. Ao fim de algum tempo, ele para, como cansado; creio que descansa, talvez beba água, e recomeça. É uma pequena voz, sem volume, não terá muito alcance. Como a que tem um bebê humano deixado sozinho.

Devo dizer, senhor, senhora, que isso só acontece durante o dia, pois no fim da tarde o cãozinho se cala. Às vezes se cala na hora do almoço e recomeça um tempo depois. À noitinha silencia de verdade e só recomeça no meio da manhã seguinte.

Permito-me imaginar que o senhor ou a senhora saia para trabalhar, passe em casa na hora do almoço, volte para o trabalho, retorne no fim da tarde e a partir daí o cãozinho se aquiete, tenha companhia. Suponho que então brinque, faça festas, cumpra seu fado canino. Nesses casos, o dono, ou dona, nem fica sabendo que o bebê chorou, bradou aos céus sua indignação. O abandonado esquece, perdoa, como é próprio dos cães.

De onde vem o choro, senhor, senhora? Onde mora o bebê-cão? Minha vizinha do 19º veio à nossa porta perguntar se ouvíamos o choro, se sabíamos de onde vinha o sofrido chamado. Suspeitava que viesse do nosso próprio prédio. Descemos de andar em andar, afinando ouvidos. Os sons que entram pelas janelas não são os mesmos que transitam pelas escadas. Podia ser que o choro viesse de qualquer casa ou prédio ao lado, à frente, atrás. Nas colinas, como as de Perdizes, o som é mais límpido, mais longe busca ouvintes.  Enfim: interrompemos a busca por falta de resultados. A vizinha se convenceu de que o problema não mora no prédio e se consola:“Ainda bem que de noite ele para. Já pensou?”.

Acredito, senhor ou senhora, que esse seja o seu primeiro cachorrinho filhote; atribuo à inexperiência esse abandono  durante o dia, à ignorância de que a espécie não suporta a solidão. Ele pode estar cumprindo quarentena antes de ser vacinado, prisão domiciliar, mas, perdão, nunca aceitará ficar sozinho.

Desculpe me intrometer na sua vida, senhora, senhor, mas... a sua rotina com o cão vai ser essa? Ou é uma fase, falta de empregada, filhos ausentes?... Pergunto porque, se o senhor ou a senhora não precisa de companhia durante o dia,ele precisa de alguma. O cão de companhia é assim: um carente que supre a carência do dono. É como um casamento: quando um não comparece, está na hora de discutir a relação. É o que ele está fazendo.

Atenciosamente...

Fonte: VEJA SÃO PAULO