Bebida

Chope vive seu momento de auge na cidade

Graças a casas novas, multiplicação dos cardápios e produção mais sofisticada, o primo da cerveja está mais em alta do que nunca

Por: Fábio Galib

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Julia e Comolatti, do Ambar: aposta em garrafas retornáveis (Foto: Ricardo D'Angelo)

Não faz muito tempo que escolher um chopinho em qualquer canto era simples: bastava decidir entre o claro e o escuro. Para a felicidade dos boêmios em busca de diversidade — e para o desespero dos indecisos —, os barris dos bares paulistanos têm ido bem além desse binômio. Sem exagero, dá para beber a noite toda e não repetir nenhum copo. E sem ter dor de cabeça depois. A investida do mercado foi principalmente em rótulos especiais, em cuja produção não entram os temidos cereais não maltados, geralmente usados para reduzir o custo, comprometendo a qualidade e o desejado traço de amargor da bebida.

O fenômeno da multiplicação das torneiras vem sendo fermentado há cerca de uma década, mas só começou a tomar corpo nos últimos dois anos. Bairro cervejeiro por excelência, Pinheiros foi o que mais ganhou logradouros dedicados ao primo da preferência nacional nesse período. São exemplos os da grife BrewDog Bar, de origem escocesa, e da Delirium Café, belga. Também fica na região, desde 2008, o Empório Alto dos Pinheiros (EAP), tido como um dos pioneiros dessa onda lupulada por aqui. Somente esses três endereços disponibilizam, juntos, 79 bicos de chope em um raio de menos de 1 quilômetro. Haja sede.

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A mais recente iniciativa na área foi feita no mesmo bairro da Zona Oeste pela dupla Fabio Comolatti e Julia Fraga. Há menos de um mês, eles abriram as portas do Ambar, na Rua Cunha Gago, um simpático lugar onde se perfilam quinze bicos atrás do balcão. O líquido sai dos barris acomodados em uma câmara fria e vai direto para o copo, sem passar por resfriadores. O padrão de abrir mão das temperaturas muito baixas vem se tornando comum nas casas do gênero.

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Opções da Choperia São Paulo: carta com vinte possibilidades de escolha (Foto: Ricardo D'Angelo)

Pertinho dali, há ainda outros dois bares que aportaram recentemente: a Choperia São Paulo, inaugurada em dezembro, com vinte torneiras, e a São Paulo Tap House, que, desde novembro, exibe impressionantes quarenta opções — até o momento, a maior coleção da cidade. Mesmo quem já tinha a bebida como ponto alto, de uns tempos para cá reforçou a seleção. É o caso do Aé Sagarana, na Vila Madalena. No segundo semestre do ano passado, a oferta da casa passou de seis para 22 possibilidades etílicas na pressão.

No meio de tanta variedade, o paulistano vai se habituando, por exemplo, a termos como quadrupel e lambic, que definem estilos de alto teor alcoólico ou de fermentação espontânea, respectivamente. Também é possível identificar algumas tendências. Uma delas é o investimento em rótulos nacionais, de pequenos produtores. “Hoje, o Brasil tem chope com muita qualidade, não fica devendo nada aos importados”, afirma Julia, do Ambar. Assim como os concorrentes São Paulo Tap House e Choperia São Paulo, o endereço privilegia a fabricação local. “O produto próximo ao produtor é o mais fresco.”

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Novidade fresquinha é a proliferação dos growlers, nome dado àqueles garrafões reutilizáveis que os cervejeiros mais aguerridos usam para abastecer-se. Populares em todo o século XIX e no início do XX mundo afora como forma de transportar a bebida do ponto de venda para casa, eles caíram em desuso. De uns tempos para cá, voltaram à moda em microcervejarias e logo ganharam aquele irresistível ar hipster- sustentável. A melhor parte? Há descontos por utilizá-los. Na Cervejaria Nacional (que fica em Pinheiros, claro!), pagam-se caros 100 reais pelo recipiente de cerâmica com capacidade para 2,15 litros e 50 reais para preenchê-lo com qualquer um dos cinco tipos de chope produzidos pela casa, entre eles o pilsen, o stout e o de trigo. No bar, esse mesmo volume superaria os 80 reais, a depender do estilo escolhido.

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A São Paulo Tap House e algumas de suas variações: novidade na Vila Madalena (Foto: Ligia Skowronski)

O Ambar também tem o seu growler, bem mais em conta. De vidro, a estilosa garrafa de 1 litro custa somente 8 reais, somado ao valor da bebida — nesse caso, quem elege a amarguinha Satélite Hop Power American Amber Ale, por exemplo, desembolsa 47 reais. Julia relata que, nas duas primeiras semanas de funcionamento do lugar, foram vendidos 55 garrafões. Entre os adeptos da onda de comprar no bar e beber em casa está Felippe Rodrigues, de 28 anos, assessor da Confederação Brasileira de Desportos na Neve. Cervejeiro caseiro e fã declarado do estilo india pale ale (ou IPA, para os iniciados), há dois anos ele ganhou de presente um growler de 2,5 litros do Empório Alto dos Pinheiros, onde costuma reabastecê-lo. “Uma das vantagens desse sistema é que sai mais em conta”, diz ele. No EAP, a economia é de 20%. Há só uma ponderação, de acordo com o rapaz. “É preciso consumir o chope no mesmo dia. Caso contrário, ele pode perder o frescor.”

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Marcelo Vodovoz, ex-funcionário do Empório Alto dos Pinheiros e um dos sócios da São Paulo Tap House, é otimista sobre a duração. Ele vende seus growlers com capacidade para 2 litros por 98 reais, fora o preço do refil, e afirma: “Desde que a garrafa esteja devidamente refrigerada e vedada corretamente, o chope preserva suas características por até três dias”. Como manda a cartilha do bom bebedor, de uma forma ou de outra, o ideal é sorver sem pressa.

Fonte: VEJA SÃO PAULO