Crime

Casal de Alphaville é morto a facadas

Tereza Cobra e Wilson Tafner morreram na madrugada do dia 2 de outubro. Genro e filha deles são suspeitos de cometer o assassinato

Por: Mariana Barros - Atualizado em

Tereza Cobra e Wilson Tafner com a filha Roberta - 2189 - crime
Tereza Cobra e Wilson Tafner com a filha Roberta, em janeiro, quando comemoravam os 64 anos dele (Foto: Arquivo pessoal)

Habituado com ocorrências violentas, Marcos Velloza, chefe de investigação da delegacia de homicídios da seccional de Carapicuíba, na Grande São Paulo, ficou impressionado com o brutal assassinato da advogada Tereza Cobra, de 60 anos, e do empresário do ramo de etiquetas Wilson Tafner, de 64. “É o crime mais bárbaro que já investiguei”, diz ele, há vinte anos na profissão. Separados desde 2001, após cerca de vinte anos de união, Tereza e Wilson conviviam bem. Ela morava em um flat e ele em uma casa, ambos em Alphaville, em Barueri. Nos fins de semana, iam para a vizinha Santana de Parnaíba, onde tinham residência de veraneio. Era o segundo endereço que adquiriram no mesmo condomínio. Do primeiro, “uma baita casona com piscina”, na descrição de familiares, abriram mão há um ano para que a filha, Roberta, de 29 anos e recém-casada, se instalasse com o marido, Willians de Sousa, de 31. Tereza e Wilson compraram então um imóvel menor, com três quartos e lareira, a apenas 200 metros da residência da única filha. Na madrugada de 2 de outubro, um dia antes do primeiro turno da eleição presidencial, período em que são proibidas prisões que não sejam em flagrante, o piso de ladrilhos foi encharcado de um vermelho intenso. Na cena do crime, dois corpos e muito sangue. 

Mapa crime - 2189
O condomínio em Santana de Parnaíba: a casa com o tracejado amarelo, local em que foram mortos, e a marcada em vermelho, onde Roberta morava com o marido (Foto: Imagem cedida pela polícia)

De acordo com a polícia, entre meia-noite e meia e 1 da manhã, alguém munido de uma faca desferiu dezesseis estocadas nela e dez nele, todas na cabeça e no rosto. A força dos repuxos foi tanta que respingos atingiram o teto, a 3 metros de altura. Naquela noite, Tereza e Wilson haviam jantado com amigos do condomínio. Retornaram à meia-noite e, instantes depois, enfrentavam o assassino dentro de casa. De acordo com a perícia, o criminoso encontra Wilson deitado de lado. Com o joelho, aplica-lhe um golpe na altura do pescoço, fraturando sua coluna. Em seguida, parte para as facadas. O barulho teria feito com que Tereza, que estava em outro quarto, fosse ao cômodo do ex-marido. Surpreendida no corredor, ela luta com seu algoz — as mãos, cheias de cortes, revelam tentativas dela de se desvencilhar dos golpes. No olho esquerdo, tinha a marca roxa de um soco. Enquanto o criminoso dá uma das dezesseis estocadas, o cabo da arma se solta. Ele vai até a cozinha direto para a gaveta onde ficam as facas. Pega outra, conclui a investida e vai embora.

No sábado pela manhã, por volta das 11 horas, um jardineiro chega com plantas encomendadas pela advogada. Nem ela nem o marido respondem. O caseiro, que morava em uma edícula e não tinha a chave da residência, também chama por eles sem sucesso. Imagina que os patrões tenham saído, mas estranha o carro deles na garagem. Resolve então ir até a casa de Roberta e Willians para avisá-los de que os parentes não respondem a seus chamados. Meia hora depois, em imagens captadas por câmeras de segurança do condomínio, a filha e o genro entram no carro e vão para um churrasco. No trajeto, passam em frente à residência dos pais dela e seguem adiante. O caseiro volta, percebe uma janela aberta e liga para a polícia. É orientado a entrar e a não mexer em nada. Tereza estava caída na sala coberta de sangue. Atônito, ele telefona para Willians e diz que eles precisam voltar. Em seu depoimento, o caseiro afirma ter se surpreendido quando Roberta chega à cena do crime dizendo: “Mataram meus pais!”, já que ele não teria contado o que havia acontecido.

Num primeiro momento, os plantonistas da delegacia de Santana de Parnaíba consideram tratar-se de latrocínio, roubo seguido de morte. Dinheiro e joias, no entanto, estavam ali. Vistoriam a casa e partem sem interditar o local do crime. Cerca de cinco horas depois, chega a equipe de homicídios. Os empregados, a mando de Willians, conforme relataram para a polícia, já haviam limpado tudo e se preparavam para queimar o colchão de Wilson e outros objetos sujos de sangue. “Despertaram suspeitas as perfurações na cabeça e no rosto, já que o mais comum e mais fácil é o criminoso matar atingindo órgãos vitais”, diz Velloza. “Foi alguém que queria atentar contra a imagem deles, que sentia ódio.” Ao examinar a janela achada aberta, o investigador notou que não havia marcas na parede de alguém que a tivesse pulado. Havia, sim, duas pegadas no colchão rente a ela. Velloza desconfiou que a entrada pela janela fora forjada pelo assassino.

Vizinhos contam que na noite do crime viram a luz da cozinha se acender por volta das 21 horas, quando Tereza e Wilson estavam na casa dos amigos onde jantaram. Para a polícia, o criminoso entrou pela porta da cozinha, que ficava sempre destrancada, embora somente pessoas próximas soubessem disso, e ficou esperando o casal retornar. A entrada dessa pessoa também não assustou os três cachorros, que não latiram. “O autor é homem e destro”, diz Velloza. A pegada no colchão revelou a sua estatura. Inicialmente, dez pessoas foram consideradas suspeitas. Agora, a polícia foca a investigação na filha e no genro. Eles já foram ouvidos cinco vezes.

Willians não trabalha nem estuda. Os investigadores apuraram que ele recebe cerca de 8 000 reais por mês, possivelmente da ex-mulher, Tatiana Lemos Andraues, com quem ficou por uma década, teve dois filhos e se separou há três anos. Ela nega. “Nos relacionamos apenas como pai e mãe das crianças, não sei da vida dele”, disse. Em 2008, ela registrou um boletim de ocorrência contra ele por agressão. Willians e Roberta se conheceram há um ano e meio, em uma viagem de navio. Casaram seis meses depois com comunhão de bens, contra a vontade de Tereza. A relação com os sogros azedou e, logo, a dela com os pais também. “Percebemos pelos depoimentos que ele é um sujeito extremamente manipulador”, afirma o delegado Zacarias Katzer Tadros. Advogada como a mãe, Roberta trabalhava no escritório de Tereza e tinha um salário de 1 700 reais. Há dois meses fora demitida após um desfalque nas contas. Depois disso, viajou por dez dias com o marido para Las Vegas. Segundo testemunhas contaram à polícia, Roberta e Willians pressionavam os pais dela para que passassem a casa onde moravam para o nome dos dois e cedessem 30% da empresa paterna. Wilson Tafner tinha alguns seguros de vida, totalizando 1 milhão de reais. Filha única do casal, Roberta tem apenas um irmão por parte de mãe, Maurício, com quem não se dá. A jovem é descrita como carente e mimada. Fumava e bebia muito e, segundo a polícia, seria usuária de drogas.

Na manhã em que foram achados os corpos, Willians saiu de casa às 7 e meia e voltou uma hora depois, segundo ele, para comprar remédio. Normalmente, segundo empregados, não levantava da cama antes das 3 da tarde. A perícia na residência do casal constatou na pia, no boxe e no sifão do banheiro indícios de sangue. Havia respingos também no mourão dos fundos, passagem que liga as duas casas por um trajeto de 65 metros. Parentes estranharam ainda a insistência de Willians em cremar o corpo dos sogros, o que não pode ser feito em caso de morte violenta. As investigações o apontam como o principal suspeito. Roberta, de acordo com a polícia, pode ter planejado e acobertado o crime. Por intermédio de um assessor de imprensa contratado para o caso, os dois suspeitos se recusaram a falar com a reportagem, assim como seus advogados. Nos próximos dias, nove laudos serão concluídos pelo Instituto de Criminalística de Osasco. A advogada Tereza era uma mulher de personalidade forte, de estilo mandão. Aguerrida no trabalho, gostava de viajar. Fazia parceria no carteado com Wilson, um homem tranquilo e reservado, que só ficava nervoso quando seu time, o Corinthians, entrava em campo.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO