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Líder do DEM, vereador Carlos Apolinario propõe leis polêmicas

De ferrenho aliado do prefeito Gilberto Kassab, nos últimos tempos ele vem tendo arroubos de parlamentar da oposição

Por: Sara Duarte - Atualizado em

Carlos Apolinario
Apolinario, autor da lei que abranda o Psiu: “Não sou funcionário do Kassab” (Foto: Mario Rodrigues)

Os colegas de Carlos Apolinario, líder do DEM na Câmara Municipal, andam estranhando seu comportamento. De ferrenho aliado do prefeito Gilberto Kassab, nos últimos tempos ele vem tendo arroubos de parlamentar da oposição. Há cerca de duas semanas, moveu céus e terras para ver aprovada uma lei absurda de sua autoria, que abranda as regras do Programa de Silêncio Urbano (Psiu). Vetado pelo Executivo, o projeto acabou entrando em vigor no último dia 16 — na quinta passada, a prefeitura conseguiu na Justiça uma liminar suspendendo seus efeitos. Tem mais. Na terça (23), um dia depois de a administração municipal ter confirmado a realização da Parada do Orgulho GLBT para o dia 6 de junho, na Avenida Paulista, Apolinario propôs uma lei para impedir manifestação no local. “Se a Marcha para Jesus não pode ser lá, a Parada Gay também não”, bradou o vereador, referindo- se à maior passeata anual dos evangélicos, que foi trans ferida para a Praça Campo de Bagatelle, na Zona Norte, para não atrapalhar o trânsito.

Líder da Assembleia de Deus e dono de uma rádio gospel, Apolinario é o membro mais influente da bancada evangélica na Câmara, formada por nomes como a cantora Noemi Nonato (PSB) e o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Atílio Francisco (PRB). Em 2007, quando a então colega Soninha Francine apresentou um projeto de lei contra a homofobia, ele reagiu propondo a criação do Dia do Orgulho Hétero. “Não sou homofóbico nem fundamentalista”, afirma. “Meu cabeleireiro é gay, emprego homossexuais em minhas empresas e não saio por aí tentando converter ninguém.”

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Arco-íris na Paulista: “Se a Marcha para Jesus não pode ser lá, a Parada Gay também não”, diz Apolinario (Foto: Divulgação)
Arco-íris na Paulista: “Se a Marcha para Jesus não pode ser lá, a Parada Gay também não”, diz Apolinario

Nascido no Pari, Apolinario é casado há 37 anos, tem dois filhos e três netos. É a favor do divórcio, da descriminalização da maconha e do aborto legal em caso de estupro ou de risco de vida para a mãe ou o feto. Bebe socialmente, mas prefere “um guaraná zero a uma cerveja”. Adora comer churrasco e ir ao cinema — o último filme que viu foi Lula, o Filho do Brasil. Batizado na Assembleia de Deus aos 12 anos, chegou a ser nomeado evangelista, último cargo antes de pastor, mas decidiu seguir a carreira política. Elegeu-se três vezes deputado estadual e foi relator da Lei Eleitoral na Câmara dos Deputados. Nos anos 90, quando presidia a Assembleia Legislativa, chamou atenção por cortar o uso de veículos oficiais e verbas de gabinete. Com um carimbo personalizado registrava as faltas dos colegas na lista de presença em plenário — assim, o parlamentar ausente tinha o dia descontado do salário. Chegou a ocupar o cargo de governador interino durante dez dias, por motivo de viagem do então titular, Luiz Antonio Fleury Filho.

Apolinario disputou a eleição de governador em 2002 e 2006, sem sucesso. Em 2007, trocou o PDT pelo DEM para, segundo ele, ajudar o prefeito Kassab a aprovar projetos como a Lei Cidade Limpa e a Operação Urbana Nova Luz. Durante três anos, foi um soldadinho de Kassab no plenário e trabalhou para convencer os dezessete vereadores do chamado Centrão — que não são de oposição, nem de situação — a votar sempre a favor do prefeito. Em reportagem de VEJA SÃO PAULO de 1º de outubro de 2008, que avaliava 52 vereadores candidatos à reeleição, ele recebeu uma das piores notas: 4,8. “Apolinario é um excelente articulador político e sempre consegue apoios”, diz o presidente da Câmara Municipal, Antonio Carlos Rodrigues (PR). “Cansamos de convidá-lo a vir para o Centrão, mas ele não quis.” Como recompensa, quando Kassab foi reeleito, Apolinario esperava ser escolhido o líder do governo — o vereador de maior prestígio, que tem o papel de fazer o meio de campo entre o Executivo e o Legislativo. O prefeito, entretanto, preferiu manter no cargo o tucano José Police Neto. Ressentido, a partir de então Apolinario ficou de mal com a prefeitura. “Não sou funcionário do Kassab, sou vereador”, afirma. O problema é que, com isso, a cidade pode ser obrigada a conviver com uma lei que tolera a poluição sonora tanto das casas noturnas como das igrejas evangélicas que elegeram o vereador do barulho.

O JEITO APOLINARIO DE LEGISLAR

Em trinta anos de vida política, ele já foi deputado federal, presidente da Assembleia Legislativa e está em seu terceiro mandato como vereador. Confira alguns de seus projetos:

+ Lei da Avenida Paulista (em tramitação): determina que a via receba somente três manifestações coletivas — a corrida de São Silvestre, o réveillon e a festa de aniversário da cidade. Se o projeto for aprovado, a Parada do Orgulho GLBT, prevista para 6 de junho, terá de mudar de lugar

+ Lei do Barulho (aprovada em março): diminui o valor das multas e dificulta a fiscalização do volume de ruído emitido por bares, restaurantes, casas noturnas e templos religiosos. Na quinta (26), a prefeitura conseguiu uma liminar que suspende os efeitos dessa medida

+ Lei de Reciclagem (aprovada em 2005): em seu segundo mandato como vereador, Apolinario elaborou o Programa Municipal de Reciclagem de Entulhos. “Como não é polêmico, não teve mídia”

+ Campanha contra as drogas nas escolas (aprovada em 2007): institui na rede municipal de ensino palestras sobre os malefícios dos entorpecentes. “É essencial para o futuro das nossas crianças, mas os jornais também não deram destaque”

+ Lei do Pedágio Urbano (em tramitação): o vereador quer que os motoristas paulistanos paguem uma taxa para circular pelo centro expandido. “O Kassab é contra, mas eu acho que é a única maneira de diminuir o trânsito, a médio prazo”

+ Dia do Orgulho Heterossexual (arquivado): em 2007, quando a então vereadora Soninha Francine propôs um projeto de lei contra a homofobia, ele veio com essa. “Fiz isso só para causar polêmica, pois estava na moda aprovar leis em favor das minorias”

Fonte: VEJA SÃO PAULO