CRÔNICA

Boteco japonês

Por: Matthew Shirts

VEJA SP-cronica
(Foto: Attílio)

A saída da Estação Liberdade talvez seja a melhor do metrô paulistano. Basta virar à esquerda ao passar pela catraca e subir a escadaria para chegar ao que parece ser outro país. Não está claro qual nação seria essa, mas é animada, colorida, cheia de gente e fica na Ásia. Entrar no trem em um continente e sair em outro provoca ao menos um sorriso na cara do passageiro, e é capaz, até, de reverter um astral em viés de baixa. Na semana passada consegui levar para o bairro um amigo, que é também meu assessor para assuntos da cultura pop em geral. Ele sugere ir ao Izakaya Kintaro, o bar do sumô.

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No caminho, indo a pé ali pela Avenida da Liberdade, meu parceiro dá uma aula sobre o papel das izakayas na vida japonesa. São bares minúsculos, pouco mais do que uma porta e um balcão, especializados na happy hour, no fim de tarde, depois do expediente. Atraem fregueses para beber com petiscos especiais. Não servem sushi, diz, enfático, meu companheiro, olhando para ver se entendi. Cada estabelecimento do tipo tem as próprias regras. Este se chama bar do sumô porque os proprietários praticam a modalidade de luta. Fica na Rua Tomás Gonzaga, 57, uma das vias mais simpáticas da capital no entardecer. Os restaurantes tradicionais dali reabrem para o jantar nesse momento, e os lustres japoneses são acesos diante do movimento, que junta gente do bairro com pessoas de fora e visitantes gringos. Comemos uma porção de porco com gengibre de outro mundo ali no balcão.

O estabelecimento lota. Como é pequeno e estreito, cria uma proximidade entre todos ali, dos dois lados do balcão. Ao meu lado, dois senhores experimentam pratos diversos e conversam em japonês. Descolados turistas jovens fotografam a comida. O proprietário parece estar em grande forma física, comento. Meu amigo, paciente diante da minha ignorância, explica que nem todos os lutadores de sumô são gordos.

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Mas nosso destino final é outro local do tipo ali por perto, o Izakayada (Praça Carlos Gomes, 61). Já vem com uma boa tradução no nome: boteco japonês. Fica em frente ao badalado Cine Joia, palco de shows de música, sobretudo. Vamos a pé pela Rua Galvão Bueno. Paramos pelo caminho para fotografar um grafite bacana de Godzila. Chegamos, enfim, ao bar. Conheço o proprietário pelo apelido. Adivinha. Sim. É Japa. Entendo que essa é a maneira encontrada pela cultura brasileira para se lembrar dos nomes. Acho eficiente. Não é por outro motivo que sou chamado de “doutor”, “gringo” ou, o meu favorito, “alemão”.

Izakayada mistura a culinária japonesa com a mexicana (tex-mex). É único nisso, quero crer. Comemos um chili com carne e wassabi e também pimentas jalapeños enroladas em bacon, que ninguém é de ferro. É uma comida feita para acompanhar a birita, forte e gostosa. Na TV passam filmes de Ultraman, seriado japonês que teve cinco versões, se entendi a explicação detalhada do meu parceiro. Na parede há máscaras de Darth Vader, pôsteres de bandas clássicas de rock americano, como o ZZ Top, bonecos japoneses, um tatu texano, máscaras de luta livre mexicana, Elvis. Trata-se de uma combinação de culturas pop muito paulistana. Mais um ponto para a Liberdade.

Fonte: VEJA SÃO PAULO