Carnaval

Conheça Armênio Poesia, grande compositor do Carnaval de SP

Nos desfiles de 2013, ele chega ao número recorde de 21 sambas-enredo emplacados no Grupo Especial

Por: João Batista Jr. - Atualizado em

Armênio Poesia
Poesia, no Anhembi: a caneta serve também para agremiações rivais (Foto: Rodrigo Paiva/RPCI)

Talvez o mais bem-sucedido compositor do Carnaval da cidade, ele é abstêmio (diz que parou de beber há mais de uma década), vai dormir quase sempre antes da meia-noite (como representante de vendas de uma operadora de telefonia celular, precisa iniciar o expediente às 8 horas) e apenas arranha o cavaquinho. Com 1,90 metro de altura e silhueta rechonchuda, está mais para dono de cantina do que para maioral do pandeiro. Apesar de ser o oposto dos grandes bambas da velha-guarda, Armênio Eduardo Costa Leão Filho, de 32 anos, mais conhecido como Armênio Poesia, emplacou 21 sambas-enredo no Grupo Especial nos últimos anos, número considerado recorde no meio. “Não há ninguém com essa marca por aqui”, assegura Maria Bernadete Raimundo, presidente da ala dos compositores da Unidos do Peruche.

+ Em vídeo, Armênio Poesia declama seus sambas-enredo favoritos

Um dos concorrentes mais respeitados nessa área, o Zeca do Cavaco, da Vai-Vai, coleciona onze sambas-enredo no currículo. “Ter mais de duas dezenas de músicas cantadas no Anhembi é para poucos”, afirma Osmar Costa, empresário de cantores como Leci Brandão e Jorge Aragão. Dois desses sambas, assinados com outros parceiros, estarão presentes no desfile de 2013: o da Rosas de Ouro (Os Condutores da Alegria, numa Fantástica Viagem aos Reinos da Folia) e o da Dragões da Real (Dragão, Guardião Real, Mostra Seu Poder e Soberania na Corte do Carnaval). Ambas as escolas desfilarão nesta sexta (8).

Em vez de esperar a inspiração que chega de repente ao relento das madrugadas, entre um trago e outro de cachaça, Armênio criou uma metodologia de trabalho. Acorda com frequência às 5 horas para escrever e, quando termina, testa o resultado cantando sozinho no banheiro. “Às vezes, também levanto no meio da noite e anoto o que sonhei para ver se pode render alguma coisa”, garante. Seus sambas, com duração média de dois minutos, contêm em média 27 versos, “para que o público não tenha dificuldade de aprender a letra”.

Armênio Poesia box
(Foto: Reprodução)

Quando um deles vence a guerra na quadra, que é travada toda vez que se escolhe o hino que será defendido na avenida, ele embolsa um prêmio de 60.000 reais, que é rachado em partes iguais com os parceiros. Poesia não impressiona apenas por ser uma máquina de composição. Algumas de suas músicas ficaram marcadas por grandes vitórias. É dele o refrão chiclete “A X-9 vem aí, vai sacudir / Bota água pra ferver, no Anhembi / Vem nessa amor, que eu quero ir”, responsável por dar à agremiação o título de campeã do Carnaval de 2000 ao lado da Vai-Vai. Poesia também fez a letra “Tá na boca do povo / O cacau chegou / Sou Rosas, Rosas de Ouro / Meu sabor te conquistou”, que ajudou a Rosas de Ouro a sair vitoriosa em 2010.

Formado em administração de empresas e marketing e pós-graduado em gestão de negócios pela Fundação Getulio Vargas, ele não vem de uma família de sambistas, como é muito comum nesse universo — o pai é dono de um gatil, e a mãe, advogada. Foi vendo a transmissão do Carnaval pela TV que o então garoto se encantou pelo negócio. Aos 15 anos, pisou pela primeira vez no Sambódromo e simpatizou com a X-9, que defendia na ocasião um samba sobre a Zona Norte, onde fica o bairro de Santana, no qual ele morava (reside atualmente na vizinha Vila Guilherme). Com os amigos da internet, começou a rascunhar as primeiras composições. Demorou um tempo até tomar coragem para mostrá-las nos concursos das escolas. Em 1999, fracassou em suas primeiras disputas, na X-9 e no Peruche. No ano seguinte, porém, obteve a primeira vitória, na própria X-9. “Consegui na raça mesmo, sem a ajuda de ninguém”, lembra, falando do tempo em que trabalhava como amador.

Armênio Poesia
Vanessa Leão, mulher de Poesia, em um ensaio técnico da Rosas de Ouro: venda de fantasias para alas de foliões (Foto: Rodrigo Paiva/RPCI)

Hoje, a exemplo da maioria dos outros compositores, investe cerca de 15 000 reais em cada concurso de que participa. O dinheiro paga o puxador, os músicos e até gente da plateia para cantar junto e incentivar. Ele aproveita a experiência para faturar também comandando alas de escolas. Com a ajuda da mulher, Vanessa Leão, vende espaço a foliões que querem desfilar no Anhembi. No Carnaval de 2013, eles cuidaram de uma ala de 104 integrantes da Rosas de Ouro. Cada um pagou diretamente ao casal 520 reais pela fantasia. “O Carnaval bancou meu casamento em 2009 e, em março, vai patrocinar nossas férias na Califórnia”, conta Poesia.

As sucessivas vitórias o transformaram numa espécie de grife do Sambódromo. “Ele tem talento para escrever e sabe bem quais são as necessidades das escolas”, afirma Osmar Costa. Apesar do sucesso, Poesia recebe algumas críticas por seu estilo “serial-pagodeiro”. Ele diz que a Rosas de Ouro é sua atual escola do coração. Mas isso não o impediu de colocar músicas em rivais como a Acadêmicos do Tucuruvi e a Tom Maior, entre outras. Embora seja corintiano e tenha criado o samba-enredo de 2011 da Gaviões da Fiel, não viu problemas em colaborar com a palmeirense Mancha Verde por duas ocasiões (2009 e 2012) e, agora, em figurar na são-paulina Dragões da Real. “Separo bem o futebol da música”, defende-se.

Como algumas agremiações criam regras para tentar evitar que suas concorrentes tenham o mesmo compositor, Poesia, como outros sambistas, costuma usar pseudônimos para driblar a regra. Muitas escolas acabam fazendo vista grossa para a esperteza. Em 2002, por exemplo, assinou com o nome de Jelleia, apelido do amigo Fábio Roberto Lisboa. E não é que o Jelleya original gostou tanto do negócio que virou compositor? “Não fui laranja de ninguém, pois na época trabalhei com o Armênio e outros parceiros”, conta. “Hoje somos rivais porque concorremos nos mesmos espaços.”

Armênio Poesia box
(Foto: Reprodução)

Fonte: VEJA SÃO PAULO