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Sem chuva, São Paulo pode começar a cobrar por desperdício de água

Secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Edson Giriboni estuda aumentar conta ou aplicar multa para quem ampliar consumo e aponta regiões mais vulneráveis

Por: Nataly Costa - Atualizado em

Torneira - água
Hoje, quem economiza 20% de água por mês tem desconto de 30% na conta (Foto: Latinstock)

Passados dois meses sem uma quantidade significativa de chuvas, o fantasma da falta de água começa a ser uma preocupação para os paulistanos. Uma das medidas para incentivar a redução no consumo - desconto de 30% para quem economizar 20% de água por mês - ainda não surtiu o efeito desejado e o governo estuda agora uma outra abordagem. Se até o fim de fevereiro não chover o suficiente para abastecer os reservatórios, a Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos pode aumentar a tarifa de quem consumir água demais. A informação é do secretário Edson Giriboni, que considera ainda os bairros região central ea  Zona Norte os mais sensíveis à falta de água - são aqueles que dependem do Sistema Cantareira, que atingiu nesta terça-feira (11) um novo recorde negativo: tem apenas 19,4% de água em sua capacidade, o menor nível na história.

 

O Sistema Cantareira abastece 8,8 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Além de parte da capital, é responsável por fornecer a cidades como São Caetano do Sul, Osasco, Cotia e Carapicuíba. Já a Zona Sul da capital é provida pelo Sistema Guarapiranga, que ainda armazena 62,6% de volume de água. A Zona Leste da capital usufrui de um sistema misto: pode receber o recurso do Cantareira ou do Alto Tietê. Como a situação é crítica, 1,6 milhão de moradores dessa área estão usando a segunda opção. 

Confira a entrevista exclusiva com o secretário Edson Giriboni concedida à VEJASAOPAULO.COM

Qual o balanço da primeira semana do desconto oferecido pela Sabesp a quem economizar água?

Na semana anterior, a produção era de 33,6 metros cúbicos de água por segundo. Na primeira semana depois do bônus, esse número caiu para 33,1. Houve uma economia de meio metro cúbico por segundo, apesar de a temperatura média ter subido de 29 para 31 graus Celsius. Já foi uma primeira resposta, pequena. 

Quais são as chances reais de racionamento na cidade de São Paulo?

A chance é proporcional à possibilidade de chuva. Estamos dependendo da chuva. É difícil falar porque as previsões têm uma margem de erro grande. Tivemos uma reunião na semana passada com o pessoal do Inmet. Eles previam que na segunda quinzena de fevereiro voltaria a chover. 

O cenário é considerado preocupante tanto pelo governo quanto por especialistas. O que está sendo feito para evitar o racionamento?

Não tenha dúvida de que é preocupante. Você lança o desconto na tarifa em função dessa preocupação. Isso está claro. O que estamos procurando fazer é esgotar todas as possibilidades para evitar um racionamento. Por exemplo, 1,6 milhão de pessoas abastecidas normalmente pelo Sistema Cantareira estão sendo agora pelo Alto Tietê. É uma ação importante para prolongar a capacidade dos reservatórios. Outra ação da Sabesp é você usar a reserva morta, água que normalmente não é utilizada dos reservatórios. A orientação é trabalhar para evitar o racionamento. Lógico que se terminar fevereiro, começar março e as chuvas não vierem, ou vierem em quantidade pequena, aí é uma questão física. Se tem pouca água tem que distribuir de outra forma. Mas por enquanto não há nenhuma decisão de qualquer racionamento. 

Qual é o risco?

Só poderia dizer se soubesse quanto vai chover em fevereiro e março. Tem mais 20 dias. As previsões mudam diariamente, vão atualizando. Havia expectativa para janeiro, mas só choveu 87, 7 milímetros (a média histórica para o mês é de 259 milímetros e a mínima história é de 111 milímetros para janeiro). O mesmo ocorreu em dezembro, então foram dois meses seguidos. Mas não acreditamos que vamos para um terceiro mês sem chuvas. Estatisticamente, ainda pode chover bastante.

Se não chover o suficiente, até quando teremos água no Sistema Cantareira?

Corre o risco de zerar em junho. Se continuar o volume atual de chuvas, zera em junho. Se tivermos os níveis mínimos de chuvas da média histórica, o sistema zera em julho. E, se retornarmos com o volume de chuvas, subimos o nível da reserva e com isso não teremos racionamento. 

Quais são os bairros mais sensíveis à falta de água?

São todos os bairros operados pelo Sistema Cantareira e mais Osasco, Carapicuíba, Barueri. Em São Paulo, basicamente a Zona Norte e a região central. São 3,2 milhões de famílias. (Além das zonas Norte e centro, o Sistema Cantareira abastece 100% da Zona Oeste da capital)

Algumas cidades da Região Metropolitana, como Guarulhos, já adotaram o racionamento de forma preventiva. Não foi cogitado fazer o mesmo em São Paulo?

Antes de impor um sacrifício maior à população, vamos esgotar as possibilidades. Vamos pedir a colaboração voluntária. Acendeu um sinal amarelo. Se não der resultado, tem que acender o sinal vermelho. Estamos falando: "economize água". Se chegou nesse ponto, é porque há riscos futuros. Se não funcionar, é inevitável. Vamos esperar fevereiro, sentar e avaliar se continuamos mantendo só o desconto ou eventualmente tomamos uma decisão um pouco mais drástica. Existe, por exemplo, a possibilidade de fazer como alguns já estão fazendo. Vi que algumas cidades estão querendo aplicar multa. Você tem o bônus e pode ter o ônus, não é?

Aplicar multa a quem desperdiça água?

Ou aumentar a tarifa de quem consumir mais. Aí são todas as possibilidade que têm de ser avaliadas ao longo de fevereiro.

Para quem valeria esse aumento de tarifa, para os grandes consumidores?

Depende. Pode ser para todo mundo ou para grandes consumidores. Abre-se um leque de possibilidades. Hoje, se eu consumir 20% a menos tenho redução de tarifa. Então, se consumir 20% a mais também posso ser penalizado. Isso é uma decisão que pode ser tomada e levada à Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia). O desconto foi levado a eles. Ou seja, primeiro foi dado um prêmio e feito um pedido de colaboração. Se chegar a um ponto que isso não seja suficiente, você tem que partir pra outras medidas. 

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO