Crônica

A mais linda

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Há pouco tempo reencontrei minha paixão de adolescência. Era uma garota do colégio, morena, que arrebentava os corações. Um ano mais velha que eu. Mais tarde, tão pequena diferença de idade não significaria coisa alguma. Na época era fundamental. As mocinhas se encantavam pelos rapazes mais velhos, vestibulandos ou universitários. Seu namorado, lembro-me, tinha barba malfeita, bigode e um jeito rebelde. Eu era tímido, magricela, usava óculos maiores que meu rosto e ficava vermelho por qualquer motivo. No quesito barba e bigode, ostentava apenas uma penugem. Motivo pelo qual, às vezes, passava pó de café sobre os lábios para simular pêlos raspados. Hoje, imagino que devia parecer um bobo!

Enquanto minha família sofria para pagar as prestações da televisão, meu suposto antagonista era milionário, filho do dono de uma cadeia de restaurantes. Tinha carro. Casa de praia. Era óbvio que ela nem me olhava. A seus olhos eu pertencia à matilha de garotos barulhentos, enquanto ela, é claro, já se considerava mulher feita. Sua turma era bem liberada, de acordo com o figurino do fim dos anos 60. Garotas usavam minissaias curtíssimas. Casais de namorados passavam fins de semana no litoral. Eu e meus amigos falávamos dela fascinados. Viera de outra cidade, brigada com a família. Morara em casas de amigos. Trabalhava para se manter. Ou seja, já pertencia ao mundo dos adultos. Eu lutava contra as espinhas no rosto. Esforçava-me para assumir um ar experiente ao falar de sexo com meus amigos. Mas era absolutamente virgem, e morria de medo que alguém descobrisse!

Um primo do namorado da garota estudava no colégio, e tornou-se meu amigo. Depois disso, eu a encontrei muitas vezes. Lembro-me de um churrasco em que gaguejei quando ela perguntou onde eu tinha pegado o refrigerante. Eu sonhava com ela. Pensava em quanto seria bom se ela se apaixonasse por mim. Cheguei a ir a uma cartomante perguntar se eu tinha chance. Para meu horror, a mulher abriu o baralho e me aconselhou dedicação aos estudos. E ainda cobrou a consulta!

Graças a um pedido de meu amigo, ela tentou me arrumar um emprego. Apresentou-me a seu chefe, que me achou muito novo. No fim do ano, ela saiu do colégio para prestar vestibular. Nunca mais nos vimos. Tive notícias dela esporadicamente. Casou-se. Separou-se. Casou-se de novo. Separou-se. Com o tempo, as notícias se tornaram mais raras.

Recentemente eu a encontrei em uma festa. No primeiro instante, mal a reconheci. Engordou. Não apenas alguns quilos, como acontece com todo mundo. Tornou-se obesa. Seus movimentos são lentos. Fui até ela com um sorriso.

– Lembra-se de mim? Fomos do mesmo colégio. Você até quis me ajudar a achar um emprego.

Ela me encarou, distante.

– Não, não lembro de você. Da época do colégio, só vagamente. E muita coisa eu queria esquecer.

Voltou a falar com uma amiga. De fato, não tinha motivo para se lembrar. Para mim, era a mais linda. Para ela, eu não passava de um garoto magricela, da turma dos mais novos. Mais que isso: nem de longe pareço aquele adolescente. Também engordei. Tenho cabelos grisalhos. Mesmo assim, o encontro mexeu comigo. A paixão, é claro, virou cinzas há muito tempo. Mas, ao vê-la, redescobri os olhos pretos que um dia me comoveram. Meu coração deu um pulinho de saudade. E tive a certeza de que os sentimentos, sonhos, afetos que vivi estão guardados lá no fundo. E sempre podem ressurgir como uma deliciosa recordação, uma saudade do que foi sem nunca ter sido.

Fonte: VEJA SÃO PAULO