Grupo de amigos fotografa a cidade que só existe de madrugada

Rolê virou o nome oficial da turma, que, só neste ano, organizou seis exposições

Vamos dar um rolê? A gíria do fim dos anos 80, usada entre os jovens da época para um convite a uma volta sem destino muito certo, cresceu junto com a geração que a inventou. Foi sempre com essa expressão que um grupo de amigos fotógrafos, hoje com 30 e poucos anos, combinou seus encontros. Em 2004, os rolês eram só um pretexto para eles se reunirem, conversarem sobre os últimos lançamentos de lentes e câmeras e fazerem alguns cliques, claro. Tudo à noite, depois dos compromissos e de uma rodada de cerveja. Sem muita ambição, na mais perfeita sintonia com o próprio espírito dos tempos da adolescência. Até que as saídas se tornaram freqüentes e o resultado dos registros, mais sério. Rolê virou o nome oficial da turma, que, só neste ano, organizou seis exposições – entre elas, uma individual na Galeria Plastik, no Jardim Paulista, em março. Aos poucos, os treze integrantes do coletivo, que inclui também um videomaker, vêem a balada se transformar em profissão.

Não que as animadas reuniões entre os colegas devam acabar. Justamente o contrário. Eles têm consciência de que só conseguem boas imagens da madrugada na capital porque trabalham em bando. “Usamos tripé e andamos com um equipamento caro. O grupo garante certa segurança”, explica Zé Pedro Russo. A única regra no Rolê, aliás, trata da proteção. “O penúltimo sempre espera o último”, diz Ronaldo Franco. “E o último é, quase sempre, o Marcão (Marcos Ci-mar-di)!”, entregam todos, com uma intimidade cultivada ao longo de 38 passeios pelos mais diversos cantos de São Paulo. Nem a periodicidade das saídas, que costumam começar à meia-noite e se estender até as 3, 4 da manhã, é predeterminada. Geralmente, um deles manda um e-mail com o título: “Rolê na semana que vem”. Muitas mensagens depois, ficam acertados o dia e o local da próxima aventura. Comparece quem pode e quem quer.

Apesar de a maioria usar máquinas digitais, o ritmo de produção varia muito entre os participantes. Enquanto Russo faz cerca de trinta fotos por encontro, Franco chega a disparar sua câmera uma centena de vezes. Os objetivos também se alternam. Renato Missé gosta de incluir personagens em seus enquadramentos. Já Russo busca ângulos que favoreçam uma cidade bela. As imagens, que podem ser vistas no site http://www.role.art.br, levam sempre a assinatura do grupo, sem ressaltar individualidades.

Das caminhadas pela Avenida Paulista e por bairros como Liberdade e Bela Vista, os amigos colecionam histórias, dessas perfeitas para empolgar a roda antes de um rolê. Entre as revistas da polícia, o medo de assalto e as conversas com moradores de rua cheios de imaginação, Russo conta: “Durante a madrugada, o Tietê faz um barulho estranho. Solta bolhas que estouram na superfície”. O clima de mistério, no entanto, é logo cortado. “Lembra quando o Renato confundiu uma capivara nadando no rio com um jacaré?” De madrugada, para o Rolê, São Paulo mais parece uma cidade do interior.

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