Malandragem

Confira a crônica da semana

Papo vai, papo vem, o amigo do Rio reclama, bem-humorado: “É preconceito essa história de que o carioca não gosta de trabalhar. Na verdade, a indisposição para a tarefa constante e rotineira, a ojeriza, ou chamem implicância com o batente, se aplica aos praianos do Rio até a Bahia. Por que pegar no pé dos cariocas e fazer uma tremenda injustiça com os fluminenses, capixabas e baianos?”. Rebato: “No caso dos baianos, é mais estilo do que preguiça, é ritmo. Enquanto outros praianos descansam a metade da semana e trabalham a outra metade, os baianos vão trabalhando e descansando ao mesmo tempo”. Tudo acaba em risadas. Mas de onde vem essa história?

A fama dos cariocas tem documento de mais de 250 anos, de quando a capital colonial foi transferida de Salvador para o Rio, em 1763. O primeiro vice-rei do Brasil, conde da Cunha, escreveu em carta ao conde de Oeiras, futuro marquês de Pombal, prestando contas das suas dificuldades para a missão de urbanizar e fortificar a nova capital: “Os naturais do Rio de Janeiro distinguem-se pela preguiça”…

Na metade do século XIX, o personagem do romance carioca Memórias de um Sargento de Milícias era o quê? Um malandro. No comecinho do século XX, em 1903, o poeta carioca Olavo Bilac publicou na Gazeta de Notícias uma crônica em que cita o conde da Cunha e diz: “Justa ou injusta naquele tempo, a acusação do severo vice-rei ainda hoje nos é lançada em rosto”. Extraio também este trecho:

“Há poucos meses, um estrangeiro, jornalista de Buenos Aires, perguntava-me na Rua do Ouvidor: ‘Que faz toda esta gente, que ampara as paredes das casas com as costas?’. E dizia-me o seu espanto ao ver nas praças, nas esquinas, no cais, nos jardins, às horas habi tuais do trabalho, a multidão inumerável dos desocupados, dos que se consumiam na ociosidade, mãe dos pensamentos maus…

Desviei desse assunto a conversa, e não respondi. Que poderia responder? Apenas que o trabalho era um mito no Rio de Janeiro e que, para os dois terços da população carioca, as horas ligavamse às horas, todas vastas, todas inúteis, dissipadas na bandarrice, na maledicência e no ócio…”.

Quatro décadas depois, Walt Disney veio ao Rio para observar o povo e criar um personagem brasileiro para seus desenhos, e o que foi que saiu? Zé Carioca, um papagaio malandro, avesso ao trabalho, preguiçoso, esperto. Desde os anos 30, entrando pelos 40 e 50, sambistas cariocas como Wilson Batista, Moreira da Silva e outros faziam a apologia da vida malandra em dezenas de sambas: “Trabalhar, eu não, eu não!”, dizia um. Nos anos 70, Chico Buarque procurava o velho malandro carioca e achava o “malandro com aparato de malandro oficial, malandro candidato a malandro federal, malandro com retrato na coluna social”. Romário foi o típico craque carioca: nada de treinos, futebol como diversão e, no campo, esperar ali uma boa oportunidade.

Convivo com esse folclore em um sítio a 40 quilômetros de Niterói. A gente chama um eletricista, um pedreiro, um marceneiro, a operadora Oi, a companhia de luz — ninguém vai. Meu irmão morava na Praia de Santa Clara, em Campos. A geladeira pifou e ele passou um mês tentando que o técnico fosse lá. Encontrava-o na praia, no bar, na oficina, cobrava a visita, e o outro, afável, deslizava: “Tem tempo”. Acabou comprando uma geladeira nova. Num sábado, o dono do sítio vizinho ao meu tinha convidados para o almoço. A empregada, negra bonita, moça, tardava. Aflito, foi à casa dela, encontrou-a deitada. Doente?

— Não, tou com preguiça. E não foi.

De fluminense para carioca, estava explicado.

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