A história real dos pais que não saíram de férias

Enquanto os pais estiveram detidos, os cinco filhos da família Hamburger ficaram sob cuidados das avós e de amigos

Cao Hamburger se recorda de uma fase, na infância, em que “tropeçava em barbudos” na sala de casa. Em alguns momentos, durante os anos do regime militar, sua família hospedou perseguidos políticos a pedido de amigos. “Também demos abrigo a alguns alunos”, conta Amélia Hamburger, que, ao lado do marido, Ernst, trabalhava como professora de física na USP. Segundo eles, o clima não era de clandestinidade. “Pelo contrário: as janelas ficavam abertas e os hóspedes brincavam com as crianças”, diz Ernst. O casal Hamburger afirma que nunca teve atuação política. Mas foi preso em dezembro de 1970 – ela durante uma semana, ele por duas – sob a acusação de “servir de apoio” para militantes de esquerda. Profundamente marcada pela experiência, Amélia até hoje encontra dificuldade em falar sobre esses acontecimentos. Ela e os cinco filhos raramente mencionam aquele período. “Lembro de um dia em que me deixaram ligar para casa”, diz, emocionada. “Era perto do Natal, e as crianças cantaram Noite Feliz no telefone… Foi aí que eu desabei.” Quando deixou a prisão, abaladíssima, a professora passou por um tratamento de sonoterapia, que consistia em dormir, sob a indução de remédios, por dias e noites. Enquanto os pais estiveram detidos, os cinco filhos – o caçula Fernando não tinha completado 1 ano – ficaram sob os cuidados das avós e de amigos da família. “Cao foi o único que se recusou a deixar nossa casa”, explica o pai. “As avós então se revezaram para ficar aqui com ele.” O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é dedicado a elas: Charlotte, a avó judia, e Helena, a católica.

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