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Casos de gripe em crianças sobem até 30% em hospitais

Especialistas afirmam que há muito mais motivos para cenário além do afrouxamento de medidas de distanciamento e volta às aulas

Por Clayton Freitas 3 dez 2021, 19h55

Os casos de síndrome gripal apresentaram aumento em vários serviços de saúde da cidade de São Paulo. Em alguns hospitais especializados em atendimento infantil esse avanço chega a ser de até 30%.

Essa elevação nessa época do ano é atípica, já que o pico da doença é sazonal e costuma ocorrer entre março e julho.

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Para especialistas, esse cenário pode ser explicado por uma série de fatores que vão muito além do afrouxamento das medidas de distanciamento e da volta às aulas. Entre os itens apontados estão os seguintes:

  • recuperação da circulação do vírus da gripe;
  • adesão à vacinação contra a gripe abaixo da meta de 90%;
  • menor hesitação em procurar serviços de saúde;
  • aumento de exames coletados por suspeitas de Covid-19

Segundo Celso Granato, virologista, infectologista e diretor clínico do Grupo Fleury, há cerca de dez dias o número de casos começou a subir em São Paulo. O que chama a atenção é que diferentemente do vírus que vinha circulando, o H1N1, também chamado de Influenza A, agora o que se percebe é um predomínio de uma nova mutação do vírus da gripe, H3N2, um subtipo da Influenza A.

“Não é comum ter um predomínio de H3N2. No meu raciocínio, ficamos dois anos com muita pouca gripe. Em 2020 desapareceu. A gente não tinha nem caso para mostrar para aluno. Como a população ficou despreparada em termos de imunologia, e, mesmo com a vacina, você não está bem protegido”, afirma.

Ainda não é possível saber com exatidão qual é a extensão desse aumento dos casos de gripe na rede pública e privada e quanto isso impactará os serviços de saúde. O motivo é que as chamadas síndrome gripais não são de notificação compulsória segundo diretriz do Ministério da Saúde, que orienta registrar apenas aquelas mais graves.

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É o que acontece, por exemplo, com a rede pública municipal de saúde de São Paulo. Segundo explica Alessandra Geisler, gerente médica do Hospital Menino Jesus, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, as síndromes gripais não são monitoradas. O que é feito é apenas um acompanhamento epidemiológico.

Entretanto, essa contabilidade é feita na rede privada. Em alguns hospitais de atendimento geral, como no caso do hospital Santa Catarina, houve até queda. Até novembro deste ano foram 337 casos, número inferior aos 344 de todo o ano de 2020.

Em outros, porém, houve uma escalada do número de casos nos últimos meses, como no caso do hospital Sírio-Libanês. Em julho o hospital havia registrado 58 atendimentos desse tipo, número que passou para 77 em agosto; 153 em setembro; 207 em outubro e 179 até o dia 23 de novembro último, dados mais recentes disponibilizados pela instituição.

Segundo a médica Maura Salaroli de Oliveira, gerente médica da comissão de controle de infecção hospitalar do Sírio-Libanês, os vírus responsáveis por esse aumento são o VRS (vírus sincicial respiratório), uma das principais causas de infecções das vias respiratórias e pulmões em recém-nascidos e crianças pequenas; o enterovírus/rinovírus (geralmente detectado em adenoides e amígdalas), e o parainfluenza. É devido a isso que cerca de 70% dos acometidos são crianças, segundo a instituição.

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Infantil

O mais recente boletim InfoGripe produzido pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), divulgado na última quinta-feira, indica tendência de crescimento de longo prazo de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

O avanço é reflexo do impacto da forte alta no grupo de bebês e crianças de 0 a 9 anos de idade. Se de fato elas estão relacionadas ou não com a síndrome gripal, apenas resultados dos exames laboratoriais a serem inseridos no sistema do Sivep-Gripe pelas secretarias estaduais e municipais de saúde vão dizer.

No Sabará Hospital Infantil, houve aumento de 30% dos casos de síndrome gripal no último trimestre –de setembro a novembro deste 2021–, em relação a igual período de 2019.

“Esses números vêm só subindo e não pararam”, afirma o pediatra Felipe Lora, diretor técnico do hospital.

A hipótese que ele sustenta é a de que há uma recuperação da circulação do vírus. “E não se sabe em que patamar vai parar ainda”, diz.

Entre os motivos que podem explicar esse comportamento está a retomada da obrigatoriedade das aulas presenciais. “O principal evento social da vida de uma criança é a escola.”

Um dado que chama a atenção do pediatra é a quantidade de atendimentos e internações por bronquiolite. Na maior parte das vezes ela é provocada pelo vírus VSR, e atinge majoritariamente bebês de até dois anos de idade. Comum nos meses frios, ela vem apresentando forte alta nos últimos meses.

De março a junho deste ano, meses conhecidos pela sazonalidade de casos, foram 568 crianças atendidas na urgência do Sabará Hospital Infantil com bronquiolite, número que saltou para 802 de agosto a novembro, numa alta de 41%. Já a quantidade de internações aumentou 20% no período.

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Se comparado apenas o mês de novembro com os anos anteriores, percebe-se que o número mais do que dobrou tanto em atendimentos de urgência quanto de internações.

Os dados ainda precisam de uma análise mais acurada. Falando em tese a partir de sua experiência como pediatra, o médico Felipe Lora relaciona esse avanço ao fato de os menores de dois anos serem mais suscetíveis devido ao isolamento. “Temos quase dois anos de pandemia e eles não tiveram contato com o vírus de forma mais branda, seja pelo fato de um irmão mais velho trazer ou não. Isso prepararia a criança. Estamos falando de uma geração de crianças que estão mais suscetíveis a doença”, afirma.

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